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sexta-feira, 16 de agosto de 2024

DA LAMA AO CAOS

"[...] de que não somos amados; de que o objeto de nossa afeição é frio e infiel... Por quê? Por que nunca vemos a traição nos olhos delas até ela ficar cara a cara conosco? Eu entendi tudo. Eles se viam desde o princípio. Provavelmente, planejaram o incêndio no museu de cera para me tirar do caminho. Quantas vezes? Quantas vezes ele subiu sorrateiro estas escadas do setor de livros e papelaria, passando pelo de acessórios de jardinagem até chegar ao departamento de roupas femininas? Quantas vezes ela tolerou meus beijos com desdém e escárnio, o tempo todo aguardando pelo sinal no céu que a avisaria de sua chegada? Quantas vezes? Sendo bem franco, isso não me importava mais. Eu não me importava mais quantas vezes, quantos homens e com que freqüência. Eu não me importava mais com números. Só havia um pensamento em minha mente, uma inabalável determinação: NUNCA MAIS."

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Essa passagem pertence à história Barro Mortal, com roteiro de Alan Moore e arte de George Freeman, publicada em Batman Anual nº 11, de julho de 1987. Aqui no Brasil, foi lançada em fevereiro de 1988 pela Editora Abril, dentro da 6ª edição da segunda série mensal do Batman. Esse conto só voltaria a ser republicado quase vinte anos depois, em 2006, dessa vez pela Panini, dentro do encadernado Grandes Clássicos DC nº 9, dedicado integralmente ao barbudo. Fora de catálogo há um bom tempo, esse encadernado ganhou uma versão de luxo, trazendo novamente essa história em 2022; mas antes disso, também integrou a A Saga do Batman nº 1 em 2021.

O monólogo é de Preston Payne, o terceiro personagem da galeria de vilões do Batman a usar a alcunha Cara de Barro. Nela, ele está há alguns meses vivendo escondido em um shopping center, alimentando um insólito romance com um manequim que chama de Helena. Em algum momento, Payne começa a imaginar que está sendo traído e passa a acreditar que o Ricardão é o Batman. Trata-se de um singelo tratado de amor e ciúme, e a loucura que pode preencher as duas coisas.

Nas linhas a seguir, além de Barro Mortal, iremos ao encontro do arco Quadra de Lama, que desenvolveria posteriormente a condição de Preston Payne e o reuniria com os demais Caras de Barro.

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A primeira vez que encarei Barro Mortal foi justamente via republicação, em Grandes Clássicos DC nº 9. Uma curiosidade sobre a produção desse conto é que Alan Moore o escreveu após concluir o roteiro de A Piada Mortal, mas acabou que, provavelmente por conta do nível de sofisticação da arte do Brian Bolland, Barro Mortal acabou saindo bem antes, em julho de 1987; enquanto que Piada Mortal só viria à luz um ano depois, em julho de 1988. Como toda boa história, ela é atemporal. Se você estiver lendo esse texto daqui a cinco, dez anos ou mais, e tiver curiosidade sobre esse conto, vai lê-lo e ainda se deliciar com a delicada ironia presente aqui.

Pensando bem, pode-se dizer que esse tipo de HQ de super-herói anda em falta. Por que afirmo isso? Porque, hoje, via de regra, existe um excesso de protagonismo do personagem-título e, muito raramente, o leitor se depara com algo em que quem dita as ações no recordatório não sejam o próprio dono da revista; nesse caso, o Batman.

Vou até mais longe: a beleza de uma boa história do Batman está na condução de uma narrativa, talvez onisciente, mas que não sabe ou passe exatamente a ideia do que ele está pensando naquele momento. Algo que, na minha opinião, reforça o mistério sobre o personagem. O que tem para hoje, porém, tem sido um Batman nu. Um Batman transparente, que fala sobre suas angústias, suas paixões, sobre seus medos. Chora. Ele abraça. Abraça demais, e isso é tudo o que não aprecio no Batman contemporâneo.

E, veja só, num simples quadro aqui, o vemos estendendo a mão para o Cara de Barro, explorando, sem qualquer afetação, a compaixão como algo natural no herói. Então, é com muita alegria e tristeza que revisito Barro Mortal. Alegria, por reencontrar esse quadrinho excepcional. Tristeza, pela percepção de que as chances de voltar a topar com algo assim são bem remotas.

Do line-up da Saga do Batman inaugural, sem dúvida alguma, a melhor história é essa do Alan Moore com o Cara de Barro. Melhor, porém deslocada. Porque faria mais sentido segurar um pouquinho a mão e a relançar junto de Quadra de Lama, que sai originalmente entre Detective Comics nº 604-607 (1989); e no nosso Saga, dentro do Volume 13 (2022). Voltando um pouco a fita, esse arco de Alan Grant e Norm Breyfogle foi o destaque das edições nº 8-9 da 3ª série mensal do Batman pela Abril. Curiosamente, esses dois números saem sem um delay tão grande, que era a regra para época; precisamente entre setembro e outubro de 1990[1].

O que desde já fica bem claro, é que Grant procurou se inteirar sobre cada uma das quatro encarnações dessa alcunha vilanesca, mostrando uma aptidão pela pesquisa histórica que viria após aquele “Ano Vertigo”, dada a obrigação de, doravante, estar a par com as minúcias da cronologia do Universo DC[2]. Então, me parece seguro imaginar que o escritor passou os olhos no gibi do seu conterrâneo britânico e percebeu que havia ali uma deixa clamando por um desenvolvimento posterior, tanto é que o começo de Quadra já parte da premissa que Preston Payne está preso no Arkham, em companhia da manequim Helena.

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Karlo &

Hagen &

Payne &

Fuller.

O Cara de Barro original surgiu no princípio de Batman, na Era de Ouro, em Detective Comics nº 40 (1940); com roteiro de Bill Finger e arte de Bob Kane. Isto é, treze edições depois da estreia no nº 27. No Brasil, foi chamado inicialmente de o “Cara Suja”. Na realidade, ele era só um ator de filmes B chamado Basil Karlo, que se revolta ao descobrir que o estúdio faria um remake de seu maior clássico e acaba assassinando alguns atores da produção. O Batman entra em cena, justamente porque uma das atrizes da produção era Julie Madison, um dos primeiros interesses amorosos de Bruce Wayne.

Ao ser capturado, percebe-se que Karlo não passa de um homem com maquiagem grotesca simulando barro. Sua soltura só se daria em Quadra de Lama; editorialmente falando, foram quase 50 anos de cárcere! Na história de Grant e Breyfogle, parte dele a iniciativa de reunir os seus sucessores numa vendetta contra Batman, contudo, com uma agenda própria. Na recém-lançada série animada, Cruzado Encapuzado, ambientada nos anos 1940, Karlo é retratado como um ator que deseja melhorar sua aparência e se submete à fórmula experimental de um cientista. O resultado não é o desejado, mas lhe confere a capacidade de emular os rostos alheios.

Matt Hagen foi o Cara de Barro II e, provavelmente, o mais conhecido. Também criado por Bill Finger, mas com arte do Sheldon Modoff, seu debute se deu em Detective Comics nº 298 (1961). Trata-se de um caçador de tesouros que encontra uma caverna cujo interior havia uma piscina radioativa de protoplasma. Ao se banhar acidentalmente nesse lamaçal, ele desenvolve poderes transmorfos, superforça e invulnerabilidade. Todos, porém, temporários, o que o impunha voltar à câmara secreta para mais banhos. Em Lendas do Cavaleiro das Trevas nº 89-90 (1996), Alan Grant e Enrique Alcatena se juntam para dar novas camadas a essa origem.

Chamada simplesmente de Barro - inédita no Brasil -, a história tem lugar nas três primeiras semanas de Bruce como Batman. É explicado que Hagen acha a tal caverna ao fugir dos capangas do Chefe Xylas, o qual tinha passado a perna num roubo de diamantes. Lisa, sua namorada, ficou para trás e, eventualmente, ele vira o Cara de Barro e a liberta dos homens que a ameaçavam. Batman o vê destroçando os bandidos e tenta intervir. Não dá muito certo. Nada certo. Grant vende a ideia que foi nesse encontro que Batman descobriu da pior forma a existência de metahumanos. A experiência foi tão traumática que, ao se recuperar dos ferimentos, Bruce pede para atualizar seu testamento; fora a crise de insegurança que lhe acomete nos dias seguintes. Ao superá-la, ao domar o próprio medo, não importa a ameaça, humana ou super-humana, ele daria conta, controlaria o mundo. 

Todavia, o momento mais desconcertante de Barro é quando Lisa - a única outra pessoa que conhece a localização da piscina -, se vê exaurida com a mudança de Hagen, e pede para acabar o relacionamento. Eles se despedem num último abraço; para ela, literalmente. Já o namorado lamacento, se despediria, ou melhor, seria uma das vítimas da Crise nas Infinitas Terras. Inclusive, a participação em Quadra de Lama é mínima, numa tentativa em vão de usar os "restos mortais" para restaurá-lo.

Recapitulando: O Cara de Barro já foi um artista e um aventureiro. O próximo seria um cientista. Preston Payne era um pesquisador que sofria de acromegalia com hiperpituitarismo crônico. O tal gigantismo. Por conta de sua aparência, Payne tinha sido uma criança complexada, sem amigos e com Q.I. de gênio. Quando adulto, ele se emprega nos laboratórios DELTA e se especializa em doenças hormonais. Em algum momento, ele se interessa pela condição de Hagen e o visita na prisão, coletando uma amostra de seu sangue.

No laboratório, consegue isolar uma enzima que quando injetada no sangue tornava seus tecidos maleáveis. Dá tudo errado e aí ele não conseguia mais se manter sólido; para não derreter, projeta um traje de contenção similar ao do Senhor Frio. Mas o principal problema era que, o toque dele reduzia outras pessoas a protoplasma. Daí para sobreviver, periodicamente, ele tinha que liberar esse poder sobre outras pessoas. Daí a culpa de ter que fazer isso periodicamente acaba deixando-o louco; como vemos em Barro Mortal.

A Cara de Barro, ou Dama de Barro, chama-se Sondra Fuller. Criação de Mike W. Barr e Jim Aparo em The Outsiders/Renegados nº 21, igualmente inédita por aqui. Aliás, essa série funcionava como um Volume 2 de Batman and The Outsiders e, infelizmente, nenhuma das 28 edições foi lançada pela Abril na época que a editora cuidava da DC. Cá entre nós, seria um "Saga" que eu certamente pegaria se rolasse. E no caso de nossa Sondra Fuller, como Renegados nº 21 nunca saiu, a primeira aparição dela para o leitor BR acabou sendo mesmo em Quadra de Lama.

Fuller era uma agente da organização Kobra, que aceita se submeter a um processo para ganhar os poderes de Matt Hagen, sendo que a transformação dela era irreversível. E ainda tinha o trunfo de mimetizar os poderes de algum super-humano que ela assumisse a forma. É revelado, inclusive, que a vilã topa se submeter a isso pela baixa autoestima, por se achar muito feia. Então, passa a usar a imagem de atrizes e celebridades até um ponto que fica depressiva por não poder ser mais ela mesma. E como visto em Quadra, são as visitas dela a Basil Karlo na prisão que idealizam a reunião dos Caras de Barro.

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Na realidade, todos são ludibriados e explorados por Karlo numa busca por poder, que o faz mesclar as amostras de sangue de Payne e Fuller, injetando o composto como um o soro em suas próprias veias. O resultado é uma abominação que se autodenomina de Cara de Barro Supremo. E, ainda que traídos, os Caras de Barro III e IV acabam se engraçando e formando um casal, com um final (divertidamente) antecipado para o par, deixando para que o Batman e a Divina (dos Renegados) deem conta do Supremo. No clímax, Karlo chega a extrapolar tanto o poder originário de Payne, que ele acaba derretendo o chão e atravessando indefinidamente a crosta terrestre.

Dali então, ele jamais voltaria a ser visto a não ser em Terra de Ninguém, no Robinson Park, tentando dominar Hera Venenosa; só para perceber que não podia lidar com a fração do Verde que ela detinha. Ironicamente, Karlo é transformado em solo para o cultivo de alimentos para que Batman pudesse distribuir aos desabrigados. Para fins de registro, a edição em questão era a Detective Comics nº 735 (1999), com Greg Rucka e Dan Jurgens.

Quanto a Payne & Fuller, eles passam a viver afastados da sociedade e até concebem um filhinho e o batizam de Cassius... O que é uma bela ironia do escritor escocês. Porque se você acrescenta "Clay" de Clay Face, que é o nome inglês de "Cara de Barro", temos o nome "Cassius Clay". Isto é, o nome de batismo do boxeador Muhammad Ali. Mas no Brasil da Editora Abril, acredite, chamaram o bebê de "João de Barro". Dá até para extrapolar mais nessa brincadeira dos sobrenomes, porque "Payne" deriva de "pain" ou dor; "Fuller" detona algo "mais completo" e, paradoxalmente, tudo o que Sondra não é, é uma pessoa dona de si... completa. Nesse ponto, Grant acaba extrapolando a ideia inicial de Moore, brincando sadicamente com pessoas quebradas, entrando de cabeça - até de manequim - em relações abusivas.

A família Payne levava sua vidinha (quase) bucólica até que o assassino Matadouro - na época do Batman Azrael -, está passando pela área deles e sequestra o menininho enquanto os pais tinham saído para uma caminhada. Desesperados, eles precisam voltar a Gotham para reaver Cassius, porém, topam com Jean Paul-Valley e o casal acaba na custódia dos Laboratórios S.T.A.R. Tudo isso acontece em The Shadow of the Bat nº 26-27 (1994), com Alan Grant e Bret Blevins. Bem mais tarde, em Batman nº 550 (1998), de Doug Moench e Kelley Jones, descobriríamos que, diferente dos genitores, o filho - ou o Cara de Barro V - foi parar no DOE, o Departamento de Operações Extranormais.

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Em meados de 2023, enquanto começava a fazer essas releituras, eu fazia anotações e crescia uma vontade irresistível de produzir uma série de podcasts em torno dessa temática. O desafio seria imenso, porque realmente gostaria de conduzir papos sobre o run de Grant; que é, inegavelmente, meu escritor quiróptero favorito. Só que a (minha) realidade me fez recobrar o juízo, mas não antes de gravar um programa órfão:

Download audio 

Nele, Reginaldo Yeoman e Marcelo Miranda - com o Do Vale nas vinhetas - se juntaram a mim numa conversa que se debruçou em alguns pontos desse texto. Esse "Detetive Cast" - como chamo Os Escapistas dedicados ao morcego - não constará no feed oficial e foi desmembrado em duas partes. Uma sobre Quadra de Lama, disponível acima para download ou ouvir aqui mesmo; e a outra sobre Tulpa, com O Demônio de Jack Kirby, a ser publicado no nosso próximo resgate psíquico. 😈 

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Links Afiliados


[1] Uma coisa que me chamava a atenção na publicação da Abril eram as fichas no final, detalhando os aspectos técnicos e a origem de cada Cara de Barro.

[2] E isso não foi à toa. Com o sucesso em Detective Comics, não demorou e Alan Grant passou a encabeçar outros trabalhos paralelos. Dentre eles, passou a dividir os créditos com outros escritores e artistas por cerca de quarenta edições de L.E.G.I.O.N (1989), também quarenta em The Demon (1990) e sessenta e cinco em Lobo (1993).

sexta-feira, 26 de julho de 2024

O BATMAN DA VERTIGO

Em 20 de julho último, se estivesse vivo, o roteirista Alan Grant teria completado 75 anos de idade. Celebrar aniversário de defunto nunca fez qualquer sentido para mim, mas é bem verdade que, às vezes, a lembrança do natalício de um notável é um belo jeito de chamar a atenção para a obra de um(a) mestre(a) morto(a). Diabo, até morrer pode ser um requisito para fazer sucesso na posteridade ou ressuscitar o interesse pela obra de um(a) mestre(a) até então vivo(a).[1]

Tanto serviu que decidi finalizar uma continuação daquele texto sobre o Ventríloquo/Scarface, rascunhado, porém em bat-banho-maria.

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Como dizia naquele dia, após vários saltos – ou cortes, fique à vontade para escolher o seu veneno – a estreia do trio Alan Grant, John Wagner e Norm Breyfogle no Brasil só se deu a partir da Detective Comics nº 590, que, reiterando, trazia consigo a famigerada capa com a silhueta do Batman de costas, olhando para o relógio Big Ben, na torre do Palácio de Westminster, a sede do Parlamento Britânico em Londres.

Essa capa, curiosamente, foi aproveitada pela Editora Abril no encadernado formatinho das Dez Noites da Besta, que, por sinal, não tinha nada a ver com a história original do Alan Grant, que era simplesmente uma viagem do Batman à Inglaterra para caçar um líder terrorista que havia assumido a autoria de um atentado em Gotham. Dois detalhes: primeiro, o Batman chega a Londres no 5 de novembro e, por todo canto, há aquela malhação do Judas deles, com bonecos do Guy Fawkes. O segundo detalhe é o título da história: “Um Morcego Americano em Londres”, que acaba sendo um trocadilho com o filme “Um Lobisomem Americano em Londres”. Na versão Panini, ficou “Um Batman Americano em Londres”, abandonando a trucagem e o gingado da rima com o clássico do cinema de horror.

Se puxar na memória, décadas depois, o Frank Miller, no calor do 11 de setembro, queria lançar pela DC uma história assim, e isso acabou saindo como um projeto autoral dele, com um análogo do Batman, bem polêmico e bem execrado pela crítica. Não precisa dizer que eu prefiro dez mil vezes mais o discurso do Alan Grant, que não poupa críticas à postura dos Estados Unidos, num período em que estávamos ainda a mais de uma década de distância da tragédia das torres gêmeas.

Em certo momento, o terrorista Abu Hassan, que estava sendo caçado pelo Batman, até solta essa provocação:

Enquanto o Abu Hassan fala tudo isso, ele está todo arrebentado, com o sangue escorrendo pelo rosto, com o Batman segurando pela gola, entremeado com imagens de crianças famintas, bem raquíticas... e aí, pouco a pouco, Bruce vai hesitando, e antes com um punho fechado, apontado para o rosto do Hassan, você vai percebendo que a mão dele vai se abrindo e os olhos saindo da expressão de fúria para de tristeza. É bem sutil e, isso no fim da história, segue lhe atormentando:

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Arrumando a casa: A Abril começou a publicar a Detective Comics da nova equipe criativa com um déficit de sete edições inéditas, ou seja, ignora as sete anteriores e segue dessa historinha do terrorista (nº 590) em diante. Precisamente, em Batman nº 2ª (março/1990) da até então (inédita) série mensal em formato americano.

Mas aí, o que ocorre de significativo nas Detective anteriores? Já falamos sobre as nº 583-584 de Ventríloquo/Scarface; nas nº 585-586, somos apresentados a Otis Flannegan, um ex-exterminador de pragas do Departamento de Saneamento de Gotham. Numa briga de rua, ele acabou esfaqueando o outro agressor, que acabou morrendo. No julgamento, ele alega legítima defesa, tendo em vista que o homem o atacou sem motivo, zombando do cheiro de esgoto em Otis. Mas no fim, ele é condenado por assassinato.

Ele cumpre sua pena, e quando sai, captura o sargento de polícia que o prendeu na noite da briga e deu o testemunho que foi fundamental para sua condenação; ele aprisiona também o Juiz do caso e o diretor da penitenciária. Os três passam os próximos três anos em jaulas no esgoto, sem higiene pessoal e comendo ratos mortos, dados pelo próprio Otis. Nesse meio tempo, descobrimos que o nosso “Caça-Ratos” consegue adestrá-los e controlá-los com um apito especial.

No começo, um desses três prisioneiros foge, mas é morto por uma ninhada de ratos, e isso desperta a atenção de Batman e de Gordon, já que o defunto era um Juiz que havia desaparecido sem deixar pistas. É uma história impactante. O Caça-Ratos não tem nada a ver com aquela versão leve do Taika Waititi no filme do Esquadrão Suicida de James Gunn. Na realidade, o homem é um sádico, ainda que tenha indícios que, sim, aquele assassinato foi legítima defesa e ele tenha sofrido abusos na penitenciária.

De curiosidade, a capa da Detective nº 586 foi a primeira que o Norm Breyfogle fez para um gibi do Batman; e, vale dizer, é incrível, com o Caça-Ratos no primeiro plano, segurando uma lanterna, entrecortado em sombras, com os olhinhos de dezenas de ratos e o Batman no chão, nocauteado sob uma poça no esgoto.

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Na edição seguinte, tenho a leve impressão que o artista decidiu que ninguém jamais voltaria a fazer a capa de um gibi dele, porque no nº 587, ele entrega nada mais, nada menos que uma de suas artes mais icônicas; que é a do personagem num beco escuro, com a silhueta frontal bem no alto da página, em meio à chuva e trovões. Mesmo sem publicar a referida história, a Abril acabou usando a capa em Armageddon 2001 nº 3; que especulava um futuro onde Batman poderia se deparar com uma situação limítrofe e, supostamente, se tornaria o vilão Monarca. Mas, obviamente, isso não aconteceu.

Seguindo em frente, entre Detective nº 587-589 se desenvolve o arco O Povo da Noite. E se você já estava começando a sentir que Alan Grant, a cada edição, está esticando mais e mais a corda, aqui nesses três números, o que está sendo testado são os limites do que o (editor) Dennis O’Neil estaria disposto a publicar. São vários núcleos orbitando juntos, com um Batman que só parece ser um mero detalhe na história. Um DJ de rádio, porém, une todas as tribos tocando clássicos do rock, e a cada trilha, ele comenta trechos das letras ou as próprias canções interagem com a cena; como a do grupo de mendigos, com a sugestiva Trash do New York Dolls. 

E eis que ocorre um assassinato no beco onde moram. Um deles, o "Perneta", revolta-se com o suposto descaso do Batman em encontrar o matador:

Percebe que isso é outra crítica velada ao personagem e, a preço de hoje, tem muita gente por aí que realmente pensa desse jeito?! Que o Batman é um super-herói das elites. É um ponto para se refletir, e voltarmos a esse raciocínio mais à frente em outro texto. Talvez na história do Anarquista, que tal?

Ainda sobre o Povo da Noite, paralelamente, um homem chamado Derek Mitchell, sentenciado à prisão perpétua, fugiu da cadeia e quer acertar as contas com o criminoso que o delatou. Esse delator, metido a técnico de efeitos especiais de cinema, na verdade, foi quem encomendou a morte daquele mendigo, pensando ser Dalton Walls, um milionário excêntrico que vivia entre os desabrigados. Então, o delator/ilusionista/assassino/aproveitador se autointitulava de "Sr. Kadáver" e estava mexendo os pauzinhos para ficar com parte da fortuna daquele ricaço. Batman só entra nessa salada porque está perseguindo uns traficantes, e aí topa com o fugitivo (Mitchell), que acaba sofrendo um acidente com resíduos químicos, que o transformam no Homem-Corrosivo; tal qual Derek Powers em Batman Beyond, lembra?

Olha, é uma loucura. O Alan Grant deve ter pensado que, se o Dennis O’Neil lhe deixasse publicar isso, ele poderia fazer qualquer coisa. E essa história que, como vocês devem ter percebido, tem tudo a ver com sincronicidade, fecha com o DJ da rádio, que a gente descobre que estava drogado, acaba atropelando e matando o próprio traficante que o Batman vinha perseguindo no começo da noite.

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Aí, vejam só, se Detective nº 590 da viagem a Londres saiu na 2ª edição da Abril, o nº 591 só veio a dar o ar da graça no nº 13 do título nacional. Tem quem se irrite retroativamente com isso. Eu, por outro lado, fiz as pazes com o demônio da tesoura e, hoje em dia, me divirto com aquelas indiscrições. Sobre o enredo de Detective nº 591, diz respeito a um aborígene vingativo, que caça um milionário que se apossou de uma relíquia de seu povo e a quer de volta. É a segunda vez que o Alan Grant destila seu discurso corrosivo sobre a nata da sociedade gothamita; e, volto a dizer, será uma constante. Essa edição saiu em Saga do Batman nº 8 (Panini/2021), assim como as Detectives nº 592-593, e aí meus amigos, essas é que são realmente de embrulhar o estômago.

Elas trazem um arco com o serial killer Cornelius Stirk. De cara, o Cornelius, que tem uma característica transmorfa, parecida com o indutor de imagens do Noturno, descarta um corpo na mala de um táxi usando a imagem de Jesus Cristo para uma criança que vê isso acontecendo. Fora que ele é um canibal, então veja só o (sub)nível da coisa. Durante a história, descobrimos que ele teve alta do Arkham e deveria tomar um remédio para regular um desequilíbrio químico. Só que, como ocorre com muitos pacientes psiquiátricos problemáticos, deliberadamente deixa de tomar o seu remédio e percebe que, usando o seu dom, quando ele aterroriza as pessoas, elas liberam uma substância que, quando mortas, o coração fica com um aditivo dessa descarga de pavor que o ajuda suprir suas necessidades.

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Nem Preacher, de Ennis & Dillon, no auge de sua esbórnia herética, mandou uma dessas.

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Off-topic, mas nem tanto: 

Acho bem curioso que o aspecto real de Cornelius lembra muito o semblante aterrorizante do John Dee em Sandman. Fora toda a retórica subversiva dele(s). O negócio é tão pesado que o Batman rastreia e encontra a casa dele, mas Cornelius não está, mas no fogão há uma panela com cozido de coração humano.

E sabe o que é interessante? É que a abordagem do Cornelius para as vítimas e esse lance do canibalismo lembra também o modus operandi do Jeffrey Dahmer, só que aí está o ponto... Esses edições de Detective saíram nos Estados Unidos em novembro e dezembro de 1988. O Dahmer só foi preso em 1991. Mesmo a versão do John Dee que Neil Gaiman trabalha só aparece em meados de 1989. Esse é o meu ponto: temos aqui um Alan Grant produzindo gibi Vertigo antes de existir um gibi Vertigo.

A história do Cornelius Stirk não acaba aí. Anos depois, o serial killer volta a aparecer em A Sombra do Batman (The Shadow of the Bat); e sobre essa (nova) mensal, um parêntese: Alan Grant foi o roteirista titular da edição nº 1 até a 82, sem pausa, sem escritor convidado nem nada. Isso mesmo. 82 edições! Sem falar da quantidade enorme de especiais paralelos. Eu ouso dizer que no mercado americano, tanto na DC quanto na Marvel, não existe hoje mais ninguém escrevendo gibi de massa nesse nível e nessa regularidade. Nos quadrinhos do Batman, cravo que não, talvez nem no seu próprio tempo, ainda mais quando vemos um Dennis O'Neil - numa notinha em Amazing Heroes nº 133/1988 - entusiasmado com o que a nova equipe criativa estava lhe entregando: "Wagner e Grant realmente têm imaginações macabras. [...] O material deles é horripilante... não é para os fracos de estômago ou coração! ".

Voltando ao Cornelius, seu retorno se dá nos nº 46 e 47 de A Sombra do Morcego, e aqui no Brasil, na edição nº 15 de Batman Vigilantes de Gotham (Abril/1998). Curiosamente, àquela altura, era a estreia desse vilão, já que a Abril não havia publicado a história anterior em Detective, mas para ser honesto, o escritor faz um recordatório tão bem feito que se chega a pensar que mesmo é a primeira aparição do vilão.

Nesse caso, o Cornelius está sendo entrevistado por um escritor de livros sobre serial killers, ludibria todo mundo e foge do Arkham. Na noite da fuga, está ocorrendo a festa da vitória da nova prefeita de Gotham. E ele quer justamente comer o coração dessa prefeita. História muito boa, a arte não é do Breyfogle. É também de outro finado que deixa saudades, o John Paul Leon, que volta e meia colaborava nessa revista, mas nesse tempo, se me dissessem que era do Mike Mignola, eu caía que nem um pato. Sem exagero, era idêntico. E muito bom, só para constar.

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A Detective nº 594 era inédita também e traz consigo um operador da bolsa que está drogado, ouvindo vozes e com três bananas de dinamite. Ele procura três alvos que estão envolvidos com drogas. Pode ser traficantes, usuários e até os próprios colegas de trabalho dele, que lhe repassaram os comprimidos. Nessa história, também aparece um detetive particular, criação de Grant & Breyfogle, o Joe Batata (Joe Potato). O homem é um velho corpulento, cujo rosto lembra mesmo uma batata. Na trama, um contratante anônimo estava pagando dez mil dólares para que ele capturasse o operador da bolsa drogado, sem atrair a atenção da polícia. Tal como Cornelius, Batata também volta mais tarde para outras participações em histórias futuras de Alan Grant.

Já o nº 595 saiu no Brasil, mas nem conta muito porque era para cumprir protocolo por ser tie-in da saga Invasão. Aí, meus amigos, vejam só maluquice do Alan Grant: os nº 596-597, inéditas por aqui, eram uma história em duas partes em que o Batman investigava uma rede clandestina que produzia snuff movies, vídeos de tortura e sadismo, para exibições privadas na elite da cidade. Na segunda parte, o Batman até chega a ser espancado e filmado para esses espectadores. A arte fica por conta do uruguaio Eduardo Barreto; inclusive, por ter uma carga mais sombria e realística do que o surrealismo habitual do Breyfogle, eu acho que acaba sendo muito mais apropriada para a história.

Há uma crítica social muito arrojada nessa história, porque o roteiro se pega na contradição de que o Batman é uma criatura de violência; e, segundo o Alfred, numa tirada bem ácida, o Bruce nutriria, sim, um certo prazer com isso. E o próprio ato de existirem pessoas que querem pagar para ver uma violência também resvala nos leitores, que pagam o gibi, claro, para ler uma boa história, mas não deixa de ser histórias com um ímpeto violento. Vamos dizer, é quase uma crítica social em abismo.

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Até aqui foram treze edições inéditas. Elas saíram compiladas entre Saga do Batman nº 5-9. Creio que todo mundo que, em algum momento, notou essa lacuna tentou descobrir por que a Abril fez isso. Sigo nessa corrente que foi o teor "adulto" das histórias - ou mais maduro, vai? -, quase como se tivessem sido produzidas para uma Vertigo extraoficial. Por outro lado, não consigo visualizar o editorial da Abril sendo tão sensível, mas, quem sabe, alguém lá ponderou que essa truculência britânica talvez demorasse ainda um pouco para ser normatizada pelo leitor brasileiro, como um gosto adquirido. 

Fato é que esse ano "Vertigo" de Detective Comics saiu também da caixinha ao não aproveitar nenhum dos vilões da galeria tradicional do Batman. E isso tem uma explicação. Num trecho de uma entrevista a dois, de Grant e Breyfogle em 2007, no (agora desativado) blog 20th Century Danny Boy, eu consegui recuperar esse trechinho: 

Grant: Do meu ponto de vista, isso se devia principalmente ao fato de eu não ter lido nenhum Batman desde o fim da temporada de Denny O'Neil. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo. Eu não tinha ideia se os outros vilões como o Coringa ou o Pinguim estavam sendo usados no Batman. Portanto, era mais fácil criar novos [vilões] do que passar por todo o trabalho de descobrir o que estava acontecendo com os antigos. Não foi até eu acho que depois de talvez um ano de Norm e eu trabalhando em Detective que os leitores começaram a escrever e perguntar: 'Por que não estamos vendo esses caras aqui?', como o Coringa, o Pinguim, o Espantalho e começamos a fazê-los.

Breyfogle: Francamente, lembro de ter ficado um pouco desapontado no início porque queria desenhar os vilões clássicos do Batman. Eu cresci com eles e era isso que queria desenhar, mas agora, olhando para trás, estou muito feliz por termos criado todos esses personagens. Na verdade, devo dizer que os considero suas criações.

Grant: Não, não. Qualquer coisa que um escritor e um artista façam juntos é uma cocriação. Absolutamente.

Breyfogle: Direi que sou parcialmente o criador, claro, mas a gênese, a semente dos personagens veio de você. [Sobre o visual] Geralmente, Alan dava muito pouca informação sobre a aparência deles e eu me sentiria da mesma forma se estivesse escrevendo um personagem para outro artista desenhar. É a mesma coisa que sinto ao dar instruções de cores aos coloristas. Quer dizer, uma vez que você começa com as sugestões, tudo está inter-relacionado e não há onde parar. Eu sei que uma imagem vale mais que mil palavras e, a menos que você tenha uma imagem realmente clara em sua mente do que deseja, não daria notas específicas a um profissional mais adiante. Porque se [o script] for bom, você fará bem o seu trabalho de qualquer maneira e, se [o script] não for [bom], nenhuma palavra servirá para aumentar suas habilidades no lápis.
 

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Quantos bons quadrinhos do passado foram produzidos num mix de oportunidade, improviso e genialidade? Porque o que esses dois fizeram se encaixa perfeitamente nessa trinca. 

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[1] Herman Melville, por exemplo, morreu antes de ver o sucesso que seu livro mais importante, Moby Dick, alcançaria algum tempo depois. Já Elza Soares, falecida em 2022, trouxe um foco adicional à discografia e gravações inéditas, promovendo um debate sobre os direitos autorais e o uso póstumo de suas criações.

terça-feira, 21 de maio de 2024

DOIS DISPAROS: VOTOS & IMAGENS

Numa tradução grosseira, a terminologia “one-shot” quer dizer “um disparo”. Na minha cabeça, a expressão vem acompanhada da imagem do T-800 em cima da Harley, atirando com a Winchester 1887 de cano cerrado. Arnold merecia o Oscar 92 só por causa daquela girada cheia de charme, ainda que ela fosse uma homenagem ao Peregrino.

Antes que isso vire um texto sobre o Exterminador do Futuro 2, gostaria logo de dizer que nos quadrinhos, o one-shot é o sal da vida. Aquele gibi maroto com início, meio e fim que, além de se resolver em si mesmo, deixa seu leitor livre e desimpedido para seguir com sua vida. Algo, por sinal, cada vez mais raro, já que os autores contemporâneos sempre estão priorizando arcos longos ou, se muito, produzindo histórias curtas para antologias; o que não é a mesma coisa[1].

Até dei uma olhadinha por aí, para ver se o termo nas HQs tem uma origem exata e atribuível a alguém, mas parece mesmo que one-shot foi importado da indústria cinematográfica e televisiva. Por trás das câmeras, o nome diz respeito a uma produção que é concluída numa única sessão ou episódio. Nos comics, é provável que surgiu no calor da Era de Ouro (1930-1950), naquele afã editorial em busca de formatos e novos estilos de publicação.

Em outra vida, eu cheguei a inaugurar uma seção só para falar sobre historinhas assim. Por que estou trazendo isso à tona?

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A edição contempla as duas artes acima, sendo a do Casamento (Michael Netzer) usada na 4ª capa.

Por esses dias, recebi a 1ª edição da nova temporada de A Saga do Batman, e eis que no miolo, no cantinho da página 84, após uma interação entre Jim Gordon e Sarah Essen, somos informados via nota de rodapé que o casal havia se casado. O detalhe é que o editor do volume te avisa que a Panini não publicou o matrimônio, mas você pode encontrar a dita revista em Batman Anual nº 3, da Abril.

Foi isso mesmo que você leu: um quadrinho publicado em novembro de 1994, quase 30 anos atrás. Só que o detalhe maior é que a relação turbulenta entre o Comissário e a Sargento não foi algo en passant, superficial, explorada rapidamente numa passagem digna de Troféu Cata-Piolho e ficou por isso mesmo. Pelo contrário. Trata-se de um affair iniciado lá atrás em Ano Um de Frank Miller e David Mazzucchelli, e desde que Dennis O’Neil ganhou o status de editor da linha do morcego, sempre esteve na ribalta. Não por acaso, em 1992, é o próprio Denny quem escreve Votos, o conto em que os dois urubus pombinhos resolveram trocar alianças[2].   

Publicado originalmente em Legends of the Dark Knight Annual nº 2, com arte de Michael Netzer, passou-se toda uma década desde aquele beijo numa noite chuvosa. O primeiro casamento de Jim foi pelo ralo, não exatamente pelo caso extraconjugal com Sarah, mas pela devoção do então Capitão aos seus princípios éticos; ao ponto de colocar em xeque a própria vida de Jimmy Júnior. Em Votos, a história começa com Sarah provando um vestido de noiva na frente de Jim e, como diz a tradição, isso costuma dar azar. Flass, o ex-detetive, denunciado e expulso do DPGC por corrupção, reaparece vingativo, dizendo ter sequestrado o menino Jimmy e, para libertá-lo, quer que o pai lhe entregue as provas que implicavam o Juiz Liptic em negociatas.

O lance é que o Juiz sujo era candidato a prefeito de Gotham e a eleição ocorreria dali a oito horas. Mesmo ao custo da vida do filho, Jim segue resoluto e não quer entregar o material a Flass; ou melhor, até entregará, mas não antes de enviar cópias anônimas para veículos de imprensa. Vale dizer, um risco pessimamente calculado. O fato, porém, é que esse drama azeda ainda mais o desejo do Comissário de se ver casado novamente. E pensando bem, isso só ocorreu[3] porque ele imaginava que estariam mortos dali a alguns instantes.

Em 58 páginas, o Batman só aparece por volta da 30ª, no que seria o último choque ideológico com a noiva, tornando-se um padrinho acidental e, instintivamente, contrário à união com seu maior aliado. Se tivesse deixado de lado o coração e dado ouvidos à razão, talvez numa leitura sensata daquele homem alquebrado, eu creio que o destino final da futura Sarah Essen Gordon poderia ter sido bem diferente.

Aos 13 de idade, Votos era só mais um gibizão do Batman. Aos 42, penso que aquilo foi a primeira vez que interagi com uma relação tóxica. Ou, vá lá, talvez era só algo maduro e endurecido, que não se quebraria tão facilmente.

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Falando em primeira vez, isso também é o que anuncia a capa da outra história de Batman Anual nº 3: “o primeiro contato com o Coringa”.

Normalmente, dado o tamanho da superexposição do vilão nos últimos tempos, eu já me dou por satisfeito de HQs com sua onipresença. Não obstante, como o objetivo era reler a respectiva edição da Editora Abril, me obriguei a tanto. Na realidade, a quem quero enganar, foi trabalho nenhum. Acabei fazendo outra viagem no tempo.

Imagens saiu lá fora em Legends of the Dark Knight nº 50 (1993), novamente com Dennis O’Neil e agora com a arte de Bret Blevins. Se a história Votos estava alinhada à trama de Ano Um, por coincidência ou não, a segunda remetia A Piada Mortal, o clássico-mor do Palhaço do Crime. Só que em 94, eu estava a 5 anos de ler pela primeira vez a obra-prima de Alan Moore e Brian Bolland, mais precisamente na reedição de 99.

Então, vejam vocês, minha leitura original de Piada foi mediada com o que tinha visto em Imagens. Mas do que trata finalmente essa história?

Era a primeira[4] vez desde Batman nº 1 (1940) que a estreia do Coringa seria recontada para novos leitores. A linha-guia manteve-se intacta com o psicopata envenenando à distância figurões da sociedade gothamita. Não obstante, O’Neil inova trazendo a figura de um suposto primo com histórico de doença mental, que teria sido o criador do famoso composto químico que mata suas vítimas sorrindo.  

Além disso, o saudoso roteirista acrescenta uma triste ironia, que levaria Bruce a se culpar mais tarde. Como estamos no princípio do ano dois, o Batman está longe de ser o super-herói infalível de hoje e, eis que logo no comecinho, ao invadir o covil de bandidos pés-de-chinelo, ele deixa o Coringa sair da cena do crime sem se tocar que aquele era o mesmo homem descrito por Jim em duas oportunidades[5].

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Um equívoco que custaria várias vidas no decorrer da(s) história(s).

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Enfim, cheguei a sugerir ao responsável pela edição de A Saga do Batman que, pelo menos, Votos saísse em algum dos próximos números, mesmo que de forma extemporânea. Se ele leu o tuíte, nunca saberei. Que comeu bola, esquecendo dessa historinha, eu seria capaz de apostar.

O grande plot twist é que não tenho esse gibi. O exemplar que tive acesso, na época mesmo do lançamento, pertencia a um amigo. Hoje, provavelmente, ele sequer deve se lembrar que possuiu essa revista. Eu, por outro lado, era a cópia descarada daquele guri de Criminal. Na verdade, ainda sou, a diferença agora é que estou disposto a pagar o que aquele filho da mãe está cobrando.

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[1] Se for agora mesmo ver a lista de indicados ao Eisner 2024, poderá conferir em primeira mão que existem categorias tanto para histórias curtas (Best Short Story) quanto one-shots (Best Single Issue).

[2] Mais ou menos... O negócio foi bastante complicado, sobretudo para a Sarah.

[3] E veja só: o Juiz de Paz que celebrou o casamento foi o mesmo cuja reputação iria para a vala quando os registros e gravações viessem à tona. Outro detalhe cabuloso é que Sarah passa a edição inteira trajada com o vestido de noiva e uma jaqueta do DPGC. Casca grossa é pouco!

[4] Pelas minhas contas, Imagens foi a primeira de três versões, sendo a segunda O Homem que Ri (2005), de Ed Brubaker e Doug Mahnke; e A Carta Vencedora (2023), de Tom King e Mitch Gerads, como a terceira.

[5] Uma vez no final de Ano Um e a outra aqui, em Imagens.