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quinta-feira, 20 de março de 2025

VOCÊS ME PEGARAM!

 

O trecho acima pertence ao filme Lola, de Andrew Legge. Faz exatamente um ano que pesquei essa dica com o J.M. Straczynski. Como de praxe, adicionei na minha “lista” no Romênia + e por lá continuou até agorinha, em março de 2025. O meu interesse pelo mesmo foi subitamente ressuscitado quando vi amigos compartilhando o trailer de um tal de “A Máquina do Tempo”, que acabava de ser lançado nos cinemas brasileiros.

Para minha surpresa, trata-se do mesmo Lola que continuava sendo solenemente ignorado por mim. Corrigi isso em dois tempos, e já posso bater no peito que, para variar, o título nacional é genérico e não corresponde ao que de fato é o mecanismo "Lola". Quer dizer, o dispositivo criado pelas irmãs Hanbury – e batizado em homenagem a mãe – nada tem a ver com viagens temporais[1]. Muito pelo contrário, a tecnologia criada por Thomasina (Emma Appleton) e Martha (Stefanie Martini) no final dos anos 1930, tem como particularidade o fato de ser capaz de sintonizar sinais de rádio/televisão transmitidos do futuro.

Daí, o que as simpáticas irmãs fazem com isso? O que qualquer um faria: enriquecer com jogos de loteria e bisbilhotar a produção cultural de décadas a frente. Tudo ia muito bem para as Hanbury até o fatídico dia em que Adolf Hitler aconteceu e a Inglaterra passou a amargar duras derrotas no princípio da 2ª Guerra Mundial. Imaginando que poderiam mudar o curso do conflito e salvar milhares de vidas, sob o pseudônimo de “O Anjo de Portobello”, elas passam a fornecer dicas anônimas à inteligência militar sobre ataques e operações nazistas.

Chega-se a um ponto em que as previsões começam a mudar o rumo da guerra, e com ela o próprio futuro do qual já conheciam. Está instalado um efeito borboleta que leva às favas qualquer senso de previsibilidade anterior, e junto com ele, figuras notáveis como David Bowie, Stanley Kubrick e vários outros. Sem falar que o próprio nazifascismo torna-se um animal diferente.

Lola é curtinho. Tem nem 1h20min de duração e, quem diria, dá um trato daqueles na técnica batida do found footage. É que as irmãs registram seu cotidiano e todos os momentos que levarão ao clímax da história por meio de câmeras de 16 mm, como a Bolex e a Arriflex, equipadas com lentes do período. Já as cenas que simulam cinejornais da época foram capturadas com uma câmera Newman Sinclair de 35 mm, fabricada na década de 1930, usando filme Kodak Double X.

É um lance deveras criativo, que faz horrores pela imersão e autenticidade. Fino!

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Após assistir ao 4º episódio de Demolidor Renascido, tive a leve impressão que o Justiceiro repetirá a façanha da 2ª temporada da série original e ditará os rumos da história. Ora bolas, já estava ditando sem sequer aparecer, não acha?

Estou falando da banda podre da polícia nova-iorquina, adotando o memento mori de Frank Castle (Jon Bernthal) como inspiração leviana para seu “servir e proteger”. O tema, por sinal, atormenta a Marvel/Disney e não é de hoje. Se por um lado, a caveira estilizada já era uma iconografia cotidiana no exército norte-americano, com a autobiografia de Chris Kyle, o Sniper Americano, fica nítido que ela virou algo maior que o personagem. Uma ideia:

"- Nosso operador de comunicações sugeriu isso antes do destacamento. Todos nós achávamos que o que o Justiceiro fazia era incrível: ele corrigia injustiças. Ele matava caras maus. Ele fazia os malfeitores temê-lo. Era exatamente isso que representávamos. Então, adotamos o símbolo dele — um crânio — e o transformamos em algo nosso, com algumas modificações. Pintamos com spray em nossos Hummers, em nossos coletes balísticos, capacetes e em todas as nossas armas. E pintamos com spray em cada prédio ou muro que pudemos. Queríamos que as pessoas soubessem: estamos aqui e vamos acabar com vocês. Era a nossa versão de guerra psicológica. Estão vendo a gente? Somos os caras que estão detonando vocês. Temam-nos. Porque nós vamos matar vocês, seus filhos da puta. Vocês são maus — nós somos piores."

Piora quando Jon Bernthal passa a ser cobrado a dar esclarecimentos sobre fotos de manifestantes na invasão do Capitólio em 6 de janeiro (de 2021), usando a logomarca. Gerry Conway, cocriador do Justiceiro, chegou a dizer sobre policiais flagrados estampando-a em viaturas e/ou equipamentos:

“- Por definição, ele é o oposto do que eles deveriam ser, sabe? Ele é alguém que está fora da lei tomando a lei em suas próprias mãos. Então, se eles estão reivindicando o Justiceiro como seu símbolo, eles estão dizendo que são foras-da-lei e que eles são criminosos e que eles são inimigos da sociedade. É realmente isso que eles querem dizer? [...] Quero negar à polícia, à milícia e aos militares a oportunidade de usar isso como um símbolo de opressão. [...] A Disney sabe que isso é radioativo. Eles vão deixá-lo desaparecer. O que para mim é uma vergonha."[2]

Entretanto, acho que ninguém foi tão contundente e literal num contraponto quanto foi a dupla Matthew Rosenberg e Szymon Kudranski em The Punisher nº 13/2018 (ou Justiceiro, Vol. 3: Rua a Rua, Quadra a Quadra):

O que estou pensando: a Marvel/Disney está com a caveira bola na mão. O que quer que será do Justiceiro daqui para frente, virá do que estão planejando nos próximos episódios de Demolidor. Creio que a sequência acima tem boas chances de ser adaptada para a telinha, porém minha inquietação é outra. Me pergunto se o velho Frank terá munição suficiente para abrir caminho nos corações & mentes de tanta gente besta, deixar para trás os cafundós de Mefisto e, por fim, ter de volta um lugar no Universo 616. 

 A conferir.

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[1] Se fosse para arriscar uma referência pop dessa “máquina do tempo”, eu iria de Alta Frequência.

[2] Vire e mexe, Conway é instado a se manifestar sobre a apropriação da caveira do Justiceiro. Para fins desse texto, capturei excertos de matérias na Forbes e no CBR. Por outro lado, nunca vi o Garth Ennis falando a respeito, mas imagino que em Justiceiro MAX nº 49 (O Fazedor de Viúvas), o irlandês disse tudo em uma página só.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

O HOMEM SEM DDEPRESSÃO

Nada poderia me preparar para isso... 

Mark Waid tem sido tão ousado quanto o pobre diabo em questão, transformando em uma leitura despretensiosa, leve e revigorante um título cujo protagonista, desde sua segunda gênese, sempre teve como mola propulsora suas próprias tragédias pessoais. Mas calma lá! Sei que isso soa como se Matt Murdock estivesse sendo descaracterizado pelo bem da galhofa, contudo, é exatamente o contrário. O que Waid está fazendo é um espécime de agregado de discursos, mezzo Lee, Everett, Kirby, Wally Wood, John Romita, Sr., e Gene Colan; mezzo Miller, Nocenti, Chichester, Smith, Mack, Bendis, Brubaker.

Parece estranho, só que, cerca de sessenta edições, três Eisner e um Harvey Awards depois, o caso é que esse pot-pourri de estilos tem funcionado a contento, trazendo à tona uma narrativa que, embora seja clássica, é também ágil e moderna por inovar no trato com os quatro super-sentidos, retirar o Demolidor da Cozinha do Inferno – sua zona de conforto particular – e lançar mão de certos paradigmas muito caros aos super-heróis.

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Vamos por partes:

Nunca – sim, eu disse nunca! – o sistema de ecolocalização de Matt fora investigado e esmiuçado com tanta contundência e imaginação quanto na gestão Waid. De um modo que instila o leitor a fechar os próprios olhos e imaginar-se na pele do personagem, identificando os contrastes do ambiente entre odores, percepções e sons, inovando não apenas enquanto norte estético para as composições gráficas de Marcos Martin, Paolo Rivera e Chris Samnee, como também na concepção de sua inusitada visão de mundo.

O bromance Murdock/Nelson deixa de lado a irritante birra de Foggy com a vida dupla do amigo, perpetrada por praticamente todos os autores contemporâneos que já tiveram a chance de ficar a frente da revista mensal[1], para alinhá-los finalmente como iguais, amigos que partilham de afinidades superiores a mera compulsão de julgamentos recíprocos. Isso, a propósito, fica evidente desde os primórdios da série, mas ganha outros contornos quando Foggy é diagnosticado com Câncer e sua luta para vencê-lo passa a ser o catalisador de cruzadas pessoais e redescobertas alheias. A sequência reproduzida logo acima é um desses grandes e singelos momentos.

Se por um lado, desde a Queda de Murdock o sigilo da identidade secreta do Demolidor já havia se tornado algo sensível e sujeito aos humores de Wilson Fisk; do outro, em O Segundo Homem, por Brian Bendis, estabelece-se que Fisk não havia guardado essa informação apenas para si, na realidade, ele a havia compartimentado junto à bandidagem de seu círculo interno. Esse conhecimento, aliás, vira troça entre eles e acaba chegando aos ouvidos errados de Sammy Silke, que o difunde. O resto é história e a parte que coube a Waid foi deixar de lado a negativa plausível de Matt, vestindo em definitivo a camisa do Demolidor.

Ao fazê-lo, contudo, acabou sepultando sua carreira jurídica e, por tabela, a de Foggy. Bom, pelo menos no estado de Nova Iorque, o que não o impossibilitaria de atuar em outra circunscrição que já tivera litigado junto à Ordem local. Esse local chama-se San Francisco, Califórnia, e estabelece tanto um recomeço simbólico para o personagem – inclusive, engatilhando sua quarta série nos Estados Unidos –, quanto dinâmicas inéditas na carreira do vigilante. Isto é, Matt e seu alter ego são tão bem recepcionados que alçam ao status de celebridades e, quem diria, “eles” passam a apreciar esse novo estilo de vida. Algo que, por sinal, acaba me remetendo a um “e se” involuntário sobre o rumo que Peter Parker poderia ter tomado sem aquele passe de mágica.

Por outro aspecto, nem tudo é alegria. Matt, Foggy e Kirsten estão duros, e todo o patrimônio da Nelson & Murdock se esvaiu quando o “gato” do Demolidor saiu definitivamente do "saco". A alternativa se apresenta quando o Homem Sem Medo recebe uma proposta milionária para redigir sua própria autobiografia, o que prontamente é aceita – cabendo a Foggy o cargo de biógrafo – e deve ser o bastante para os tirarem da bancarrota e manter o tratamento caríssimo do amigo canceroso.

No Brasil acaba de chegar às bancas o 7º Volume da série de compilados da Era Waid que a Panini vem publicando desde 2013 e que, oportunamente, dá o pontapé inicial a esse admirável mundo novo californiano (#0-4). Mesmo para quem não comprou nenhum dos seis exemplares anteriores, recomendo a aquisição desse sétimo, pois, além de ser um ótimo ponto de partida, é também um marco na trajetória do personagem que, se Mefisto permitir, deve ecoar por muitos anos.

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[1] O Demolidor nunca foi um personagem cujas atenções mediante sucessos de público e crítica se revertessem em superexposições do personagem. Quer dizer, mesmo com o reconhecimento advindo de diversas premiações na indústria e um seriado celebrado por fãs e neófitos, o super-herói em questão sempre manteve – e mantém ainda – apenas um título mensal, passando ao largo de todo e qualquer reboot, relanch, revamp ou proposta indecorosa. Matt Murdock deveria fundar uma religião.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

DOIS DISPAROS: DEMISSÃO SUMÁRIA & A ENCOMENDA

Para começar a semana com o pé direito, faço questão que nossos leitores limpem suas papilas gustativas e apreciem essas duas suculentas entradas:

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Tom Cochrane está frito! Ele era o encarregado de uma operação criminosa no Bronx que há poucos instantes foi desbaratada por um “cidadão preocupado”. Segundo a polícia, estima-se que as armas apreendidas estejam avaliadas em alguns milhares de dólares. Cochrane trabalha há mais de vinte anos para o Senhor Fisk, um empresário nova-iorquino de reputação ilibada cujas recompensas aos êxitos dos funcionários são historicamente generosas.

Por outro lado, por exigir desses empregados um alto padrão de qualidade em seus serviços, Fisk não permite falhas e nem é conhecido por conceder segundas chances. Como dizíamos, Tom Cochrane está frito, frito porque o crime em questão pode conectá-lo ao Senhor Fisk e Fisk, reiteramos, embora seja um cidadão exemplar e reprove os atos do referido subordinado, não tem o hábito de pagar a usual multa de 40% sobre os depósitos do FGTS. Tão pouco tem processos se amontoando em varas trabalhistas.

Demissão Sumária, de Greg Rucka e Eduardo Risso[1], foi um conto publicado em Homem-Aranha nº 10 (Panini/2002) e, originalmente, em Spider-Man's Tangled Web[2] nº 4. Uma história de um tempo em que, aos olhos dos leitores – e, cá entre nós, admiravelmente transposto no Demolidor Netflixiano –, o Rei do Crime era 90% reputação, 10% fisicalidade.

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A segunda entrada fica a cargo de Wolverine nº 30 (Panini/2007) e leva consigo não uma, mas duas excelentes histórias com o carcaju do título, ambas assinadas por Stuart Moore e C. P. Smith.

Em A Encomenda, a pedido de T’Challa, Logan é incumbido de extrair a todo custo um bebê de Zwartheid, África. O mesmo se justifica, pois, enquanto chefe do estado wakandano, o Pantera Negra está politicamente impedido de interferir na soberania das nações vizinhas. E, segundo o narrador-personagem, o Wolverine, o país em questão era classificado pela ONU como um dos piores lugares do globo em termos de qualidade de vida – com expectativa de vida de 37 anos – e um matadouro para as nações ocidentais, ante suas riquezas minerais.

Há dez anos, entretanto, o Presidente Mayamba conseguiu pacificar as tribos em conflito e estabilizar a região. Um golpe de Estado o derrubou e estabeleceu na década seguinte um período de puro pesadelo. Guerras civis, milhares de crianças alistadas como soldados. Meninas e mulheres estupradas, infectadas com HIV de propósito. Seis meses atrás Mayamba ressurgiu e uma vez mais reiniciou o processo de paz, mantendo inclusive um diálogo aberto com os senhores da guerra e traficantes de diamante. A nova queda veio com um general chamado Lago.

Assim, a esperança de paz do ex-presidente vai morrer a menos que um dia, a filha dele continue de onde o homem parou. A menos que Wolverine, como seu guardião, atravesse um ambiente descrito como hostil e paradoxal repleto de selva, matas fechadas e campos abertos; onde o caos é tamanho que o zunido de uma bala o confunde por mosquitos.

Por fim, em A Cura, conto também assinado pelos autores supracitados, se atém as dolorosas etapas que o fator de cura tem de percorrer até que alcance sua regeneração total. Onze páginas geniais que questionariam, inclusive, a teoria de Grampá sobre o suposto vício de Logan em dor.

Bom apetite. 🍖



[1] Rucka é de casa, não tenho nem mais superlativos para descrever o quão fã sou de sua produção; e Risso? Bom, o que dizer de meu argentino favorito? Demissão Sumária tem toda pinta e pompa de um interlúdio de 100 Balas, só que não.

[2] Tangled Web rendeu vinte e duas edições e tinha como proposta a veiculação de enredos fechados do universo aracnídeo por autores consagrados como, por exemplo, Brian Azzarello, Bruce Jones, Darwyn Cooke, Garth Ennis, Paul Pope, Peter Milligan, etc. Logo mais, certamente traremos outros para que possam degustá-los.