Mostrando postagens com marcador Norm Breyfogle. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Norm Breyfogle. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

DA LAMA AO CAOS

"[...] de que não somos amados; de que o objeto de nossa afeição é frio e infiel... Por quê? Por que nunca vemos a traição nos olhos delas até ela ficar cara a cara conosco? Eu entendi tudo. Eles se viam desde o princípio. Provavelmente, planejaram o incêndio no museu de cera para me tirar do caminho. Quantas vezes? Quantas vezes ele subiu sorrateiro estas escadas do setor de livros e papelaria, passando pelo de acessórios de jardinagem até chegar ao departamento de roupas femininas? Quantas vezes ela tolerou meus beijos com desdém e escárnio, o tempo todo aguardando pelo sinal no céu que a avisaria de sua chegada? Quantas vezes? Sendo bem franco, isso não me importava mais. Eu não me importava mais quantas vezes, quantos homens e com que freqüência. Eu não me importava mais com números. Só havia um pensamento em minha mente, uma inabalável determinação: NUNCA MAIS."

***

Essa passagem pertence à história Barro Mortal, com roteiro de Alan Moore e arte de George Freeman, publicada em Batman Anual nº 11, de julho de 1987. Aqui no Brasil, foi lançada em fevereiro de 1988 pela Editora Abril, dentro da 6ª edição da segunda série mensal do Batman. Esse conto só voltaria a ser republicado quase vinte anos depois, em 2006, dessa vez pela Panini, dentro do encadernado Grandes Clássicos DC nº 9, dedicado integralmente ao barbudo. Fora de catálogo há um bom tempo, esse encadernado ganhou uma versão de luxo, trazendo novamente essa história em 2022; mas antes disso, também integrou a A Saga do Batman nº 1 em 2021.

O monólogo é de Preston Payne, o terceiro personagem da galeria de vilões do Batman a usar a alcunha Cara de Barro. Nela, ele está há alguns meses vivendo escondido em um shopping center, alimentando um insólito romance com um manequim que chama de Helena. Em algum momento, Payne começa a imaginar que está sendo traído e passa a acreditar que o Ricardão é o Batman. Trata-se de um singelo tratado de amor e ciúme, e a loucura que pode preencher as duas coisas.

Nas linhas a seguir, além de Barro Mortal, iremos ao encontro do arco Quadra de Lama, que desenvolveria posteriormente a condição de Preston Payne e o reuniria com os demais Caras de Barro.

***

A primeira vez que encarei Barro Mortal foi justamente via republicação, em Grandes Clássicos DC nº 9. Uma curiosidade sobre a produção desse conto é que Alan Moore o escreveu após concluir o roteiro de A Piada Mortal, mas acabou que, provavelmente por conta do nível de sofisticação da arte do Brian Bolland, Barro Mortal acabou saindo bem antes, em julho de 1987; enquanto que Piada Mortal só viria à luz um ano depois, em julho de 1988. Como toda boa história, ela é atemporal. Se você estiver lendo esse texto daqui a cinco, dez anos ou mais, e tiver curiosidade sobre esse conto, vai lê-lo e ainda se deliciar com a delicada ironia presente aqui.

Pensando bem, pode-se dizer que esse tipo de HQ de super-herói anda em falta. Por que afirmo isso? Porque, hoje, via de regra, existe um excesso de protagonismo do personagem-título e, muito raramente, o leitor se depara com algo em que quem dita as ações no recordatório não sejam o próprio dono da revista; nesse caso, o Batman.

Vou até mais longe: a beleza de uma boa história do Batman está na condução de uma narrativa, talvez onisciente, mas que não sabe ou passe exatamente a ideia do que ele está pensando naquele momento. Algo que, na minha opinião, reforça o mistério sobre o personagem. O que tem para hoje, porém, tem sido um Batman nu. Um Batman transparente, que fala sobre suas angústias, suas paixões, sobre seus medos. Chora. Ele abraça. Abraça demais, e isso é tudo o que não aprecio no Batman contemporâneo.

E, veja só, num simples quadro aqui, o vemos estendendo a mão para o Cara de Barro, explorando, sem qualquer afetação, a compaixão como algo natural no herói. Então, é com muita alegria e tristeza que revisito Barro Mortal. Alegria, por reencontrar esse quadrinho excepcional. Tristeza, pela percepção de que as chances de voltar a topar com algo assim são bem remotas.

Do line-up da Saga do Batman inaugural, sem dúvida alguma, a melhor história é essa do Alan Moore com o Cara de Barro. Melhor, porém deslocada. Porque faria mais sentido segurar um pouquinho a mão e a relançar junto de Quadra de Lama, que sai originalmente entre Detective Comics nº 604-607 (1989); e no nosso Saga, dentro do Volume 13 (2022). Voltando um pouco a fita, esse arco de Alan Grant e Norm Breyfogle foi o destaque das edições nº 8-9 da 3ª série mensal do Batman pela Abril. Curiosamente, esses dois números saem sem um delay tão grande, que era a regra para época; precisamente entre setembro e outubro de 1990[1].

O que desde já fica bem claro, é que Grant procurou se inteirar sobre cada uma das quatro encarnações dessa alcunha vilanesca, mostrando uma aptidão pela pesquisa histórica que viria após aquele “Ano Vertigo”, dada a obrigação de, doravante, estar a par com as minúcias da cronologia do Universo DC[2]. Então, me parece seguro imaginar que o escritor passou os olhos no gibi do seu conterrâneo britânico e percebeu que havia ali uma deixa clamando por um desenvolvimento posterior, tanto é que o começo de Quadra já parte da premissa que Preston Payne está preso no Arkham, em companhia da manequim Helena.

-------------------

Karlo &

Hagen &

Payne &

Fuller.

O Cara de Barro original surgiu no princípio de Batman, na Era de Ouro, em Detective Comics nº 40 (1940); com roteiro de Bill Finger e arte de Bob Kane. Isto é, treze edições depois da estreia no nº 27. No Brasil, foi chamado inicialmente de o “Cara Suja”. Na realidade, ele era só um ator de filmes B chamado Basil Karlo, que se revolta ao descobrir que o estúdio faria um remake de seu maior clássico e acaba assassinando alguns atores da produção. O Batman entra em cena, justamente porque uma das atrizes da produção era Julie Madison, um dos primeiros interesses amorosos de Bruce Wayne.

Ao ser capturado, percebe-se que Karlo não passa de um homem com maquiagem grotesca simulando barro. Sua soltura só se daria em Quadra de Lama; editorialmente falando, foram quase 50 anos de cárcere! Na história de Grant e Breyfogle, parte dele a iniciativa de reunir os seus sucessores numa vendetta contra Batman, contudo, com uma agenda própria. Na recém-lançada série animada, Cruzado Encapuzado, ambientada nos anos 1940, Karlo é retratado como um ator que deseja melhorar sua aparência e se submete à fórmula experimental de um cientista. O resultado não é o desejado, mas lhe confere a capacidade de emular os rostos alheios.

Matt Hagen foi o Cara de Barro II e, provavelmente, o mais conhecido. Também criado por Bill Finger, mas com arte do Sheldon Modoff, seu debute se deu em Detective Comics nº 298 (1961). Trata-se de um caçador de tesouros que encontra uma caverna cujo interior havia uma piscina radioativa de protoplasma. Ao se banhar acidentalmente nesse lamaçal, ele desenvolve poderes transmorfos, superforça e invulnerabilidade. Todos, porém, temporários, o que o impunha voltar à câmara secreta para mais banhos. Em Lendas do Cavaleiro das Trevas nº 89-90 (1996), Alan Grant e Enrique Alcatena se juntam para dar novas camadas a essa origem.

Chamada simplesmente de Barro - inédita no Brasil -, a história tem lugar nas três primeiras semanas de Bruce como Batman. É explicado que Hagen acha a tal caverna ao fugir dos capangas do Chefe Xylas, o qual tinha passado a perna num roubo de diamantes. Lisa, sua namorada, ficou para trás e, eventualmente, ele vira o Cara de Barro e a liberta dos homens que a ameaçavam. Batman o vê destroçando os bandidos e tenta intervir. Não dá muito certo. Nada certo. Grant vende a ideia que foi nesse encontro que Batman descobriu da pior forma a existência de metahumanos. A experiência foi tão traumática que, ao se recuperar dos ferimentos, Bruce pede para atualizar seu testamento; fora a crise de insegurança que lhe acomete nos dias seguintes. Ao superá-la, ao domar o próprio medo, não importa a ameaça, humana ou super-humana, ele daria conta, controlaria o mundo. 

Todavia, o momento mais desconcertante de Barro é quando Lisa - a única outra pessoa que conhece a localização da piscina -, se vê exaurida com a mudança de Hagen, e pede para acabar o relacionamento. Eles se despedem num último abraço; para ela, literalmente. Já o namorado lamacento, se despediria, ou melhor, seria uma das vítimas da Crise nas Infinitas Terras. Inclusive, a participação em Quadra de Lama é mínima, numa tentativa em vão de usar os "restos mortais" para restaurá-lo.

Recapitulando: O Cara de Barro já foi um artista e um aventureiro. O próximo seria um cientista. Preston Payne era um pesquisador que sofria de acromegalia com hiperpituitarismo crônico. O tal gigantismo. Por conta de sua aparência, Payne tinha sido uma criança complexada, sem amigos e com Q.I. de gênio. Quando adulto, ele se emprega nos laboratórios DELTA e se especializa em doenças hormonais. Em algum momento, ele se interessa pela condição de Hagen e o visita na prisão, coletando uma amostra de seu sangue.

No laboratório, consegue isolar uma enzima que quando injetada no sangue tornava seus tecidos maleáveis. Dá tudo errado e aí ele não conseguia mais se manter sólido; para não derreter, projeta um traje de contenção similar ao do Senhor Frio. Mas o principal problema era que, o toque dele reduzia outras pessoas a protoplasma. Daí para sobreviver, periodicamente, ele tinha que liberar esse poder sobre outras pessoas. Daí a culpa de ter que fazer isso periodicamente acaba deixando-o louco; como vemos em Barro Mortal.

A Cara de Barro, ou Dama de Barro, chama-se Sondra Fuller. Criação de Mike W. Barr e Jim Aparo em The Outsiders/Renegados nº 21, igualmente inédita por aqui. Aliás, essa série funcionava como um Volume 2 de Batman and The Outsiders e, infelizmente, nenhuma das 28 edições foi lançada pela Abril na época que a editora cuidava da DC. Cá entre nós, seria um "Saga" que eu certamente pegaria se rolasse. E no caso de nossa Sondra Fuller, como Renegados nº 21 nunca saiu, a primeira aparição dela para o leitor BR acabou sendo mesmo em Quadra de Lama.

Fuller era uma agente da organização Kobra, que aceita se submeter a um processo para ganhar os poderes de Matt Hagen, sendo que a transformação dela era irreversível. E ainda tinha o trunfo de mimetizar os poderes de algum super-humano que ela assumisse a forma. É revelado, inclusive, que a vilã topa se submeter a isso pela baixa autoestima, por se achar muito feia. Então, passa a usar a imagem de atrizes e celebridades até um ponto que fica depressiva por não poder ser mais ela mesma. E como visto em Quadra, são as visitas dela a Basil Karlo na prisão que idealizam a reunião dos Caras de Barro.

-------------------

Na realidade, todos são ludibriados e explorados por Karlo numa busca por poder, que o faz mesclar as amostras de sangue de Payne e Fuller, injetando o composto como um o soro em suas próprias veias. O resultado é uma abominação que se autodenomina de Cara de Barro Supremo. E, ainda que traídos, os Caras de Barro III e IV acabam se engraçando e formando um casal, com um final (divertidamente) antecipado para o par, deixando para que o Batman e a Divina (dos Renegados) deem conta do Supremo. No clímax, Karlo chega a extrapolar tanto o poder originário de Payne, que ele acaba derretendo o chão e atravessando indefinidamente a crosta terrestre.

Dali então, ele jamais voltaria a ser visto a não ser em Terra de Ninguém, no Robinson Park, tentando dominar Hera Venenosa; só para perceber que não podia lidar com a fração do Verde que ela detinha. Ironicamente, Karlo é transformado em solo para o cultivo de alimentos para que Batman pudesse distribuir aos desabrigados. Para fins de registro, a edição em questão era a Detective Comics nº 735 (1999), com Greg Rucka e Dan Jurgens.

Quanto a Payne & Fuller, eles passam a viver afastados da sociedade e até concebem um filhinho e o batizam de Cassius... O que é uma bela ironia do escritor escocês. Porque se você acrescenta "Clay" de Clay Face, que é o nome inglês de "Cara de Barro", temos o nome "Cassius Clay". Isto é, o nome de batismo do boxeador Muhammad Ali. Mas no Brasil da Editora Abril, acredite, chamaram o bebê de "João de Barro". Dá até para extrapolar mais nessa brincadeira dos sobrenomes, porque "Payne" deriva de "pain" ou dor; "Fuller" detona algo "mais completo" e, paradoxalmente, tudo o que Sondra não é, é uma pessoa dona de si... completa. Nesse ponto, Grant acaba extrapolando a ideia inicial de Moore, brincando sadicamente com pessoas quebradas, entrando de cabeça - até de manequim - em relações abusivas.

A família Payne levava sua vidinha (quase) bucólica até que o assassino Matadouro - na época do Batman Azrael -, está passando pela área deles e sequestra o menininho enquanto os pais tinham saído para uma caminhada. Desesperados, eles precisam voltar a Gotham para reaver Cassius, porém, topam com Jean Paul-Valley e o casal acaba na custódia dos Laboratórios S.T.A.R. Tudo isso acontece em The Shadow of the Bat nº 26-27 (1994), com Alan Grant e Bret Blevins. Bem mais tarde, em Batman nº 550 (1998), de Doug Moench e Kelley Jones, descobriríamos que, diferente dos genitores, o filho - ou o Cara de Barro V - foi parar no DOE, o Departamento de Operações Extranormais.

***

Em meados de 2023, enquanto começava a fazer essas releituras, eu fazia anotações e crescia uma vontade irresistível de produzir uma série de podcasts em torno dessa temática. O desafio seria imenso, porque realmente gostaria de conduzir papos sobre o run de Grant; que é, inegavelmente, meu escritor quiróptero favorito. Só que a (minha) realidade me fez recobrar o juízo, mas não antes de gravar um programa órfão:

Download audio 

Nele, Reginaldo Yeoman e Marcelo Miranda - com o Do Vale nas vinhetas - se juntaram a mim numa conversa que se debruçou em alguns pontos desse texto. Esse "Detetive Cast" - como chamo Os Escapistas dedicados ao morcego - não constará no feed oficial e foi desmembrado em duas partes. Uma sobre Quadra de Lama, disponível acima para download ou ouvir aqui mesmo; e a outra sobre Tulpa, com O Demônio de Jack Kirby, a ser publicado no nosso próximo resgate psíquico. 😈 

*** 

Links Afiliados


[1] Uma coisa que me chamava a atenção na publicação da Abril eram as fichas no final, detalhando os aspectos técnicos e a origem de cada Cara de Barro.

[2] E isso não foi à toa. Com o sucesso em Detective Comics, não demorou e Alan Grant passou a encabeçar outros trabalhos paralelos. Dentre eles, passou a dividir os créditos com outros escritores e artistas por cerca de quarenta edições de L.E.G.I.O.N (1989), também quarenta em The Demon (1990) e sessenta e cinco em Lobo (1993).

sexta-feira, 26 de julho de 2024

O BATMAN DA VERTIGO

Em 20 de julho último, se estivesse vivo, o roteirista Alan Grant teria completado 75 anos de idade. Celebrar aniversário de defunto nunca fez qualquer sentido para mim, mas é bem verdade que, às vezes, a lembrança do natalício de um notável é um belo jeito de chamar a atenção para a obra de um(a) mestre(a) morto(a). Diabo, até morrer pode ser um requisito para fazer sucesso na posteridade ou ressuscitar o interesse pela obra de um(a) mestre(a) até então vivo(a).[1]

Tanto serviu que decidi finalizar uma continuação daquele texto sobre o Ventríloquo/Scarface, rascunhado, porém em bat-banho-maria.

***

Como dizia naquele dia, após vários saltos – ou cortes, fique à vontade para escolher o seu veneno – a estreia do trio Alan Grant, John Wagner e Norm Breyfogle no Brasil só se deu a partir da Detective Comics nº 590, que, reiterando, trazia consigo a famigerada capa com a silhueta do Batman de costas, olhando para o relógio Big Ben, na torre do Palácio de Westminster, a sede do Parlamento Britânico em Londres.

Essa capa, curiosamente, foi aproveitada pela Editora Abril no encadernado formatinho das Dez Noites da Besta, que, por sinal, não tinha nada a ver com a história original do Alan Grant, que era simplesmente uma viagem do Batman à Inglaterra para caçar um líder terrorista que havia assumido a autoria de um atentado em Gotham. Dois detalhes: primeiro, o Batman chega a Londres no 5 de novembro e, por todo canto, há aquela malhação do Judas deles, com bonecos do Guy Fawkes. O segundo detalhe é o título da história: “Um Morcego Americano em Londres”, que acaba sendo um trocadilho com o filme “Um Lobisomem Americano em Londres”. Na versão Panini, ficou “Um Batman Americano em Londres”, abandonando a trucagem e o gingado da rima com o clássico do cinema de horror.

Se puxar na memória, décadas depois, o Frank Miller, no calor do 11 de setembro, queria lançar pela DC uma história assim, e isso acabou saindo como um projeto autoral dele, com um análogo do Batman, bem polêmico e bem execrado pela crítica. Não precisa dizer que eu prefiro dez mil vezes mais o discurso do Alan Grant, que não poupa críticas à postura dos Estados Unidos, num período em que estávamos ainda a mais de uma década de distância da tragédia das torres gêmeas.

Em certo momento, o terrorista Abu Hassan, que estava sendo caçado pelo Batman, até solta essa provocação:

Enquanto o Abu Hassan fala tudo isso, ele está todo arrebentado, com o sangue escorrendo pelo rosto, com o Batman segurando pela gola, entremeado com imagens de crianças famintas, bem raquíticas... e aí, pouco a pouco, Bruce vai hesitando, e antes com um punho fechado, apontado para o rosto do Hassan, você vai percebendo que a mão dele vai se abrindo e os olhos saindo da expressão de fúria para de tristeza. É bem sutil e, isso no fim da história, segue lhe atormentando:

--------------

Arrumando a casa: A Abril começou a publicar a Detective Comics da nova equipe criativa com um déficit de sete edições inéditas, ou seja, ignora as sete anteriores e segue dessa historinha do terrorista (nº 590) em diante. Precisamente, em Batman nº 2ª (março/1990) da até então (inédita) série mensal em formato americano.

Mas aí, o que ocorre de significativo nas Detective anteriores? Já falamos sobre as nº 583-584 de Ventríloquo/Scarface; nas nº 585-586, somos apresentados a Otis Flannegan, um ex-exterminador de pragas do Departamento de Saneamento de Gotham. Numa briga de rua, ele acabou esfaqueando o outro agressor, que acabou morrendo. No julgamento, ele alega legítima defesa, tendo em vista que o homem o atacou sem motivo, zombando do cheiro de esgoto em Otis. Mas no fim, ele é condenado por assassinato.

Ele cumpre sua pena, e quando sai, captura o sargento de polícia que o prendeu na noite da briga e deu o testemunho que foi fundamental para sua condenação; ele aprisiona também o Juiz do caso e o diretor da penitenciária. Os três passam os próximos três anos em jaulas no esgoto, sem higiene pessoal e comendo ratos mortos, dados pelo próprio Otis. Nesse meio tempo, descobrimos que o nosso “Caça-Ratos” consegue adestrá-los e controlá-los com um apito especial.

No começo, um desses três prisioneiros foge, mas é morto por uma ninhada de ratos, e isso desperta a atenção de Batman e de Gordon, já que o defunto era um Juiz que havia desaparecido sem deixar pistas. É uma história impactante. O Caça-Ratos não tem nada a ver com aquela versão leve do Taika Waititi no filme do Esquadrão Suicida de James Gunn. Na realidade, o homem é um sádico, ainda que tenha indícios que, sim, aquele assassinato foi legítima defesa e ele tenha sofrido abusos na penitenciária.

De curiosidade, a capa da Detective nº 586 foi a primeira que o Norm Breyfogle fez para um gibi do Batman; e, vale dizer, é incrível, com o Caça-Ratos no primeiro plano, segurando uma lanterna, entrecortado em sombras, com os olhinhos de dezenas de ratos e o Batman no chão, nocauteado sob uma poça no esgoto.

--------------

Na edição seguinte, tenho a leve impressão que o artista decidiu que ninguém jamais voltaria a fazer a capa de um gibi dele, porque no nº 587, ele entrega nada mais, nada menos que uma de suas artes mais icônicas; que é a do personagem num beco escuro, com a silhueta frontal bem no alto da página, em meio à chuva e trovões. Mesmo sem publicar a referida história, a Abril acabou usando a capa em Armageddon 2001 nº 3; que especulava um futuro onde Batman poderia se deparar com uma situação limítrofe e, supostamente, se tornaria o vilão Monarca. Mas, obviamente, isso não aconteceu.

Seguindo em frente, entre Detective nº 587-589 se desenvolve o arco O Povo da Noite. E se você já estava começando a sentir que Alan Grant, a cada edição, está esticando mais e mais a corda, aqui nesses três números, o que está sendo testado são os limites do que o (editor) Dennis O’Neil estaria disposto a publicar. São vários núcleos orbitando juntos, com um Batman que só parece ser um mero detalhe na história. Um DJ de rádio, porém, une todas as tribos tocando clássicos do rock, e a cada trilha, ele comenta trechos das letras ou as próprias canções interagem com a cena; como a do grupo de mendigos, com a sugestiva Trash do New York Dolls. 

E eis que ocorre um assassinato no beco onde moram. Um deles, o "Perneta", revolta-se com o suposto descaso do Batman em encontrar o matador:

Percebe que isso é outra crítica velada ao personagem e, a preço de hoje, tem muita gente por aí que realmente pensa desse jeito?! Que o Batman é um super-herói das elites. É um ponto para se refletir, e voltarmos a esse raciocínio mais à frente em outro texto. Talvez na história do Anarquista, que tal?

Ainda sobre o Povo da Noite, paralelamente, um homem chamado Derek Mitchell, sentenciado à prisão perpétua, fugiu da cadeia e quer acertar as contas com o criminoso que o delatou. Esse delator, metido a técnico de efeitos especiais de cinema, na verdade, foi quem encomendou a morte daquele mendigo, pensando ser Dalton Walls, um milionário excêntrico que vivia entre os desabrigados. Então, o delator/ilusionista/assassino/aproveitador se autointitulava de "Sr. Kadáver" e estava mexendo os pauzinhos para ficar com parte da fortuna daquele ricaço. Batman só entra nessa salada porque está perseguindo uns traficantes, e aí topa com o fugitivo (Mitchell), que acaba sofrendo um acidente com resíduos químicos, que o transformam no Homem-Corrosivo; tal qual Derek Powers em Batman Beyond, lembra?

Olha, é uma loucura. O Alan Grant deve ter pensado que, se o Dennis O’Neil lhe deixasse publicar isso, ele poderia fazer qualquer coisa. E essa história que, como vocês devem ter percebido, tem tudo a ver com sincronicidade, fecha com o DJ da rádio, que a gente descobre que estava drogado, acaba atropelando e matando o próprio traficante que o Batman vinha perseguindo no começo da noite.

***

Aí, vejam só, se Detective nº 590 da viagem a Londres saiu na 2ª edição da Abril, o nº 591 só veio a dar o ar da graça no nº 13 do título nacional. Tem quem se irrite retroativamente com isso. Eu, por outro lado, fiz as pazes com o demônio da tesoura e, hoje em dia, me divirto com aquelas indiscrições. Sobre o enredo de Detective nº 591, diz respeito a um aborígene vingativo, que caça um milionário que se apossou de uma relíquia de seu povo e a quer de volta. É a segunda vez que o Alan Grant destila seu discurso corrosivo sobre a nata da sociedade gothamita; e, volto a dizer, será uma constante. Essa edição saiu em Saga do Batman nº 8 (Panini/2021), assim como as Detectives nº 592-593, e aí meus amigos, essas é que são realmente de embrulhar o estômago.

Elas trazem um arco com o serial killer Cornelius Stirk. De cara, o Cornelius, que tem uma característica transmorfa, parecida com o indutor de imagens do Noturno, descarta um corpo na mala de um táxi usando a imagem de Jesus Cristo para uma criança que vê isso acontecendo. Fora que ele é um canibal, então veja só o (sub)nível da coisa. Durante a história, descobrimos que ele teve alta do Arkham e deveria tomar um remédio para regular um desequilíbrio químico. Só que, como ocorre com muitos pacientes psiquiátricos problemáticos, deliberadamente deixa de tomar o seu remédio e percebe que, usando o seu dom, quando ele aterroriza as pessoas, elas liberam uma substância que, quando mortas, o coração fica com um aditivo dessa descarga de pavor que o ajuda suprir suas necessidades.

--------------

Nem Preacher, de Ennis & Dillon, no auge de sua esbórnia herética, mandou uma dessas.

--------------

Off-topic, mas nem tanto: 

Acho bem curioso que o aspecto real de Cornelius lembra muito o semblante aterrorizante do John Dee em Sandman. Fora toda a retórica subversiva dele(s). O negócio é tão pesado que o Batman rastreia e encontra a casa dele, mas Cornelius não está, mas no fogão há uma panela com cozido de coração humano.

E sabe o que é interessante? É que a abordagem do Cornelius para as vítimas e esse lance do canibalismo lembra também o modus operandi do Jeffrey Dahmer, só que aí está o ponto... Esses edições de Detective saíram nos Estados Unidos em novembro e dezembro de 1988. O Dahmer só foi preso em 1991. Mesmo a versão do John Dee que Neil Gaiman trabalha só aparece em meados de 1989. Esse é o meu ponto: temos aqui um Alan Grant produzindo gibi Vertigo antes de existir um gibi Vertigo.

A história do Cornelius Stirk não acaba aí. Anos depois, o serial killer volta a aparecer em A Sombra do Batman (The Shadow of the Bat); e sobre essa (nova) mensal, um parêntese: Alan Grant foi o roteirista titular da edição nº 1 até a 82, sem pausa, sem escritor convidado nem nada. Isso mesmo. 82 edições! Sem falar da quantidade enorme de especiais paralelos. Eu ouso dizer que no mercado americano, tanto na DC quanto na Marvel, não existe hoje mais ninguém escrevendo gibi de massa nesse nível e nessa regularidade. Nos quadrinhos do Batman, cravo que não, talvez nem no seu próprio tempo, ainda mais quando vemos um Dennis O'Neil - numa notinha em Amazing Heroes nº 133/1988 - entusiasmado com o que a nova equipe criativa estava lhe entregando: "Wagner e Grant realmente têm imaginações macabras. [...] O material deles é horripilante... não é para os fracos de estômago ou coração! ".

Voltando ao Cornelius, seu retorno se dá nos nº 46 e 47 de A Sombra do Morcego, e aqui no Brasil, na edição nº 15 de Batman Vigilantes de Gotham (Abril/1998). Curiosamente, àquela altura, era a estreia desse vilão, já que a Abril não havia publicado a história anterior em Detective, mas para ser honesto, o escritor faz um recordatório tão bem feito que se chega a pensar que mesmo é a primeira aparição do vilão.

Nesse caso, o Cornelius está sendo entrevistado por um escritor de livros sobre serial killers, ludibria todo mundo e foge do Arkham. Na noite da fuga, está ocorrendo a festa da vitória da nova prefeita de Gotham. E ele quer justamente comer o coração dessa prefeita. História muito boa, a arte não é do Breyfogle. É também de outro finado que deixa saudades, o John Paul Leon, que volta e meia colaborava nessa revista, mas nesse tempo, se me dissessem que era do Mike Mignola, eu caía que nem um pato. Sem exagero, era idêntico. E muito bom, só para constar.

--------------

A Detective nº 594 era inédita também e traz consigo um operador da bolsa que está drogado, ouvindo vozes e com três bananas de dinamite. Ele procura três alvos que estão envolvidos com drogas. Pode ser traficantes, usuários e até os próprios colegas de trabalho dele, que lhe repassaram os comprimidos. Nessa história, também aparece um detetive particular, criação de Grant & Breyfogle, o Joe Batata (Joe Potato). O homem é um velho corpulento, cujo rosto lembra mesmo uma batata. Na trama, um contratante anônimo estava pagando dez mil dólares para que ele capturasse o operador da bolsa drogado, sem atrair a atenção da polícia. Tal como Cornelius, Batata também volta mais tarde para outras participações em histórias futuras de Alan Grant.

Já o nº 595 saiu no Brasil, mas nem conta muito porque era para cumprir protocolo por ser tie-in da saga Invasão. Aí, meus amigos, vejam só maluquice do Alan Grant: os nº 596-597, inéditas por aqui, eram uma história em duas partes em que o Batman investigava uma rede clandestina que produzia snuff movies, vídeos de tortura e sadismo, para exibições privadas na elite da cidade. Na segunda parte, o Batman até chega a ser espancado e filmado para esses espectadores. A arte fica por conta do uruguaio Eduardo Barreto; inclusive, por ter uma carga mais sombria e realística do que o surrealismo habitual do Breyfogle, eu acho que acaba sendo muito mais apropriada para a história.

Há uma crítica social muito arrojada nessa história, porque o roteiro se pega na contradição de que o Batman é uma criatura de violência; e, segundo o Alfred, numa tirada bem ácida, o Bruce nutriria, sim, um certo prazer com isso. E o próprio ato de existirem pessoas que querem pagar para ver uma violência também resvala nos leitores, que pagam o gibi, claro, para ler uma boa história, mas não deixa de ser histórias com um ímpeto violento. Vamos dizer, é quase uma crítica social em abismo.

***

Até aqui foram treze edições inéditas. Elas saíram compiladas entre Saga do Batman nº 5-9. Creio que todo mundo que, em algum momento, notou essa lacuna tentou descobrir por que a Abril fez isso. Sigo nessa corrente que foi o teor "adulto" das histórias - ou mais maduro, vai? -, quase como se tivessem sido produzidas para uma Vertigo extraoficial. Por outro lado, não consigo visualizar o editorial da Abril sendo tão sensível, mas, quem sabe, alguém lá ponderou que essa truculência britânica talvez demorasse ainda um pouco para ser normatizada pelo leitor brasileiro, como um gosto adquirido. 

Fato é que esse ano "Vertigo" de Detective Comics saiu também da caixinha ao não aproveitar nenhum dos vilões da galeria tradicional do Batman. E isso tem uma explicação. Num trecho de uma entrevista a dois, de Grant e Breyfogle em 2007, no (agora desativado) blog 20th Century Danny Boy, eu consegui recuperar esse trechinho: 

Grant: Do meu ponto de vista, isso se devia principalmente ao fato de eu não ter lido nenhum Batman desde o fim da temporada de Denny O'Neil. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo. Eu não tinha ideia se os outros vilões como o Coringa ou o Pinguim estavam sendo usados no Batman. Portanto, era mais fácil criar novos [vilões] do que passar por todo o trabalho de descobrir o que estava acontecendo com os antigos. Não foi até eu acho que depois de talvez um ano de Norm e eu trabalhando em Detective que os leitores começaram a escrever e perguntar: 'Por que não estamos vendo esses caras aqui?', como o Coringa, o Pinguim, o Espantalho e começamos a fazê-los.

Breyfogle: Francamente, lembro de ter ficado um pouco desapontado no início porque queria desenhar os vilões clássicos do Batman. Eu cresci com eles e era isso que queria desenhar, mas agora, olhando para trás, estou muito feliz por termos criado todos esses personagens. Na verdade, devo dizer que os considero suas criações.

Grant: Não, não. Qualquer coisa que um escritor e um artista façam juntos é uma cocriação. Absolutamente.

Breyfogle: Direi que sou parcialmente o criador, claro, mas a gênese, a semente dos personagens veio de você. [Sobre o visual] Geralmente, Alan dava muito pouca informação sobre a aparência deles e eu me sentiria da mesma forma se estivesse escrevendo um personagem para outro artista desenhar. É a mesma coisa que sinto ao dar instruções de cores aos coloristas. Quer dizer, uma vez que você começa com as sugestões, tudo está inter-relacionado e não há onde parar. Eu sei que uma imagem vale mais que mil palavras e, a menos que você tenha uma imagem realmente clara em sua mente do que deseja, não daria notas específicas a um profissional mais adiante. Porque se [o script] for bom, você fará bem o seu trabalho de qualquer maneira e, se [o script] não for [bom], nenhuma palavra servirá para aumentar suas habilidades no lápis.
 

***

Quantos bons quadrinhos do passado foram produzidos num mix de oportunidade, improviso e genialidade? Porque o que esses dois fizeram se encaixa perfeitamente nessa trinca. 

***

Links Afiliados:


[1] Herman Melville, por exemplo, morreu antes de ver o sucesso que seu livro mais importante, Moby Dick, alcançaria algum tempo depois. Já Elza Soares, falecida em 2022, trouxe um foco adicional à discografia e gravações inéditas, promovendo um debate sobre os direitos autorais e o uso póstumo de suas criações.

quarta-feira, 27 de março de 2024

UM PSICODRAMA

Se você consultar o significado da palavra “psicodrama”, vai encontrar por aí que se trata de uma abordagem terapêutica que explora técnicas teatrais de dramatização. Seria como se o indivíduo, por vezes, paciente de psiquiatras ou psicólogos, fosse o protagonista no centro de um palco. Então, no psicodrama o sujeito revive/recria cenas vivenciadas para que numa eventualidade futura tenha à disposição ferramentas emocionais para lidar com situações problemáticas.

Esse conceito soa como algo moderno e sofisticado, mas a verdade é que o psicodrama já tem quase um século que foi criado pelo romeno Jacob Levy Moreno. Como era médico, filósofo e tinha um fascínio por teatro, ele acabou fazendo um bem bolado das três coisas e tornou-se o primeiro psicodramatista. Hoje é bem corriqueiro ver por aí essa metodologia sendo aplicada dentro de empresas, escolas, workshops e processos seletivos.

(Um) Psicodrama (2001) é também o título de uma historinha do Batman escrita por Alan Grant e desenhada por Charles Adlard,o grande artista por trás de The Walking Dead. Na realidade, o título original acabou sendo preterido pela Mythos Editora em favor de A Maldição de Scarface, publicada em 2002. Nela, Arnold Wesker, o Ventríloquo, se submete a uma sessão de psicodrama com o Doutor Arkham e queima o boneco marionete Scarface. A ideia era sepultar o lado sombrio do interno com aquele ato e neutralizar a personalidade homicida do pequeno mafioso de madeira.

Se isso vai dar certo ou não, é só um mero detalhe sobre o que eu quero abordar no texto de hoje. Para tanto, vamos começar rebobinando um pouco a fita, de 2001 para o comecinho de 1988.

***

O trio que sempre foi uma dupla.

A revista Detective Comics vinha mal das pernas. Nesse tempo, o ponto de equilíbrio financeiro de um gibi mensal costumava ser uma vendagem de oitenta mil edições. Um número que nos causa espanto, já que, hoje, ele representaria justo o inverso, catapultando o título para o ranking de mais vendidos nos EUA. Lembrando, claro, que na década de 1980, os quadrinhos ainda não eram vendidos exclusivamente em comic shops e o preço de capa era em torno de $ 0,75. Então, para não dar prejuízo, uma revista tinha que render ao menos sessenta mil dólares aos cofres da DC Comics. Era o limite da degola.

E aí, ali em 1988, a Detective Comics estava no vermelho, com uma vendagem de cerca de setenta e cinco mil edições por mês. Para melhorar as cifras da revista, a solução que o editor Dennis O’Neil chegou foi a mesma que já vinha dando certo dentro da editora: trazer gente de fora dos Estados Unidos[1], com novas ideias e liberdade criativa total. Nesse caso, porém, havia um certo ineditismo, visto que era a primeira vez que um personagem de Série A era transferido aos cuidados de um comando técnico estrangeiro. Logo, a bola da vez recaiu na dupla John Wagner e Alan Grant.

À época, os dois tinham a mesma idade (39) e vinham ganhando uma reputação na 2000 AD, especialmente com o Juiz Dredd, que era criação do Wagner. Não obstante, naqueles onze anos de publicação do personagem, Grant havia colaborado com muitas histórias; daí a parceria deles. De partida, a proposta de O’Neil era que eles fizessem um ano de histórias e depois sentassem juntos para analisar se continuariam a parceria. Wagner estava empolgado com a ideia dos royalties sobre as vendas; porque isso era um conceito mercadológico que não existia na Inglaterra. Quer dizer, não tinha esse romantismo de escrever histórias do Batman, o lance era meramente profissional e estritamente financeiro.

Para compor a equipe artística, eles teriam a arte do novato e autodidata Norm Breyfogle, de 28 anos. Para ser justo, o desenhista já havia trabalhado em três histórias do Batman, antes que os ingleses assumissem os roteiros. A primeira em um back-up dentro de Batman Annual nº 11, edição que ficou marcada pelo conto de Alan Moore com o Cara-de-Barro, muito embora a historinha de Max Allan Collins também tivesse seus momentos. Nela, o Pinguim era um ex-presidiário vivendo um romance com uma mulher que conheceu na sessão de cartas de uma revista de ornitologia.

Já a outra, Detective Comics nº 579, é um barato e traz consigo a versão pós-crise do Doutor do Crime, assinada por Mike W. Barr. Novamente focada em um ex-presidiário, dessa vez, vemos um homem desesperado, sem conseguir prover sua família, negociando o próprio coração para ser transplantado em um mafioso às portas da morte. O tal cirurgião chama-se Dr. Bradford Thorne e, vejam só, protagoniza uma bela adaptação em Batman Animated (S2E25); no qual terá que operar Rupert, o irmão gangster. Assim como no gibi, o enredo da animação também conta com a participação da Dra. Leslie Thompkins, que é coagida a auxiliar Bradford na cirurgia.

A terceira história de Breyfogle pré-Wagner/Grant, Detective Comics nº 582, tem roteiro de Jo Duffy e traz consigo um tie-in da Saga Milênio. A trama se centra em torno de um Caçador de Oa que assume a identidade de Jim Gordon, mas o que me chamou a atenção foi a revelação desse passado do Comissário como oficial da Inteligência – militar ou CIA, já que não é especificado qual agência.

***

Time completo. O agora trio começa a trabalhar em Detective Comics nº 583; que, a propósito, estampa uma belíssima capa de Mike Mignola. Nas páginas internas, o choque anafilático vem com cinismo e uma pegada seca, sem arrodeio, um Batman definitivamente “Dreddiano”. Tudo conspirava para ser uma fase inesquecível e será foi, só que, a partir da edição nº 587, a equipe criativa sofreria um grande revés.

Vamos lá... O problema, como disse acima, é que o título estava por baixo e, rapidamente, os roteiristas constatariam que os royalties só seriam dignos de notas – muitas nota$! – caso as vendas aumentassem consideravelmente. E aí, exatamente cinco edições depois da estreia, sem crer que eles receberiam os adicionais, John Wagner dá um passo em falso e sai de Detective Comics. Como o acordo firmado estabelecia que fossem roteiros a quatro mãos, Alan Grant decide encarar sozinho a produção dos textos, ainda que o compatriota não estivesse mais a bordo e tivessem a obrigação contratual de ter os nomes dos dois nos créditos da revista. Então, no papel, a “parceria” Grant e Wagner é levada adiante até o final do primeiro ano da Detective Comics.

No Brasil, até a publicação de Saga do Batman da Panini, a maioria desses números iniciais seguia inédito. Sim, a Editora Abril começa da edição nº 590 e ignora as sete anteriores (583-589); com um detalhe curioso. A capa da 590 tem aquela famosa arte de Breyfogle em que o Batman está de costas, olhando para o relógio Big Ben na torre do Palácio de Westminster, a sede do Parlamento Britânico em Londres.

No entanto, ela não foi aproveitada na edição nacional específica, onde saiu, e, sim, em um encadernado formatinho das Dez Noites da Besta; que, obviamente, não tem nada a ver com a história original do Alan Grant.

***

Normalmente, quando leio gibis velhos fico fazendo movimentos de ida e volta. Pego uns lá na frente, depois volto ao começo e, às vezes, me sinto que nem um Chuck Noland e fico parado no meio do caminho, decidindo que direção tomar. Nesse aspecto, parece bobagem, mas eu teria adorado se Saga do Batman tivesse saído seguindo rigorosamente os line-ups de The Dark Knight Detective e The Caped Crusader; o primeiro com as edições de Detective e a segunda com as de Batman.

Na prática, a Panini fez um mix, alternando os materiais de ambas num mesmo volume e sempre de olho na cronologia das duas revistas. Ok. Tudo certo, porém, no alto dos meus quarenta e poucos, acho que já posso me dar ao luxo de algumas excentricidades. Quando leio Detectives, fecho questão com o título e só lerei Detective e o mesmo com Batman. Como disse, isso sou eu complicando o descomplicado, já que se trata de uma época bem acolhedora no sentido de que as histórias eram descompromissadas, sem uma exigência de continuidade que as equipes criativas contemporâneas costumam exigir.

Claro, continuidade no sentido de histórias presas a um arco maior e complexo, contado em runs cada vez mais longos[2]. Com Alan Grant, se muito, você chega a ler uma história que se passa dentro de três ou quatro edições e vida que segue. Fora que esse pequeno arco não trará repercussões ad infinitum, te forçando a ter que voltar ao que já se passou; e se for voltar, o próprio recordatório fará um esforço mínimo e circunstancial para lhe deixar a par do que precisas saber. É assim que eu gosto que seja. É por essas e por outras que essas histórias me marcaram; dos casos à moda O’Neil/Adams, quase como se Grant/Breyfogle fossem os melhores alunos egressos daquela escola setentista.

***

Mas voltando àquelas edições iniciais do então trio, a começar por Detective Comics nº 583 (Saga do Batman nº 5), a história mostra o Batman lidando com uma nova droga que caiu no gosto dos adolescentes: a Febre e, que por acaso, é também o nome do arco.

Para ilustrar os efeitos desse narcótico que, segundo relatos, costuma dar um pico forte de euforia e fúria, vemos uns viciados queimando um gato e, logo em seguida, ateiam fogo em um guardinha de rua idoso. O Batman fica perplexo por "crianças" terem cometido tal barbárie; e aí os policiais na cena do crime revelam que essa Febre é a sensação do momento nas ruas. Em outro lugar, descobrimos que o principal distribuidor do entorpecente é um homem chamado Arnold Wesker, ou melhor, o serviçal do fantoche Scarface.

À primeira vista, trata-se de um vilão muito simples que, numa leitura mais lúdica, poderia até ser um análogo do Homem dos Brinquedos, entretanto, Grant/Wagner trabalham maneirismos que mesmerizam até mesmo o leitor. Em outros termos, você chega a ficar em dúvida se o boneco realmente tem vida e Wesker não seria, de fato, um escravo, sobretudo porque Scarface sempre está no centro do palco, tirando do interlocutor no gibi a quebra da suspensão de descrença.

Primeiro que o boneco fala trocando algumas consoantes nas palavras e isso, vamos combinar, torna-se um recurso marcante, que se sobressai a voz vacilante do Ventríloquo. E quando isso não funciona e alguém deixa isso de lado, passando a se dirigir diretamente ao Arnold, o boneco fica consternado e manda que todos voltem a olhar para ele... Porque quem manda é o Scarface, ele é o chefão. E para contrapor essa figura do Wesker, de um homem aparentemente pacato, de certa idade, temos um fantoche endiabrado.

Eis uma pequena demonstração: ao perder uma carga de Febre, ele dá ordens a um capanga obeso para buscar outra fora da cidade. Até aí nem um problema. O problema é que, em off, Scarface ordenou sua morte e quer que usem o cadáver corpulento como mula.  Para tanto, é necessária a extração dos órgãos, vísceras e gordura para arrumar os tijolinhos. É doentio. No fim, o Batman inala um pouco de Febre e solta a mão no Wesker. Na cadeia, enquanto aguarda a transferência para o Arkham, Wesker diz que quer colaborar com a justiça, o que lhe rende, dessa vez, umas belas bofetadas do Scarface.

Em 1992, quando o Alan Grant está cuidando do título Batman, num arco em três partes dentro das edições nº 475-476 e Detective Comics nº 642 (Saga do Batman nº 28), temos A Volta de Scarface. Segundo o boneco, eles foram inocentados por conta de uma tecnicalidade jurídica e agora estão tentando reaver o território que perderam para uma gangue nova. Os DemônioZ da Rua, como se intitulam, metralham o fantoche e o dão como morto, com direito a velório e sepultamento. O que mostra o grau de convencimento que o Arnold Wesker exerce sobre todos ao seu redor; até porque as balas são disparadas em direção ao construto e não ao Ventríloquo. 

No fim da história, Scarface recupera o território e consegue redirecionar o Batman e a polícia para a captura dos rivais. Como disse lá em cima, a primeira história, Febre, era inédita por aqui até Saga do Batman nº 5, mas vejam só, A Volta de Scarface chegou a sair em 1995 dentro de Batman Anual nº 4 da Editora Abril. E isso, vale dizer, já com A Queda do Morcego em curso. Então, o primeiro contato do leitor brasileiro com Ventríloquo/Scarface se deu exatamente na segunda história desses personagens.

Daí em diante, vez ou outra, o Alan Grant traz eles de volta, geralmente, num contexto em que: ou 1) os dois estão separados; ou 2) Wesker tenta se curar e acaba esbarrando no carma de Michael Corleone. Por sinal, uma das passagens mais doentias dos “dois” se dá em Queda do Morcego, quando Wesker está sem o boneco e aí improvisa um fantoche de meia. No entanto, quando o boneco mafioso é recuperado, o substituto e o original trocam farpas entre si até que um atira no outro! No último quadro, vemos Wesker inconsciente com as duas mãos estraçalhadas (Detective Comics nº 664):

Mais adiante em Filho Pródigo, quando Dick Grayson se torna momentaneamente o Batman, ele prende Wesker que, evidentemente, sobreviveu. Antes de ser preso, ele deixa um livro de ventriloquismo para Rino, seu fiel leão de chácara, aprender a cuidar do Scarface. Isso lá em Shadow of the Bat nº 32, de 1994. Essa história só teria sequência em Shadow nº 59 e 60, de 1997, ocasião em que Alan Grant resolveu revelar um trauma da infância de Wesker em torno do pássaro albatroz. É dito que na manhã que os pais foram atropelados, eles haviam acabado de ver essa ave[3].

Em paralelo, vemos Rino quebrando a cabeça para aprender ventriloquismo e dando um jeito de libertar o Wesker de Blackgate. Quando se reúnem, o Scarface quer encontrar um albatroz que foi avistado sobrevoando Gotham e fazer com que Wesker quebre seu pescoço, superando, por fim, aquele trauma. É mais ou menos um psicodrama, o que nos leva de volta à Maldição de Scarface.

***

Como disse no início, o Doutor Arkham dá uma de psicodramatista e faz com que Wesker queime Scarface para, vamos dizer, incinerar seu lado sombrio. Mas aí é que está, nas histórias anteriores, a suposição que fazíamos é que a marionete era apenas o conduíte da loucura do Ventríloquo e ele, por seu turno, era a mente criminosa por trás da dupla. Só que aqui nesse especial, Alan Grant conta a origem do fantoche e insere um componente sobrenatural nessa relação homem versus boneco: a madeira ao qual foi esculpido era amaldiçoada.

Explica-se em flashback que na prisão Black Gate havia uma forca nos arredores da penitenciaria onde 313 prisioneiros foram executados. A contagem só parou porque um raio destruiu a estrutura de madeira, deixando apenas um toquinho no chão. Dá para supor também que, em algum momento, a pena de morte foi revogada, enfim... É a lacuna do texto que nos deixa livres para especular e discutir. O fato é que, não muito tempo depois, um preso chamado Donnegan pegou aqueles restos e esculpiu um bonequinho, o qual batizou como Tronquinho. O guarda que está com ele chaga a alertá-lo que nada de bom sairia daquela matéria-prima, já que Deus tinha virado as costas para todas aquelas almas.

Mais tarde, descobrimos que o companheiro de cela de Donnegan é ninguém menos que Arnold Wesker. E aí nos momentos em que o escultor dorme, Tronquinho conversa com o seu futuro cúmplice. A princípio, o próprio Wesker acredita que aquilo é uma voz projetada e está sendo tapeado por truques de ventriloquismo. Isso escalona de um jeito que ele acaba matando Donnegan e mais dois guardas, fugindo logo em seguida. Nesse ponto, o fantoche pede para que, dali em diante, fosse chamado de Scarface.

Nada disso dá indícios ainda que exista algo de paranormal naquela relação. Isso só viria à tona a partir daquela sessão de psicodrama, quando o boneco fora queimado. Ou melhor, logo após, quando a pira vira e o boneco cai no despenhadeiro rumo ao mar. Lá embaixo, dois amigos estão pescando e confundem Scarface com um bebê se afogando; quando um deles vai tentar salvá-la, ele dá um escorregão, bate a cabeça numa pedra e morre:

No outro dia, um menino que sofre bullying na escola e está ali na praia com os pais, acha o boneco e decide ficar com ele. Da mesma forma que o pescador morto, Scarface vai trazer mau agouro para aquela criança e passará de mão em mão até que, fatalmente, regressará às mãos de Arnold Wesker; que, naquele instante, estava em liberdade e fazendo shows como ventríloquo, agora com Lola, uma boneca – supostamente – "inofensiva".

Curiosamente, na série animada dos anos noventa, no episódio Double Talk (S3E4) – ou Identidade Dupla –, assistimos também a libertação e reintegração do Ventríloquo à sociedade, inclusive trabalhando como mensageiro nas indústrias Wayne. Não obstante, Rino e os antigos associados trabalham para que Scarface retorne e tentam a qualquer custo sabotar a sanidade do ex-interno do Arkham. Ao contrário de A Maldição de Scarface, o final da animação é feliz e Wesker se liberta dessa praga... ou seria pesadelo?!

***

 

A preço de hoje, dá até para fazer uma rima de Scarface com a boneca Annabelle, e mesmo com o sobrenatural instalado, creio que o leitor sempre ficará desconfiado se aquilo tudo não é só coisa da cabeça de Arnold Wesker. Eu prefiro que seja assim, a boa e velha loucura ditando os passos dos melhores vilões do morcego; e, se não ficou claro, adoro esses dois porque pertencem a uma safra em extinção. De antagonistas pequenos, que não têm a pretensão de destruir Gotham ou ser só análogos negativos do herói.

A própria estranheza deles já era o ingrediente perfeito para boas trocas com o Batman.



[1] Os estudiosos das Histórias em Quadrinhos chamaram essa iniciativa de Invasão Britânica. Alan Moore teria sido o primeiro com Monstro do Pântano, Grant Morrison com Homem-Animal, Neil Gaiman com Orquídea Negra e, consequentemente, com Sandman, etc.

[2] Por exemplo, a fase de Tom King na mensal Batman teve ao todo 85 edições + 12 edições da minissérie Batman/Mulher-Gato. Tudo é umbilicalmente interligado, de modo que o leitor precisa mesmo ler todos os números para saber onde a história vai desembocar. Se ela desembocou ou não, aí são outros quinhentos.

[3] Essas histórias saíram no Brasil na 5ª série do Batman nas edições nº 1 e 23 (Abril). Mais especificamente, aquela coleção pós-Zero Hora.