Com
a abstinência do Twitter, estou redescobrindo que antes de ser um tuiteiro
aplicado, eu costumava usar esse blog como um espaço de descarrego. Não
exatamente como cantilenas vazias, mas para comentar rapidinho o que estou
assistindo, lendo e, claro, a inquietação do momento. Lógico que, com 280
caracteres, o papo lá era reto, retíssimo... Ainda assim, ao longo dos anos,
deixei vários insights
que, hoje, por estarem inacessíveis, me arrependo bastante de não tê-los salvo
num bloco de notas mínimo. Um erro que não cometerei mais. Ou irei de um jeito
diferente e estranhamente parecido. De todo modo...
“
Apartar-se inteiramente da sua própria
espécie é impossível. Para viver no deserto é preciso ser santo. ”
✨✨✨
Nós
nos achamos imortais. Compramos pilhas e pilhas de gibis, alguns dos quais, com
dimensões e pesos que inviabilizam até mesmo suas leituras com alguma dignidade
e ergonomia. O imediatismo ou a mera certeza da invencibilidade não dá chance
para cogitar se, num futuro próximo/distante, sequer teremos condições de, por
nossas próprias forças, retirar volumes assim da estante. Aliás, caso a
(remota) possibilidade de virarmos ração de verme se concretize, só peço que
Deus tenha piedade dos nossos entes queridos.
No
meu caso, além do lugar onde moro, possuo caixas e mais caixas de quadrinhos
acondicionadas na casa da minha mãe e sogra. Quer dizer, no dia que eu me for,
tenho certeza que meu bom nome seguirá sendo profanado por um tempinho. Mas
conjecturas mórbidas à parte – batam na madeira! –, no alto dos meus 42 anos, confesso
que estou começando a olhar com outros olhos para a existência física de tudo aquilo que sempre gostei de ler ou ver e
manter comigo aqui, à distância do braço.
Paradoxalmente,
isso passa pela inversão da história do vazio de William King, de que os
indivíduos colecionam objetos ante a necessidade de preencher vazios
interiores, às vezes, por causa de experiências de vida negativas, outras vezes
para sobreviver num mundo que considera hostil.
Por que falei em inversão? Porque sinto que meu próprio vazio já começou a
transbordar e precisa ser esvaziado. Ou, caso contrário, não precisa mais ser
preenchido, ao menos não no sentido físico.
Eu
me peguei pensando nessas coisas enquanto lia Nêmesis, de Isaac Asimov.
Não que o livro trate desse tipo intermitência da morte – ou será que trata?
–, mas enquanto o devorava ocorria o mais recente Prime Day e, com ele, vi
promoções bem sedutoras em torno das coleções da Fundação, Série dos Robôs
e Império. E aí, por reflexo,
coloquei os (quatorze) livros no carrinho. Quando estava na iminência de pagar,
parei e pensei comigo mesmo: “eu paguei
e li todos via Kindle, por que preciso tê-los na estante?”.
Antes
não os tivesse lido. Antes tivesse acabado de assistir a O Mundo Depois de Nós,
e me apavorado com uma existência sem mídia física. Não é o caso, e não me
assusto fácil. O período em que esses pensamentos começaram a tomar de assalto
meu cotidiano coincide com a época em que estava concluindo a leitura de
Starman. O arco de despedida de Jack Knight abriu um rombo no meu peito e
preencheu todos os vazios super-heroicos que ainda teimavam em existir.
Senti
como se eu fosse o Névoa e o próprio
Ted Knight estivesse me levando
embora. Contudo, em vez de explodir lá em cima, na estratosfera, sigo aqui
embaixo. Isto é, no lugar mais baixo que já estive como gibizeiro, comprando as Sagas
que coleciono com uma má vontade daquelas; pechinchando os volumes de Lúcifer com o risco de vê-los
esgotados; e – acredite se quiser – até um pouco enjoado da mídia como um todo.
Obviamente,
deve ser algo passageiro, o que não muda o fato de que, agora, em 4 de setembro
de 2024, eu sinta que fui embora junto com Jack. Sim, quando virei a última
página de Starman nº 80, apagou uma luz e algo me dizia que, em matéria de
super-heróis, nada mais precisava ser dito. A partida de Jack, resolvendo todas
as pendências em Opal City, dirigindo-se para uma nova vida em São Francisco, é
uma metáfora que grudou em mim.
Caracterizado
como um outsider num mundo ficcional,
Jack começa Starman como um super-herói relutante, aceitando o legado de
família desde que o pai, Ted, use a expertise em energia cósmica para criar
coisas úteis à sociedade. Com o tempo, ele aprende a curtir a experiência, faz
vários amigos, alguns poucos inimigos e até realiza um mochilão pelas galáxias. Perdeu
o irmão sem nunca conhecê-lo de verdade. Ganha um filho em circunstâncias bizarras. Conhece melhor o irmão num
insólito além-vida. Conhece o amor de uma mulher. Perde o pai. Será pai
novamente. Dá as boas-vindas a novos heróis locais. Decide se aposentar da vida
de combate ao crime. Decide viver a vida com a família em outra cidade. Viver
outra aventura.

Depois
disso tudo, me respondam com toda sinceridade: O que resta para ler de super-heróis...?!
🌟🌟🌟
Enquanto aguardo vossas deliberações, seguirei lendo o meu 2º romance da série Parker, de Richard Stark.
Outra hora, falo sobre isso. Por ora, uma dica de amigo: evite ler Starman! Esse gibi vai acabar com a sua vida.
🌠🌠🌠
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