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terça-feira, 1 de abril de 2025

UM BOM HERÓI SEMPRE MORRE

Não tem jeito. O grande momento do herói é o sacrifício final em prol de outrem. E no caso da sequência abaixo - de DC Um Milhão nº 3, de Grant Morrison e Val Semeiks -, cinco minutos atrás, o sujeito sequer estava do lado certo da história. Seja com "h" minúsculo ou "H" maiúsculo.

Falo de Farris Knight, o Starman do século 853, hedonista, traidor convicto, guardião de Solaris, o sol tirano; que ao hesitar em assassinar Ted Knight, o Starman sênior do século 20, vê uma vida de possibilidades que poderia ter sido sua[1].

Um belo clichê que sempre funciona comigo.



[1] Historinha devidamente discutida em Os Escapistas – Starman #6: Outros Tempos Passados.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

RÉQUIEM PARA OS MEUS SUPER-HERÓIS

Com a abstinência do Twitter, estou redescobrindo que antes de ser um tuiteiro aplicado, eu costumava usar esse blog como um espaço de descarrego. Não exatamente como cantilenas vazias, mas para comentar rapidinho o que estou assistindo, lendo e, claro, a inquietação do momento. Lógico que, com 280 caracteres, o papo lá era reto, retíssimo... Ainda assim, ao longo dos anos, deixei vários insights[1] que, hoje, por estarem inacessíveis, me arrependo bastante de não tê-los salvo num bloco de notas mínimo. Um erro que não cometerei mais. Ou irei de um jeito diferente e estranhamente parecido. De todo modo...

“ Apartar-se inteiramente da sua própria espécie é impossível. Para viver no deserto é preciso ser santo. ”[2]

✨✨✨

Nós nos achamos imortais. Compramos pilhas e pilhas de gibis, alguns dos quais, com dimensões e pesos que inviabilizam até mesmo suas leituras com alguma dignidade e ergonomia. O imediatismo ou a mera certeza da invencibilidade não dá chance para cogitar se, num futuro próximo/distante, sequer teremos condições de, por nossas próprias forças, retirar volumes assim da estante. Aliás, caso a (remota) possibilidade de virarmos ração de verme se concretize, só peço que Deus tenha piedade dos nossos entes queridos.

No meu caso, além do lugar onde moro, possuo caixas e mais caixas de quadrinhos acondicionadas na casa da minha mãe e sogra. Quer dizer, no dia que eu me for, tenho certeza que meu bom nome seguirá sendo profanado por um tempinho. Mas conjecturas mórbidas à parte – batam na madeira! –, no alto dos meus 42 anos, confesso que estou começando a olhar com outros olhos para a existência física de tudo aquilo que sempre gostei de ler ou ver e manter comigo aqui, à distância do braço.

Paradoxalmente, isso passa pela inversão da história do vazio de William King, de que os indivíduos colecionam objetos ante a necessidade de preencher vazios interiores, às vezes, por causa de experiências de vida negativas, outras vezes para sobreviver num mundo que considera hostil[3]. Por que falei em inversão? Porque sinto que meu próprio vazio já começou a transbordar e precisa ser esvaziado. Ou, caso contrário, não precisa mais ser preenchido, ao menos não no sentido físico.

Eu me peguei pensando nessas coisas enquanto lia Nêmesis, de Isaac Asimov. Não que o livro trate desse tipo intermitência da morte – ou será que trata?[4] –, mas enquanto o devorava ocorria o mais recente Prime Day e, com ele, vi promoções bem sedutoras em torno das coleções da Fundação, Série dos Robôs e Império. E aí, por reflexo, coloquei os (quatorze) livros no carrinho. Quando estava na iminência de pagar, parei e pensei comigo mesmo: “eu paguei e li todos via Kindle, por que preciso tê-los na estante?”.

Antes não os tivesse lido. Antes tivesse acabado de assistir a O Mundo Depois de Nós, e me apavorado com uma existência sem mídia física. Não é o caso, e não me assusto fácil. O período em que esses pensamentos começaram a tomar de assalto meu cotidiano coincide com a época em que estava concluindo a leitura de Starman. O arco de despedida de Jack Knight abriu um rombo no meu peito e preencheu todos os vazios super-heroicos que ainda teimavam em existir.

Senti como se eu fosse o Névoa e o próprio Ted Knight estivesse me levando embora. Contudo, em vez de explodir lá em cima, na estratosfera, sigo aqui embaixo. Isto é, no lugar mais baixo que já estive como gibizeiro, comprando as Sagas[5] que coleciono com uma má vontade daquelas; pechinchando os volumes de Lúcifer com o risco de vê-los esgotados; e – acredite se quiser – até um pouco enjoado da mídia como um todo.

Obviamente, deve ser algo passageiro, o que não muda o fato de que, agora, em 4 de setembro de 2024, eu sinta que fui embora junto com Jack. Sim, quando virei a última página de Starman nº 80, apagou uma luz e algo me dizia que, em matéria de super-heróis, nada mais precisava ser dito. A partida de Jack, resolvendo todas as pendências em Opal City, dirigindo-se para uma nova vida em São Francisco, é uma metáfora que grudou em mim.

Caracterizado como um outsider num mundo ficcional, Jack começa Starman como um super-herói relutante, aceitando o legado de família desde que o pai, Ted, use a expertise em energia cósmica para criar coisas úteis à sociedade. Com o tempo, ele aprende a curtir a experiência, faz vários amigos, alguns poucos inimigos e até realiza um mochilão pelas galáxias. Perdeu o irmão sem nunca conhecê-lo de verdade. Ganha um filho em circunstâncias bizarras. Conhece melhor o irmão num insólito além-vida. Conhece o amor de uma mulher. Perde o pai. Será pai novamente. Dá as boas-vindas a novos heróis locais. Decide se aposentar da vida de combate ao crime. Decide viver a vida com a família em outra cidade. Viver outra aventura.

Depois disso tudo, me respondam com toda sinceridade: O que resta para ler de super-heróis...?!

🌟🌟🌟

Enquanto aguardo vossas deliberações, seguirei lendo o meu 2º romance da série Parker, de Richard Stark. Outra hora, falo sobre isso. Por ora, uma dica de amigo: evite ler Starman! Esse gibi vai acabar com a sua vida.

🌠🌠🌠

Links Afiliados


[1] Porra! Lembrei agora de uma thread que fiz sobre a leitura da Biblioteca Eisner... Que ódio!

[2] Epígrafe contida em Golpe de Misericórdia, de Dennis Lehane.

[3] Uma ilação, hoje em dia, muito popular, saída das páginas da obra Collections of Nothing (2008).

[4] “[...] a vida é uma sinfonia de perdas sucessivas. Perdemos nossa mocidade, nossos pais, nossos amores, nossos amigos, nosso conforto, nossa saúde e finalmente nossa vida. Negar as perdas é perder tudo isso de qualquer maneira e perder, além disso, o autocontrole e a paz de espírito.”

[5] Quais sejam: Sagas do Batman, Superman, Mulher-Maravilha, Flash, Vingadores e X-Men.