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segunda-feira, 5 de agosto de 2024

JUÍZO (IN)COMUM

Nos idos da década de 1990, pode-se dizer com segurança que a instituição do malfadado crossover tinha uma tocante função social, que era a de apresentar personagens até então exóticos ou, vá lá, fora dos eixos editoriais da Marvel e DC. O britânico Juiz Dredd era um exemplo perfeito disso, já que, àquela época, acabou se notabilizando apenas pelos encontros que teve com o Batman. Algo, hoje, impensável para a criação máxima de Pat Mills, John Wagner e Carlos Ezquerra, que goza de extenso catálogo em solo pátrio. Mas, insisto, nem sempre foi assim e todo o interesse que passei a nutrir sobre Joseph Dredd partiu daqueles gibis e, claro, do filme de 1995.

Esse (meu) interesse foi renovado com o anúncio de que Julgamento em Gotham e todos os demais intercâmbios com Mega-City Um estão para sair numa edição encadernada na segunda quinzena de agosto (de 2024). Daqueles, preciso dizer que um em especial, o segundo entrevero Bruce Vs. Joe, mora no meu coração das trevas. A despeito da visceralidade de Bisley, a capa incendiária de Mignola é C-4 puro:

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Antes, porém, de dedicar umas linhas à respectiva quadrilogia, umas infos rápidas sobre Dredd. Pode ser? Vamos lá.

Dredd trabalha em Mega-City Um, uma entre três das cidades gigantes na América do Norte, fundadas após uma guerra nuclear que devastou a maior parte do planeta. Esses centros populacionais são cercados por um deserto radiativo, infestado de mutantes, chamado Zona Infernal. Para impedir a completa derrocada da civilização, por volta de 2070, estabeleceu-se a Declaração de Julgamento, uma espécie de lei marcial que conferia aos juízes a autoridade de caçar e punir criminosos[1].

Os Juízes em potencial são recrutados pela Academia da Lei com cinco anos de idade e recebem quinze de treinamento. Os que conseguem se graduar tornam-se Juízes cadetes e são testados em patrulhamento na cidade sob a supervisão de um Juiz pleno. Um cadete só pode se tornar Juiz pleno com a aprovação do respectivo supervisor. Após a formatura na Academia e o êxito no treinamento em combate, Joe Dredd tornou-se Juiz pleno. Ele agora combate o crime na malha viária multinível de Mega-City Um pilotando um motociclo tunado, a Mestrelei, e portando a principal arma de um Juiz, a Legisladora.

Uns acreditam que é um clone do Juiz Fargo, o primeiro Juiz-Chefe, conhecido pelas gerações futuras como o Pai da Justiça, apenas respondendo ao Presidente por seus atos. Fato é que Dredd jamais retira o seu elmo e, não raro, suas penas autoaplicáveis tendem a ser mais cruéis ou equivalentes aos próprios delitos.

Tudo bem que as histórias (clássicas) de Dredd nunca se destacaram por sua seriedade, mas atente-se para alguns tropos presentes nos enredos: (a) saem numa época em que o movimento punk era uma febre na Inglaterra; (b) presença de críticas ferrenhas a brutalidade policial diluídas em galões de humor ácido; (c) lidam com falência das instituições constituídas ou o estado de direito tradicional; (d) sugerem o temor que se especulava sobre um crescimento populacional irresponsável e os problemas advindos dele; (e) especulam um worst-case scenario nos estertores da Guerra Fria e o que seria da civilização num Day After termonuclear.

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Não sou um leitor dos mais aplicados em matéria de Megazines (2000 A.D), mas confesso que o dissabor com as majors norte-americanas está começando a me aproximar mais dos títulos do Dreddverso. E se isso não for suficiente, basta lembrar que por lá ainda caminha um mestre que precisa mesmo ser exaltado, alguns que não estão mais entre nós – como Alant Grant e Carlos Ezquerra –, e outros que fizeram escala para se tornar o que hoje são, a exemplo de Grant Morrison, Mark Millar, Frank Quitelly, Garth Ennis e Brian Bolland.

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Fases do Processo

(1ª) Fase Postulatória → Os roteiros de todos os crossovers foram escritos a quatro mãos por John Wagner e Alan Grant, ficando a arte do primeiro, Julgamento em Gotham (1991), a cargo de Simon Bisley. O MacGuffin é dos mais básicos: o Juiz Morte consegue um cinto dimensional e a fim de facilitar sua distorcida filosofia de vida[2], ruma para Gotham. Ao interceptá-lo, Batman se apossa do mecanismo de teletransporte e acidentalmente volta ao seu ponto de origem, Mega-City Um. Lá encontra o comparsa de Morte, o Máquina Malvada (Mean Machine), que acabava de descobrir que fora traído por seu parceiro. Em confronto, os dois são abordados por Dredd e conduzidos aos Cubos de Interrogatório.

Batman não esboça qualquer reação, visivelmente pretendendo obter respostas. Lá, ele descobre que Morte ainda está "vivo" e tem que voltar o quanto antes para Gotham. Entretanto, Dredd acredita piamente que Bruce violou várias leis na sua rápida estadia em Mega-City Um e tem que cumprir uma pena de vinte anos. A partir daí entra em cena a Juíza Cassandra Anderson, da Divisão PSI, que ao ler a mente do réu, percebe a verdade do que está acontecendo. Então, ela ajuda o ajuda a escapar e aí está a ironia da dupla de escritores: em vez de Batman se unir ao Juiz Dredd, temos o Juiz Dredd perseguindo Batman e a Juíza Anderson juntos.

A partir daí, o restante da trama soa um pouco previsível, mas nem por isso menos divertido. A primeira impressão que se tem a respeito de Dredd não é das melhores, já que ele é visto apenas como um Juiz truculento que aplica cegamente as leis de Mega-City Um. Claro que é proposital, e a arte de Bisley dobra a aposta no nonsense, pontuando Batman como um combatente crime mais sério, enquanto que o Juiz ocupa o papel de figura caricaturada.

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(2ª) Fase de Contestação → Vingança em Gotham (1993) é o resultado da escalada de tensões gerada na primeira minissérie. E bota tensão nisso: 22 das 52 páginas do one-shot são ocupados por um quebra-quebra antológico. Talvez um dos meus favoritos em matéria de pancadaria super-heroica, quase tudo na conta do traço cinético do (grande) Cam Kennedy.

A briga, aliás, de partida, parecia sem sentido. Tudo levava a crer que Dredd estaria em Gotham apenas para um acerto de contas com Batman. Na verdade, Joe tinha o objetivo de retardar Batman até às 19h45min, hora em que supostamente o vigilante morreria em um teatro, ao tentar salvar o público de um atentado a bomba. Na verdade, a tragédia anunciada não era o bastante para motivar o Juiz. O real motivo é que um PSI teve uma premonição e nela, num futuro próximo, Mega-City Um passaria por uma grande crise e precisaria da ajuda de Batman para contorná-la.

Outro detalhe de Vingança em Gotham é que a suposta morte de Bruce teria se dado pelas mãos de Ventríloquo/Scarface.

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(3ª) Fase de Instrução → Embora divertido, cravo que o one-shot A Charada Definitiva (1995) é o elo fraco entre os crossovers. Sequer parece que é a mesma dupla criativa que roteirizou os dois anteriores; o que pode ser dito também da arte do duo Carl Critchlow e Dermont Power. É boa, mas faz um esforço danado para se parecer com a do Bisley, e tenho que ser honesto: em algumas páginas, parecem cópias deslavadas.

Já a proposta é a seguinte: oito guerreiros de renome em seus mundos são selecionados, raptados e encarcerados em gaiolas suspensas. Para reconquistarem a liberdade, eles terão que lutar entre si, e só um poderá sobreviver. Como é de se esperar, Joe e Bruce estavam entre os oito guerreiros de renome. A conclusão chega a ser tão estapafúrdia que até a explicação, ou melhor, a dita “Charada Definitiva” é solucionada com algo tão estapafúrdio quanto: o evento Zero Hora.

Assim, não há de fato um combate entre Dredd e Batman, mas o morcego ao peitar o Juiz para levar o tal cetro para Gotham, convenhamos... Ele saiu cheio de moral.

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(4ª) Fase Decisória → A minissérie Morra Sorrindo (1998) atende a previsão PSI no desfecho de Vingança em Gotham, ou seja, Batman e Dredd se encontrariam mais uma vez, só que agora em Mega-City Um para evitar uma catástrofe inominável. E de fato o é. Lembram-se do tal Cinto Dimensional que o Juiz Morte usou em Julgamento em Gotham? Pois bem, em dado momento, na batalha no Parque Robinson, o gadget foi deixado para trás e achado algum tempo depois por pequenos delinquentes.

No Arkham, Jonathan Crane relata o ocorrido ao Coringa; já que o Espantalho foi uma das peças-chave da história original. Interessado pelo artefato do futuro, o palhaço do crime consegue fugir do asilo e arruma uma maneira de se apossar dele. De posse do mecanismo, ele se desloca para Mega-City Um, especificamente no dia em que os espíritos dos quatro Juízes Negros (Fogo, Fobia, Flagelo e Morte) iriam ser incinerados em uma tumba secreta.

A data também é histórica porque marca o dia em que dez mil hedonistas partirão para um autoexílio. Nele, os tais Hedonistas do Sétimo Dia buscarão na Megaesfera uma vida plena e totalmente libidinosa, onde cada desejo será satisfeito. Coringa sabe desse detalhe e vê nisso uma bela oportunidade. Por ser fã confesso dos Juízes Negros, ele realiza uma operação de resgate para burlar o comboio que leva os Cristais de Glassen (única maneira de confiná-los). O que acontece com sucesso.

Ao libertar primeiro o Juiz Morte, este último tenta se apossar da mente do Coringa logo de imediato, no entanto a mente do palhaço é tão perturbada que o espírito sai de supetão e visivelmente atordoada (hilário!). Assim, Coringa ganha o “respeito” de Morte, ao deixar claro que considera os Juízes Negros verdadeiros artistas, gênios criativos especialistas em juízos finais e genocídios. Ganha então o status de “Agente”, e, por conseguinte o dom da imortalidade. O plano a seguir é ter acesso a Megaesfera e serem (também) autoexilados com os futuros dez mil cadáveres.

O primeiro passo é desmantelar todo o comando tático dos Juízes de Mega-City Um, assumindo a identidade do Primeiro Magistrado Herriman (assassinado pelo Juiz Flagelo). Logo, Cassandra e Joe são prerrogativas primárias e devem ser eliminados o quanto antes. Ante a emergência, Cassandra divide sua mente e transmigra para Gotham avisando Batman. No processo se fere gravemente e permanece na própria Caverna.

A propósito, enquanto lia, cheguei a imaginar que o Bruce ia faturar a Juíza, dado os trajes sumários e o respeito mútuo que os dois nutriam um pelo o outro[3]. Em seguida, Batman parte para Mega-City Um para se encontrar com Dredd. Não chega a ponto de evitar o início da chacina, mas pelo menos reduz para a metade os danos colaterais. Trata-se da primeira vez dentre todos os crossovers que o texto de Wagner e Grant caracteriza vigilante e magistrado como iguais. No fim, rola até um previsível “aperto de mãos” para deixar isso bem claro.

Sustentação Oral

À época da publicação de Julgamento em Gotham, Alan Grant concedeu uma entrevista à revista Comics Interview nº 101 - ao que parece com uma (senhora) capa exclusiva do Bisley -, falando sobre suas ideias e os bastidores inusitados do gibi.

Para começar, a ideia do crossover partiu do próprio editorial da DC, buscando, quem diria, aumentar a popularidade do Batman, que “[...] estava tão baixa que eles queriam qualquer publicidade, e pretendiam usar qualquer truque para aumentar as vendas. Alan Moore e Brian Bolland estavam escalados para fazer isso. Ninguém discutiu o projeto com John Wagner ou comigo depois que eu mesmo encontrei com Alan Moore e passei a ele a informação de que não estávamos muito felizes com a ideia de juntar Batman e Juiz Dredd – especialmente quando deixei claro que estávamos insatisfeitos com o fato de que os personagens estavam sendo explorados pelo editor, mas sem qualquer consulta nossa. De qualquer forma, até onde sei, por causa disso, acredito que ele e Brian acabaram fazendo A PIADA MORTAL – o que, do ponto de vista deles, não pode ter sido uma má escolha, já que ainda está sendo impresso e vendeu muitos exemplares ao longo dos anos.”

E aí quando Moore e Bolland declinaram, o projeto foi oferecido a Alan Davis[4] e Paul Neary, mas a dupla preferiu aceitar a proposta de Chris Claremont para fazer Excalibur. Só após o Batman (1989) de Tim Burton virar um sucesso de bilheteria que Wagner e Grant voltaram atrás e aceitaram desenvolver a história. Não chega a ser dito que o interesse comercial falou mais alto ao reverem a decisão, mas, em dado momento, Grant deixa muito claro que era tudo, menos trouxa: “Por mais que eu goste de trabalhar, o que gosto – passei bastante tempo fazendo isso – uma das poucas sensações que rivalizam com isso é a sensação que você tem quando recebe um cheque de royalties. Algo que você recebe por algo pelo qual já foi pago. É ótimo que as pessoas te deem dinheiro por nada, por assim dizer .”

Mas voltando aos nossos dois homens em conflito, na metade da entrevista, Grant passa a pontuar as diferenças entre eles: "Existem duas maneiras de interpretar o Juiz Dredd: uma é como um completo anti-herói; a outra maneira é como um herói. Ele se mete em situações heroicas e faz coisas heroicas. Ele salva crianças de incêndios; ele arriscará sua vida para salvar um cidadão inocente. Mas, ao mesmo tempo, na promoção da lei, ele se rebaixará a qualquer coisa. Ele, por exemplo, mentirá. Eu acho que o Batman nunca mentiria pela justiça. A primeira lealdade de Batman seria com a verdade. Os dois são realmente incompatíveis. É possível jogar com Dredd de modo que ele seja mais compatível com Batman, mas quando Dredd é interpretado dessa maneira, tanto quanto me preocupo, ele se torna como qualquer outro herói [...] que resgata crianças de incêndios, mata bandidos e coisas do tipo. Só que quando Dredd está tratando as pessoas que ele deve proteger tão duramente quanto as pessoas de quem ele está protegendo, então a essência do Dredd entra em cena. A história de Dredd nunca terminará a menos que ele se torne a vítima ou perpetrador do crime."

A seguir, o entrevistador Peter Sanderson pede para ele esclarecer melhor essa dicotomia, já que havia ali um claro paradoxo entre um Batman como algo puro e de moralidade incorruptível, enquanto Dredd pertencia ao establishment. A resposta do escritor começa a deixar as coisas ainda mais interessantes: “O establishment de Dredd é um establishment bastante autoritário. Aqueles juízes mantêm a si mesmos no poder. Eles foram eleitos, mas acho que foi há cinquenta anos. Eles são autoperpetuantes. [E ainda que Batman seja autossuficiente também] Batman tinha uma razão muito válida para isso. Eu não sou um leitor típico de quadrinhos, e se eu não fosse uma criança grande – bem, não realmente grande – mas quando li os quadrinhos do Batman, eu sempre quis ser o Batman, e estou certo de que o mesmo vale para a maioria dos leitores. Você lê uma história do Batman e se conecta completamente com o que você queria ser no Batman. Eu nunca li uma história do Juiz Dredd onde eu realmente queria ser o Juiz Dredd. Posso estar totalmente equivocado aqui, e John Wagner, por exemplo, poderia discutir comigo 100% sobre isso, mas eu diria que Batman é muito mais um drama, enquanto Dredd é muito mais uma sitcom. É o Circo Voador do Monty Python. [...] Parece estranhamente absurdo de qualquer forma dizer isso, mas o Batman poderia ser real, e poderia ter sido real em qualquer época da História do homem, enquanto Juiz Dredd nunca poderia ser real. Juiz Dredd sempre será um personagem de quadrinhos.”

Sanderson gira a faca e lembra que Grant já havia falado que, várias vezes no passado, Batman havia sido acusado de ser uma figura fascista. Mas, ao colocá-lo contra o Juiz Dredd, [ele e Wagner] acabavam examinando a questão de quão fascista o Batman era. Estariam, portanto, riscando no chão uma linha demarcatória entre os dois personagens. Aí conclui seu pensamento, questionando se Grant considerava Batman uma espécie de vigilante liberal: “Sim, eu o considero [liberal]. Vejo Batman tendo tendências de esquerda e convicções muito fortes sobre isso. E não acho que possa fazer isso – porque percebo que é contra o establishment americano –, mas eu adoraria baixar o tom para vê-lo se defendendo dessa ideia de estar difamando o sonho americano. A razão pela qual não faço isso é que eu estaria usando isso como um porta-voz para minhas próprias opiniões. E embora eu faça isso em alguma medida com o Batman, Batman é realmente muito mais do que eu sou. Devo algo aos cinquenta anos de histórias dele, a todos os outros escritores e artistas. Eles transformaram o Batman em algo que é intrinsecamente americano, e quaisquer que sejam minhas opiniões pessoais, o personagem do Batman está bem estabelecido, e eu não quero mexer com isso. Então eu não poderia fazer ele tão esquerdista quanto eu gostaria que ele fosse. ”

Veredito

Notem que Grant não foge da pergunta e acaba entregando algo que passa muito ao largo de questões ideológicas, dos espectros de direita ou esquerda. Um respeito ao background pré-estabelecido do personagem, sem fugir de suas raízes políticas enquanto autor e tampouco rebaixando o herói a fantoche delas. O que são observáveis na condução política do Batman grantiano é a quantidade de paradoxos e impasses aos quais ele se depara, e sequer sabe como lidar com eles.

Se você ainda estiver aí, quem sabe eu possa mostrar alguns no próximo texto. Até lá.

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Link Afiliado:



[1] Em Juiz Dredd: Juízes do Apocalipse (Pandora Books/2003) existe uma timeline de 1999 a 2099, detalhando todos os principais eventos da História das Mega-Cities.

[2] “Se todo crime é cometido por vivos, logo a própria vida é um crime”.

[3] Provavelmente, foi apenas o efeito desconcertantemente sexual e transgressor da arte de Glenn Fabry falando mais alto comigo. E que arte! É a sinfonia do caos que conhecíamos nas capas de Preacher aplicada à narrativa interna.

[4] Fontes confiáveis da Terra 2, me confirmaram que Alan Davis arrasou nesse gibi.

sexta-feira, 26 de julho de 2024

O BATMAN DA VERTIGO

Em 20 de julho último, se estivesse vivo, o roteirista Alan Grant teria completado 75 anos de idade. Celebrar aniversário de defunto nunca fez qualquer sentido para mim, mas é bem verdade que, às vezes, a lembrança do natalício de um notável é um belo jeito de chamar a atenção para a obra de um(a) mestre(a) morto(a). Diabo, até morrer pode ser um requisito para fazer sucesso na posteridade ou ressuscitar o interesse pela obra de um(a) mestre(a) até então vivo(a).[1]

Tanto serviu que decidi finalizar uma continuação daquele texto sobre o Ventríloquo/Scarface, rascunhado, porém em bat-banho-maria.

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Como dizia naquele dia, após vários saltos – ou cortes, fique à vontade para escolher o seu veneno – a estreia do trio Alan Grant, John Wagner e Norm Breyfogle no Brasil só se deu a partir da Detective Comics nº 590, que, reiterando, trazia consigo a famigerada capa com a silhueta do Batman de costas, olhando para o relógio Big Ben, na torre do Palácio de Westminster, a sede do Parlamento Britânico em Londres.

Essa capa, curiosamente, foi aproveitada pela Editora Abril no encadernado formatinho das Dez Noites da Besta, que, por sinal, não tinha nada a ver com a história original do Alan Grant, que era simplesmente uma viagem do Batman à Inglaterra para caçar um líder terrorista que havia assumido a autoria de um atentado em Gotham. Dois detalhes: primeiro, o Batman chega a Londres no 5 de novembro e, por todo canto, há aquela malhação do Judas deles, com bonecos do Guy Fawkes. O segundo detalhe é o título da história: “Um Morcego Americano em Londres”, que acaba sendo um trocadilho com o filme “Um Lobisomem Americano em Londres”. Na versão Panini, ficou “Um Batman Americano em Londres”, abandonando a trucagem e o gingado da rima com o clássico do cinema de horror.

Se puxar na memória, décadas depois, o Frank Miller, no calor do 11 de setembro, queria lançar pela DC uma história assim, e isso acabou saindo como um projeto autoral dele, com um análogo do Batman, bem polêmico e bem execrado pela crítica. Não precisa dizer que eu prefiro dez mil vezes mais o discurso do Alan Grant, que não poupa críticas à postura dos Estados Unidos, num período em que estávamos ainda a mais de uma década de distância da tragédia das torres gêmeas.

Em certo momento, o terrorista Abu Hassan, que estava sendo caçado pelo Batman, até solta essa provocação:

Enquanto o Abu Hassan fala tudo isso, ele está todo arrebentado, com o sangue escorrendo pelo rosto, com o Batman segurando pela gola, entremeado com imagens de crianças famintas, bem raquíticas... e aí, pouco a pouco, Bruce vai hesitando, e antes com um punho fechado, apontado para o rosto do Hassan, você vai percebendo que a mão dele vai se abrindo e os olhos saindo da expressão de fúria para de tristeza. É bem sutil e, isso no fim da história, segue lhe atormentando:

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Arrumando a casa: A Abril começou a publicar a Detective Comics da nova equipe criativa com um déficit de sete edições inéditas, ou seja, ignora as sete anteriores e segue dessa historinha do terrorista (nº 590) em diante. Precisamente, em Batman nº 2ª (março/1990) da até então (inédita) série mensal em formato americano.

Mas aí, o que ocorre de significativo nas Detective anteriores? Já falamos sobre as nº 583-584 de Ventríloquo/Scarface; nas nº 585-586, somos apresentados a Otis Flannegan, um ex-exterminador de pragas do Departamento de Saneamento de Gotham. Numa briga de rua, ele acabou esfaqueando o outro agressor, que acabou morrendo. No julgamento, ele alega legítima defesa, tendo em vista que o homem o atacou sem motivo, zombando do cheiro de esgoto em Otis. Mas no fim, ele é condenado por assassinato.

Ele cumpre sua pena, e quando sai, captura o sargento de polícia que o prendeu na noite da briga e deu o testemunho que foi fundamental para sua condenação; ele aprisiona também o Juiz do caso e o diretor da penitenciária. Os três passam os próximos três anos em jaulas no esgoto, sem higiene pessoal e comendo ratos mortos, dados pelo próprio Otis. Nesse meio tempo, descobrimos que o nosso “Caça-Ratos” consegue adestrá-los e controlá-los com um apito especial.

No começo, um desses três prisioneiros foge, mas é morto por uma ninhada de ratos, e isso desperta a atenção de Batman e de Gordon, já que o defunto era um Juiz que havia desaparecido sem deixar pistas. É uma história impactante. O Caça-Ratos não tem nada a ver com aquela versão leve do Taika Waititi no filme do Esquadrão Suicida de James Gunn. Na realidade, o homem é um sádico, ainda que tenha indícios que, sim, aquele assassinato foi legítima defesa e ele tenha sofrido abusos na penitenciária.

De curiosidade, a capa da Detective nº 586 foi a primeira que o Norm Breyfogle fez para um gibi do Batman; e, vale dizer, é incrível, com o Caça-Ratos no primeiro plano, segurando uma lanterna, entrecortado em sombras, com os olhinhos de dezenas de ratos e o Batman no chão, nocauteado sob uma poça no esgoto.

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Na edição seguinte, tenho a leve impressão que o artista decidiu que ninguém jamais voltaria a fazer a capa de um gibi dele, porque no nº 587, ele entrega nada mais, nada menos que uma de suas artes mais icônicas; que é a do personagem num beco escuro, com a silhueta frontal bem no alto da página, em meio à chuva e trovões. Mesmo sem publicar a referida história, a Abril acabou usando a capa em Armageddon 2001 nº 3; que especulava um futuro onde Batman poderia se deparar com uma situação limítrofe e, supostamente, se tornaria o vilão Monarca. Mas, obviamente, isso não aconteceu.

Seguindo em frente, entre Detective nº 587-589 se desenvolve o arco O Povo da Noite. E se você já estava começando a sentir que Alan Grant, a cada edição, está esticando mais e mais a corda, aqui nesses três números, o que está sendo testado são os limites do que o (editor) Dennis O’Neil estaria disposto a publicar. São vários núcleos orbitando juntos, com um Batman que só parece ser um mero detalhe na história. Um DJ de rádio, porém, une todas as tribos tocando clássicos do rock, e a cada trilha, ele comenta trechos das letras ou as próprias canções interagem com a cena; como a do grupo de mendigos, com a sugestiva Trash do New York Dolls. 

E eis que ocorre um assassinato no beco onde moram. Um deles, o "Perneta", revolta-se com o suposto descaso do Batman em encontrar o matador:

Percebe que isso é outra crítica velada ao personagem e, a preço de hoje, tem muita gente por aí que realmente pensa desse jeito?! Que o Batman é um super-herói das elites. É um ponto para se refletir, e voltarmos a esse raciocínio mais à frente em outro texto. Talvez na história do Anarquista, que tal?

Ainda sobre o Povo da Noite, paralelamente, um homem chamado Derek Mitchell, sentenciado à prisão perpétua, fugiu da cadeia e quer acertar as contas com o criminoso que o delatou. Esse delator, metido a técnico de efeitos especiais de cinema, na verdade, foi quem encomendou a morte daquele mendigo, pensando ser Dalton Walls, um milionário excêntrico que vivia entre os desabrigados. Então, o delator/ilusionista/assassino/aproveitador se autointitulava de "Sr. Kadáver" e estava mexendo os pauzinhos para ficar com parte da fortuna daquele ricaço. Batman só entra nessa salada porque está perseguindo uns traficantes, e aí topa com o fugitivo (Mitchell), que acaba sofrendo um acidente com resíduos químicos, que o transformam no Homem-Corrosivo; tal qual Derek Powers em Batman Beyond, lembra?

Olha, é uma loucura. O Alan Grant deve ter pensado que, se o Dennis O’Neil lhe deixasse publicar isso, ele poderia fazer qualquer coisa. E essa história que, como vocês devem ter percebido, tem tudo a ver com sincronicidade, fecha com o DJ da rádio, que a gente descobre que estava drogado, acaba atropelando e matando o próprio traficante que o Batman vinha perseguindo no começo da noite.

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Aí, vejam só, se Detective nº 590 da viagem a Londres saiu na 2ª edição da Abril, o nº 591 só veio a dar o ar da graça no nº 13 do título nacional. Tem quem se irrite retroativamente com isso. Eu, por outro lado, fiz as pazes com o demônio da tesoura e, hoje em dia, me divirto com aquelas indiscrições. Sobre o enredo de Detective nº 591, diz respeito a um aborígene vingativo, que caça um milionário que se apossou de uma relíquia de seu povo e a quer de volta. É a segunda vez que o Alan Grant destila seu discurso corrosivo sobre a nata da sociedade gothamita; e, volto a dizer, será uma constante. Essa edição saiu em Saga do Batman nº 8 (Panini/2021), assim como as Detectives nº 592-593, e aí meus amigos, essas é que são realmente de embrulhar o estômago.

Elas trazem um arco com o serial killer Cornelius Stirk. De cara, o Cornelius, que tem uma característica transmorfa, parecida com o indutor de imagens do Noturno, descarta um corpo na mala de um táxi usando a imagem de Jesus Cristo para uma criança que vê isso acontecendo. Fora que ele é um canibal, então veja só o (sub)nível da coisa. Durante a história, descobrimos que ele teve alta do Arkham e deveria tomar um remédio para regular um desequilíbrio químico. Só que, como ocorre com muitos pacientes psiquiátricos problemáticos, deliberadamente deixa de tomar o seu remédio e percebe que, usando o seu dom, quando ele aterroriza as pessoas, elas liberam uma substância que, quando mortas, o coração fica com um aditivo dessa descarga de pavor que o ajuda suprir suas necessidades.

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Nem Preacher, de Ennis & Dillon, no auge de sua esbórnia herética, mandou uma dessas.

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Off-topic, mas nem tanto: 

Acho bem curioso que o aspecto real de Cornelius lembra muito o semblante aterrorizante do John Dee em Sandman. Fora toda a retórica subversiva dele(s). O negócio é tão pesado que o Batman rastreia e encontra a casa dele, mas Cornelius não está, mas no fogão há uma panela com cozido de coração humano.

E sabe o que é interessante? É que a abordagem do Cornelius para as vítimas e esse lance do canibalismo lembra também o modus operandi do Jeffrey Dahmer, só que aí está o ponto... Esses edições de Detective saíram nos Estados Unidos em novembro e dezembro de 1988. O Dahmer só foi preso em 1991. Mesmo a versão do John Dee que Neil Gaiman trabalha só aparece em meados de 1989. Esse é o meu ponto: temos aqui um Alan Grant produzindo gibi Vertigo antes de existir um gibi Vertigo.

A história do Cornelius Stirk não acaba aí. Anos depois, o serial killer volta a aparecer em A Sombra do Batman (The Shadow of the Bat); e sobre essa (nova) mensal, um parêntese: Alan Grant foi o roteirista titular da edição nº 1 até a 82, sem pausa, sem escritor convidado nem nada. Isso mesmo. 82 edições! Sem falar da quantidade enorme de especiais paralelos. Eu ouso dizer que no mercado americano, tanto na DC quanto na Marvel, não existe hoje mais ninguém escrevendo gibi de massa nesse nível e nessa regularidade. Nos quadrinhos do Batman, cravo que não, talvez nem no seu próprio tempo, ainda mais quando vemos um Dennis O'Neil - numa notinha em Amazing Heroes nº 133/1988 - entusiasmado com o que a nova equipe criativa estava lhe entregando: "Wagner e Grant realmente têm imaginações macabras. [...] O material deles é horripilante... não é para os fracos de estômago ou coração! ".

Voltando ao Cornelius, seu retorno se dá nos nº 46 e 47 de A Sombra do Morcego, e aqui no Brasil, na edição nº 15 de Batman Vigilantes de Gotham (Abril/1998). Curiosamente, àquela altura, era a estreia desse vilão, já que a Abril não havia publicado a história anterior em Detective, mas para ser honesto, o escritor faz um recordatório tão bem feito que se chega a pensar que mesmo é a primeira aparição do vilão.

Nesse caso, o Cornelius está sendo entrevistado por um escritor de livros sobre serial killers, ludibria todo mundo e foge do Arkham. Na noite da fuga, está ocorrendo a festa da vitória da nova prefeita de Gotham. E ele quer justamente comer o coração dessa prefeita. História muito boa, a arte não é do Breyfogle. É também de outro finado que deixa saudades, o John Paul Leon, que volta e meia colaborava nessa revista, mas nesse tempo, se me dissessem que era do Mike Mignola, eu caía que nem um pato. Sem exagero, era idêntico. E muito bom, só para constar.

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A Detective nº 594 era inédita também e traz consigo um operador da bolsa que está drogado, ouvindo vozes e com três bananas de dinamite. Ele procura três alvos que estão envolvidos com drogas. Pode ser traficantes, usuários e até os próprios colegas de trabalho dele, que lhe repassaram os comprimidos. Nessa história, também aparece um detetive particular, criação de Grant & Breyfogle, o Joe Batata (Joe Potato). O homem é um velho corpulento, cujo rosto lembra mesmo uma batata. Na trama, um contratante anônimo estava pagando dez mil dólares para que ele capturasse o operador da bolsa drogado, sem atrair a atenção da polícia. Tal como Cornelius, Batata também volta mais tarde para outras participações em histórias futuras de Alan Grant.

Já o nº 595 saiu no Brasil, mas nem conta muito porque era para cumprir protocolo por ser tie-in da saga Invasão. Aí, meus amigos, vejam só maluquice do Alan Grant: os nº 596-597, inéditas por aqui, eram uma história em duas partes em que o Batman investigava uma rede clandestina que produzia snuff movies, vídeos de tortura e sadismo, para exibições privadas na elite da cidade. Na segunda parte, o Batman até chega a ser espancado e filmado para esses espectadores. A arte fica por conta do uruguaio Eduardo Barreto; inclusive, por ter uma carga mais sombria e realística do que o surrealismo habitual do Breyfogle, eu acho que acaba sendo muito mais apropriada para a história.

Há uma crítica social muito arrojada nessa história, porque o roteiro se pega na contradição de que o Batman é uma criatura de violência; e, segundo o Alfred, numa tirada bem ácida, o Bruce nutriria, sim, um certo prazer com isso. E o próprio ato de existirem pessoas que querem pagar para ver uma violência também resvala nos leitores, que pagam o gibi, claro, para ler uma boa história, mas não deixa de ser histórias com um ímpeto violento. Vamos dizer, é quase uma crítica social em abismo.

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Até aqui foram treze edições inéditas. Elas saíram compiladas entre Saga do Batman nº 5-9. Creio que todo mundo que, em algum momento, notou essa lacuna tentou descobrir por que a Abril fez isso. Sigo nessa corrente que foi o teor "adulto" das histórias - ou mais maduro, vai? -, quase como se tivessem sido produzidas para uma Vertigo extraoficial. Por outro lado, não consigo visualizar o editorial da Abril sendo tão sensível, mas, quem sabe, alguém lá ponderou que essa truculência britânica talvez demorasse ainda um pouco para ser normatizada pelo leitor brasileiro, como um gosto adquirido. 

Fato é que esse ano "Vertigo" de Detective Comics saiu também da caixinha ao não aproveitar nenhum dos vilões da galeria tradicional do Batman. E isso tem uma explicação. Num trecho de uma entrevista a dois, de Grant e Breyfogle em 2007, no (agora desativado) blog 20th Century Danny Boy, eu consegui recuperar esse trechinho: 

Grant: Do meu ponto de vista, isso se devia principalmente ao fato de eu não ter lido nenhum Batman desde o fim da temporada de Denny O'Neil. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo. Eu não tinha ideia se os outros vilões como o Coringa ou o Pinguim estavam sendo usados no Batman. Portanto, era mais fácil criar novos [vilões] do que passar por todo o trabalho de descobrir o que estava acontecendo com os antigos. Não foi até eu acho que depois de talvez um ano de Norm e eu trabalhando em Detective que os leitores começaram a escrever e perguntar: 'Por que não estamos vendo esses caras aqui?', como o Coringa, o Pinguim, o Espantalho e começamos a fazê-los.

Breyfogle: Francamente, lembro de ter ficado um pouco desapontado no início porque queria desenhar os vilões clássicos do Batman. Eu cresci com eles e era isso que queria desenhar, mas agora, olhando para trás, estou muito feliz por termos criado todos esses personagens. Na verdade, devo dizer que os considero suas criações.

Grant: Não, não. Qualquer coisa que um escritor e um artista façam juntos é uma cocriação. Absolutamente.

Breyfogle: Direi que sou parcialmente o criador, claro, mas a gênese, a semente dos personagens veio de você. [Sobre o visual] Geralmente, Alan dava muito pouca informação sobre a aparência deles e eu me sentiria da mesma forma se estivesse escrevendo um personagem para outro artista desenhar. É a mesma coisa que sinto ao dar instruções de cores aos coloristas. Quer dizer, uma vez que você começa com as sugestões, tudo está inter-relacionado e não há onde parar. Eu sei que uma imagem vale mais que mil palavras e, a menos que você tenha uma imagem realmente clara em sua mente do que deseja, não daria notas específicas a um profissional mais adiante. Porque se [o script] for bom, você fará bem o seu trabalho de qualquer maneira e, se [o script] não for [bom], nenhuma palavra servirá para aumentar suas habilidades no lápis.
 

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Quantos bons quadrinhos do passado foram produzidos num mix de oportunidade, improviso e genialidade? Porque o que esses dois fizeram se encaixa perfeitamente nessa trinca. 

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Links Afiliados:


[1] Herman Melville, por exemplo, morreu antes de ver o sucesso que seu livro mais importante, Moby Dick, alcançaria algum tempo depois. Já Elza Soares, falecida em 2022, trouxe um foco adicional à discografia e gravações inéditas, promovendo um debate sobre os direitos autorais e o uso póstumo de suas criações.

quarta-feira, 27 de março de 2024

UM PSICODRAMA

Se você consultar o significado da palavra “psicodrama”, vai encontrar por aí que se trata de uma abordagem terapêutica que explora técnicas teatrais de dramatização. Seria como se o indivíduo, por vezes, paciente de psiquiatras ou psicólogos, fosse o protagonista no centro de um palco. Então, no psicodrama o sujeito revive/recria cenas vivenciadas para que numa eventualidade futura tenha à disposição ferramentas emocionais para lidar com situações problemáticas.

Esse conceito soa como algo moderno e sofisticado, mas a verdade é que o psicodrama já tem quase um século que foi criado pelo romeno Jacob Levy Moreno. Como era médico, filósofo e tinha um fascínio por teatro, ele acabou fazendo um bem bolado das três coisas e tornou-se o primeiro psicodramatista. Hoje é bem corriqueiro ver por aí essa metodologia sendo aplicada dentro de empresas, escolas, workshops e processos seletivos.

(Um) Psicodrama (2001) é também o título de uma historinha do Batman escrita por Alan Grant e desenhada por Charles Adlard,o grande artista por trás de The Walking Dead. Na realidade, o título original acabou sendo preterido pela Mythos Editora em favor de A Maldição de Scarface, publicada em 2002. Nela, Arnold Wesker, o Ventríloquo, se submete a uma sessão de psicodrama com o Doutor Arkham e queima o boneco marionete Scarface. A ideia era sepultar o lado sombrio do interno com aquele ato e neutralizar a personalidade homicida do pequeno mafioso de madeira.

Se isso vai dar certo ou não, é só um mero detalhe sobre o que eu quero abordar no texto de hoje. Para tanto, vamos começar rebobinando um pouco a fita, de 2001 para o comecinho de 1988.

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O trio que sempre foi uma dupla.

A revista Detective Comics vinha mal das pernas. Nesse tempo, o ponto de equilíbrio financeiro de um gibi mensal costumava ser uma vendagem de oitenta mil edições. Um número que nos causa espanto, já que, hoje, ele representaria justo o inverso, catapultando o título para o ranking de mais vendidos nos EUA. Lembrando, claro, que na década de 1980, os quadrinhos ainda não eram vendidos exclusivamente em comic shops e o preço de capa era em torno de $ 0,75. Então, para não dar prejuízo, uma revista tinha que render ao menos sessenta mil dólares aos cofres da DC Comics. Era o limite da degola.

E aí, ali em 1988, a Detective Comics estava no vermelho, com uma vendagem de cerca de setenta e cinco mil edições por mês. Para melhorar as cifras da revista, a solução que o editor Dennis O’Neil chegou foi a mesma que já vinha dando certo dentro da editora: trazer gente de fora dos Estados Unidos[1], com novas ideias e liberdade criativa total. Nesse caso, porém, havia um certo ineditismo, visto que era a primeira vez que um personagem de Série A era transferido aos cuidados de um comando técnico estrangeiro. Logo, a bola da vez recaiu na dupla John Wagner e Alan Grant.

À época, os dois tinham a mesma idade (39) e vinham ganhando uma reputação na 2000 AD, especialmente com o Juiz Dredd, que era criação do Wagner. Não obstante, naqueles onze anos de publicação do personagem, Grant havia colaborado com muitas histórias; daí a parceria deles. De partida, a proposta de O’Neil era que eles fizessem um ano de histórias e depois sentassem juntos para analisar se continuariam a parceria. Wagner estava empolgado com a ideia dos royalties sobre as vendas; porque isso era um conceito mercadológico que não existia na Inglaterra. Quer dizer, não tinha esse romantismo de escrever histórias do Batman, o lance era meramente profissional e estritamente financeiro.

Para compor a equipe artística, eles teriam a arte do novato e autodidata Norm Breyfogle, de 28 anos. Para ser justo, o desenhista já havia trabalhado em três histórias do Batman, antes que os ingleses assumissem os roteiros. A primeira em um back-up dentro de Batman Annual nº 11, edição que ficou marcada pelo conto de Alan Moore com o Cara-de-Barro, muito embora a historinha de Max Allan Collins também tivesse seus momentos. Nela, o Pinguim era um ex-presidiário vivendo um romance com uma mulher que conheceu na sessão de cartas de uma revista de ornitologia.

Já a outra, Detective Comics nº 579, é um barato e traz consigo a versão pós-crise do Doutor do Crime, assinada por Mike W. Barr. Novamente focada em um ex-presidiário, dessa vez, vemos um homem desesperado, sem conseguir prover sua família, negociando o próprio coração para ser transplantado em um mafioso às portas da morte. O tal cirurgião chama-se Dr. Bradford Thorne e, vejam só, protagoniza uma bela adaptação em Batman Animated (S2E25); no qual terá que operar Rupert, o irmão gangster. Assim como no gibi, o enredo da animação também conta com a participação da Dra. Leslie Thompkins, que é coagida a auxiliar Bradford na cirurgia.

A terceira história de Breyfogle pré-Wagner/Grant, Detective Comics nº 582, tem roteiro de Jo Duffy e traz consigo um tie-in da Saga Milênio. A trama se centra em torno de um Caçador de Oa que assume a identidade de Jim Gordon, mas o que me chamou a atenção foi a revelação desse passado do Comissário como oficial da Inteligência – militar ou CIA, já que não é especificado qual agência.

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Time completo. O agora trio começa a trabalhar em Detective Comics nº 583; que, a propósito, estampa uma belíssima capa de Mike Mignola. Nas páginas internas, o choque anafilático vem com cinismo e uma pegada seca, sem arrodeio, um Batman definitivamente “Dreddiano”. Tudo conspirava para ser uma fase inesquecível e será foi, só que, a partir da edição nº 587, a equipe criativa sofreria um grande revés.

Vamos lá... O problema, como disse acima, é que o título estava por baixo e, rapidamente, os roteiristas constatariam que os royalties só seriam dignos de notas – muitas nota$! – caso as vendas aumentassem consideravelmente. E aí, exatamente cinco edições depois da estreia, sem crer que eles receberiam os adicionais, John Wagner dá um passo em falso e sai de Detective Comics. Como o acordo firmado estabelecia que fossem roteiros a quatro mãos, Alan Grant decide encarar sozinho a produção dos textos, ainda que o compatriota não estivesse mais a bordo e tivessem a obrigação contratual de ter os nomes dos dois nos créditos da revista. Então, no papel, a “parceria” Grant e Wagner é levada adiante até o final do primeiro ano da Detective Comics.

No Brasil, até a publicação de Saga do Batman da Panini, a maioria desses números iniciais seguia inédito. Sim, a Editora Abril começa da edição nº 590 e ignora as sete anteriores (583-589); com um detalhe curioso. A capa da 590 tem aquela famosa arte de Breyfogle em que o Batman está de costas, olhando para o relógio Big Ben na torre do Palácio de Westminster, a sede do Parlamento Britânico em Londres.

No entanto, ela não foi aproveitada na edição nacional específica, onde saiu, e, sim, em um encadernado formatinho das Dez Noites da Besta; que, obviamente, não tem nada a ver com a história original do Alan Grant.

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Normalmente, quando leio gibis velhos fico fazendo movimentos de ida e volta. Pego uns lá na frente, depois volto ao começo e, às vezes, me sinto que nem um Chuck Noland e fico parado no meio do caminho, decidindo que direção tomar. Nesse aspecto, parece bobagem, mas eu teria adorado se Saga do Batman tivesse saído seguindo rigorosamente os line-ups de The Dark Knight Detective e The Caped Crusader; o primeiro com as edições de Detective e a segunda com as de Batman.

Na prática, a Panini fez um mix, alternando os materiais de ambas num mesmo volume e sempre de olho na cronologia das duas revistas. Ok. Tudo certo, porém, no alto dos meus quarenta e poucos, acho que já posso me dar ao luxo de algumas excentricidades. Quando leio Detectives, fecho questão com o título e só lerei Detective e o mesmo com Batman. Como disse, isso sou eu complicando o descomplicado, já que se trata de uma época bem acolhedora no sentido de que as histórias eram descompromissadas, sem uma exigência de continuidade que as equipes criativas contemporâneas costumam exigir.

Claro, continuidade no sentido de histórias presas a um arco maior e complexo, contado em runs cada vez mais longos[2]. Com Alan Grant, se muito, você chega a ler uma história que se passa dentro de três ou quatro edições e vida que segue. Fora que esse pequeno arco não trará repercussões ad infinitum, te forçando a ter que voltar ao que já se passou; e se for voltar, o próprio recordatório fará um esforço mínimo e circunstancial para lhe deixar a par do que precisas saber. É assim que eu gosto que seja. É por essas e por outras que essas histórias me marcaram; dos casos à moda O’Neil/Adams, quase como se Grant/Breyfogle fossem os melhores alunos egressos daquela escola setentista.

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Mas voltando àquelas edições iniciais do então trio, a começar por Detective Comics nº 583 (Saga do Batman nº 5), a história mostra o Batman lidando com uma nova droga que caiu no gosto dos adolescentes: a Febre e, que por acaso, é também o nome do arco.

Para ilustrar os efeitos desse narcótico que, segundo relatos, costuma dar um pico forte de euforia e fúria, vemos uns viciados queimando um gato e, logo em seguida, ateiam fogo em um guardinha de rua idoso. O Batman fica perplexo por "crianças" terem cometido tal barbárie; e aí os policiais na cena do crime revelam que essa Febre é a sensação do momento nas ruas. Em outro lugar, descobrimos que o principal distribuidor do entorpecente é um homem chamado Arnold Wesker, ou melhor, o serviçal do fantoche Scarface.

À primeira vista, trata-se de um vilão muito simples que, numa leitura mais lúdica, poderia até ser um análogo do Homem dos Brinquedos, entretanto, Grant/Wagner trabalham maneirismos que mesmerizam até mesmo o leitor. Em outros termos, você chega a ficar em dúvida se o boneco realmente tem vida e Wesker não seria, de fato, um escravo, sobretudo porque Scarface sempre está no centro do palco, tirando do interlocutor no gibi a quebra da suspensão de descrença.

Primeiro que o boneco fala trocando algumas consoantes nas palavras e isso, vamos combinar, torna-se um recurso marcante, que se sobressai a voz vacilante do Ventríloquo. E quando isso não funciona e alguém deixa isso de lado, passando a se dirigir diretamente ao Arnold, o boneco fica consternado e manda que todos voltem a olhar para ele... Porque quem manda é o Scarface, ele é o chefão. E para contrapor essa figura do Wesker, de um homem aparentemente pacato, de certa idade, temos um fantoche endiabrado.

Eis uma pequena demonstração: ao perder uma carga de Febre, ele dá ordens a um capanga obeso para buscar outra fora da cidade. Até aí nem um problema. O problema é que, em off, Scarface ordenou sua morte e quer que usem o cadáver corpulento como mula.  Para tanto, é necessária a extração dos órgãos, vísceras e gordura para arrumar os tijolinhos. É doentio. No fim, o Batman inala um pouco de Febre e solta a mão no Wesker. Na cadeia, enquanto aguarda a transferência para o Arkham, Wesker diz que quer colaborar com a justiça, o que lhe rende, dessa vez, umas belas bofetadas do Scarface.

Em 1992, quando o Alan Grant está cuidando do título Batman, num arco em três partes dentro das edições nº 475-476 e Detective Comics nº 642 (Saga do Batman nº 28), temos A Volta de Scarface. Segundo o boneco, eles foram inocentados por conta de uma tecnicalidade jurídica e agora estão tentando reaver o território que perderam para uma gangue nova. Os DemônioZ da Rua, como se intitulam, metralham o fantoche e o dão como morto, com direito a velório e sepultamento. O que mostra o grau de convencimento que o Arnold Wesker exerce sobre todos ao seu redor; até porque as balas são disparadas em direção ao construto e não ao Ventríloquo. 

No fim da história, Scarface recupera o território e consegue redirecionar o Batman e a polícia para a captura dos rivais. Como disse lá em cima, a primeira história, Febre, era inédita por aqui até Saga do Batman nº 5, mas vejam só, A Volta de Scarface chegou a sair em 1995 dentro de Batman Anual nº 4 da Editora Abril. E isso, vale dizer, já com A Queda do Morcego em curso. Então, o primeiro contato do leitor brasileiro com Ventríloquo/Scarface se deu exatamente na segunda história desses personagens.

Daí em diante, vez ou outra, o Alan Grant traz eles de volta, geralmente, num contexto em que: ou 1) os dois estão separados; ou 2) Wesker tenta se curar e acaba esbarrando no carma de Michael Corleone. Por sinal, uma das passagens mais doentias dos “dois” se dá em Queda do Morcego, quando Wesker está sem o boneco e aí improvisa um fantoche de meia. No entanto, quando o boneco mafioso é recuperado, o substituto e o original trocam farpas entre si até que um atira no outro! No último quadro, vemos Wesker inconsciente com as duas mãos estraçalhadas (Detective Comics nº 664):

Mais adiante em Filho Pródigo, quando Dick Grayson se torna momentaneamente o Batman, ele prende Wesker que, evidentemente, sobreviveu. Antes de ser preso, ele deixa um livro de ventriloquismo para Rino, seu fiel leão de chácara, aprender a cuidar do Scarface. Isso lá em Shadow of the Bat nº 32, de 1994. Essa história só teria sequência em Shadow nº 59 e 60, de 1997, ocasião em que Alan Grant resolveu revelar um trauma da infância de Wesker em torno do pássaro albatroz. É dito que na manhã que os pais foram atropelados, eles haviam acabado de ver essa ave[3].

Em paralelo, vemos Rino quebrando a cabeça para aprender ventriloquismo e dando um jeito de libertar o Wesker de Blackgate. Quando se reúnem, o Scarface quer encontrar um albatroz que foi avistado sobrevoando Gotham e fazer com que Wesker quebre seu pescoço, superando, por fim, aquele trauma. É mais ou menos um psicodrama, o que nos leva de volta à Maldição de Scarface.

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Como disse no início, o Doutor Arkham dá uma de psicodramatista e faz com que Wesker queime Scarface para, vamos dizer, incinerar seu lado sombrio. Mas aí é que está, nas histórias anteriores, a suposição que fazíamos é que a marionete era apenas o conduíte da loucura do Ventríloquo e ele, por seu turno, era a mente criminosa por trás da dupla. Só que aqui nesse especial, Alan Grant conta a origem do fantoche e insere um componente sobrenatural nessa relação homem versus boneco: a madeira ao qual foi esculpido era amaldiçoada.

Explica-se em flashback que na prisão Black Gate havia uma forca nos arredores da penitenciaria onde 313 prisioneiros foram executados. A contagem só parou porque um raio destruiu a estrutura de madeira, deixando apenas um toquinho no chão. Dá para supor também que, em algum momento, a pena de morte foi revogada, enfim... É a lacuna do texto que nos deixa livres para especular e discutir. O fato é que, não muito tempo depois, um preso chamado Donnegan pegou aqueles restos e esculpiu um bonequinho, o qual batizou como Tronquinho. O guarda que está com ele chaga a alertá-lo que nada de bom sairia daquela matéria-prima, já que Deus tinha virado as costas para todas aquelas almas.

Mais tarde, descobrimos que o companheiro de cela de Donnegan é ninguém menos que Arnold Wesker. E aí nos momentos em que o escultor dorme, Tronquinho conversa com o seu futuro cúmplice. A princípio, o próprio Wesker acredita que aquilo é uma voz projetada e está sendo tapeado por truques de ventriloquismo. Isso escalona de um jeito que ele acaba matando Donnegan e mais dois guardas, fugindo logo em seguida. Nesse ponto, o fantoche pede para que, dali em diante, fosse chamado de Scarface.

Nada disso dá indícios ainda que exista algo de paranormal naquela relação. Isso só viria à tona a partir daquela sessão de psicodrama, quando o boneco fora queimado. Ou melhor, logo após, quando a pira vira e o boneco cai no despenhadeiro rumo ao mar. Lá embaixo, dois amigos estão pescando e confundem Scarface com um bebê se afogando; quando um deles vai tentar salvá-la, ele dá um escorregão, bate a cabeça numa pedra e morre:

No outro dia, um menino que sofre bullying na escola e está ali na praia com os pais, acha o boneco e decide ficar com ele. Da mesma forma que o pescador morto, Scarface vai trazer mau agouro para aquela criança e passará de mão em mão até que, fatalmente, regressará às mãos de Arnold Wesker; que, naquele instante, estava em liberdade e fazendo shows como ventríloquo, agora com Lola, uma boneca – supostamente – "inofensiva".

Curiosamente, na série animada dos anos noventa, no episódio Double Talk (S3E4) – ou Identidade Dupla –, assistimos também a libertação e reintegração do Ventríloquo à sociedade, inclusive trabalhando como mensageiro nas indústrias Wayne. Não obstante, Rino e os antigos associados trabalham para que Scarface retorne e tentam a qualquer custo sabotar a sanidade do ex-interno do Arkham. Ao contrário de A Maldição de Scarface, o final da animação é feliz e Wesker se liberta dessa praga... ou seria pesadelo?!

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A preço de hoje, dá até para fazer uma rima de Scarface com a boneca Annabelle, e mesmo com o sobrenatural instalado, creio que o leitor sempre ficará desconfiado se aquilo tudo não é só coisa da cabeça de Arnold Wesker. Eu prefiro que seja assim, a boa e velha loucura ditando os passos dos melhores vilões do morcego; e, se não ficou claro, adoro esses dois porque pertencem a uma safra em extinção. De antagonistas pequenos, que não têm a pretensão de destruir Gotham ou ser só análogos negativos do herói.

A própria estranheza deles já era o ingrediente perfeito para boas trocas com o Batman.



[1] Os estudiosos das Histórias em Quadrinhos chamaram essa iniciativa de Invasão Britânica. Alan Moore teria sido o primeiro com Monstro do Pântano, Grant Morrison com Homem-Animal, Neil Gaiman com Orquídea Negra e, consequentemente, com Sandman, etc.

[2] Por exemplo, a fase de Tom King na mensal Batman teve ao todo 85 edições + 12 edições da minissérie Batman/Mulher-Gato. Tudo é umbilicalmente interligado, de modo que o leitor precisa mesmo ler todos os números para saber onde a história vai desembocar. Se ela desembocou ou não, aí são outros quinhentos.

[3] Essas histórias saíram no Brasil na 5ª série do Batman nas edições nº 1 e 23 (Abril). Mais especificamente, aquela coleção pós-Zero Hora.