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quarta-feira, 27 de novembro de 2024

FRACASSO DE PÚBLICO

De nossa última transmissão para cá, eu voltei com o rabo entre as pernas para o Twitter, Trump[1] venceu a agenda “woke”, trinta e poucos aloprados foram indiciados, provou-se que Putin é um robô e, no lado de cá, preciso admitir que fui fraco e curti Absolute Batman nº 1. Me sinto tão mal com isso que, toda vez que fecho os olhos, vejo um Dennis O’Neil cabeludo me julgando.

Sim, parece que estava de férias do blog, sem redigir nada, mas foi justo o contrário. Recentemente, no lado d’os Escapistas, nós concluímos as gravações da nossa série dedicada ao Starman. No total, para vencermos as oitenta edições, especiais e minisséries, foram necessários oito episódios; separados por meses e até anos para concluirmos tudo. Enquanto dura essa fase de (re)leituras, pesquisa, anotações, redação de pautas e, finalmente, o plugue conjunto de microfones com o elenco, os brutos já produzidos ficam salvos e intocados. Com a minha paranoia, mantenho tudo em HDs externos, DVDs de dados e drives na nuvem.

Consequentemente, a solitária fase de edição e tratamento dos áudios só começa quando me dou por satisfeito nesses atos preparatórios. A “pós-produção” já foi mais light, e agora me demoro demais justo pelos dissabores oficiosos da vida cotidiana. O déjà vu não é por acaso, visto que sempre entro numa espiral doida de mau humor quando uma série, de fato, conclui, tendo publicado todos os episódios. Dessa vez, acrescentei um ingrediente à mistura que piorou minhas crises existenciais.

Guarde esse pensamento.

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Não sou o maior fã de Chip Zdarsky. Em termos de Batman, eu acho que ele tem entregado se não o pior, certamente um dos piores runs que já li do personagem. Dos Novos 52 para cá, não tenho a menor dúvida. É o pior.

Posto isso, nesse meio-tempo que sumi, encarei Domínio Público, uma obra totalmente autoral desse roteirista/desenhista. É outro Zdarsky. Um que te dá a exata noção do mal-estar que atravessa a atual geração de criadores em meio a editoras majors. O temor de, inadvertidamente, criar um “Soldado Invernal” e ter que lidar com as mesmas frustrações que Ed Brubaker.

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Se estavas em Marte em 2021, à época da estreia da minissérie de Sam & Bucky no Disney+, Brubaker fez um desabafo na sua newsletter, a princípio rasgando elogios as pessoas de Anthony Mackie e Sebastian Stan...

“[...] mas, ao mesmo tempo, na maior parte, tudo o que Steve Epting e eu recebemos por criar o Soldado Invernal e seu enredo é um 'obrigado' aqui e ali, e ao longo dos anos isso se tornou cada vez mais difícil de conviver. Vi até altos escalões do lado editorial tentando levar o crédito pelo meu trabalho algumas vezes, o que foi bem irritante (para deixar claro, NÃO estou falando de Tom Breevort, que foi um ótimo editor e muito prestativo). Então, sim, sentimentos mistos, e talvez seja sempre assim (mas espero que não). Trabalho por encomenda é o que é, e sinceramente estou emocionado por ter cocriado algo que se tornou uma parte tão grande da cultura pop - ou mesmo da subcultura pop com toda a ficção slash Bucky-Steve - e aquela temporada no Cap, enquanto fazia quadrinhos de super-heróis, foi um dos momentos mais felizes da minha carreira. Além disso, tenho uma ótima vida como escritor e muito disso é por causa do Cap e o Soldado Invernal trazendo tantos leitores para meus outros trabalhos. Mas também não posso negar que às vezes me sinto um pouco enjoado quando minha caixa de entrada enche de pessoas querendo comentários sobre o programa."

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Voltando para o presente, ou melhor, para Domínio Público, o enredo de Zdarsky vai ao encontro exatamente desse medo contemporâneo de não ser dono do seu trabalho. Na realidade, esse nem é o dilema do desenhista Syd Dallas. É o da esposa e dos filhos, que descobrem que um super-herói criado na juventude do artista, ao contrário do que acredita a multinacional que o explora economicamente, pertence ao seu marido/pai.

Adoraria falar mais sobre, mas para os fins desse texto, o que ficou de verdade comigo foram três páginas. Elas mostram que Syd, mesmo sabendo a verdade, teme o alvoroço jurídico e o entrechoque com os publishers, dos quais sempre nutriu uma relação profissional amistosa. Contudo, o que ele não percebe é que o seu trabalho teve um alto custo na vida pessoal, e quem pagou a conta foram os entes queridos. Então, lutar pela aquela propriedade intelectual é um dever por aqueles que sempre estiveram no andar de cima, aguardando pacientemente [ou não] o término daquelas artes:

Taí... O Zdarsky me pegou nessa. Tanto que não tive como não trazer para minha própria realidade. Quer dizer, quantas vezes me peguei diminuindo o valor do meu trabalho, seja o oficial, que lida com os boletos, seja o que faço n’os Escapistas...?! E eis que, na esteira de Domínio Público, quando faço isso, percebi que não sou o único que está pagando essa conta, são as pessoas que contam comigo.

É sempre o problema de precificar algo tão do nosso cotidiano, que sequer imaginamos que do outro lado, quem está produzindo, encara aquilo como um trabalho e ficaria muito feliz que sua tapinha nas costas lhe rendesse alguns trocados. Inclusive, pensei nisso enquanto lia o e-mail do Érico Assis, tentando motivar os leitores de sua newsletter a pagar por uma assinatura. Acho justíssimo.

Por aqui, queria ver também se conseguia levantar um tutu para arcar com alguma despesa d’os Escapistas, e a forma que arrumei foi utilizar minhas anotações e materiais de pesquisa como encartes dos programas. Na estreia de Starman – nesse momento com dois episódios publicados –, lancei esses encartes como E-Books do Amazon Kindle. Cada um dos oito podcasts acompanhará um encarte do que chamei de Noites Estreladas.

Foi isso que me afastou do Pulse. A edição dos programas e a reescrita[2] dessas anotações. Algo que vem me consumindo... e me frustrando mais do que o habitual. Por que motivo, você me pergunta. Porque nossa audiência é razoável para um podcast de quadrinhos, e pior que isso, um podcast completamente especializado, que foca em séries longas e passa até meses sem que outra se inicie.

Um episódio nosso tem em torno de 600... 800 plays. Um número irrisório para um canal de YouTube, mas para o nosso microcosmo, é até uma audiência razoável. Não raro, Os Escapistas figura nas paradas nacionais do seguimento Hobbies; vale dizer, até em paragens internacionais, ganhando algum destaque entre nossos irmãos lusitanos.

Logo, vejam meu raciocínio: cada um dos Noites Estreladas custa apenas R$ 2,00. Vamos combinar que é um valor simbólico, do qual faço questão de mencionar que funcionaria como um apoio ao programa, já que não temos condições de manter uma campanha de financiamento em Catarse ou congêneres. Para ser franco, foi o único meio que consegui viabilizar para arrecadar algo, tendo em vista que a periodicidade é bem esporádica, quase como se fizéssemos séries/antologias documentais sobre temas específicos. Também não é algo que mudará minha vida financeira, tampouco conto com isso, mas dá um trabalho daqueles.

Nos dois primeiros programas, faço questão de pedir com todas as palavras o apoio do ouvinte que gosta do nosso podcast.

No dia 27 de novembro de 2024, esse é o número (provisório) de vendas dos dois Noites Estreladas juntos:

Essa é a dimensão do meu fracasso de público.

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O fato é que o negócio é praticamente de graça e ninguém deu bola. O ego dói um pouco... Ok. Dói muito. Se está assim no começo, deve ir até o final sem [quase] ninguém interessado, muito embora, em respeito a esse quinteto de boas almas, irei até o final, publicando todos os oito encartes. Só não garanto que voltarei mais a produzir podcasts. Na minha cabeça, Starman será a última série d’os Escapistas.

Meu momento “Syd Dallas” foi quando me vi no dia do aniversário, editando o podcast e o texto do encarte... E de algum modo, me senti incomodado porque ia sair sem concluir os trabalhos, sendo que, naquele instante, minha família me aguardava para comemorar esse natalício. Foi ali que a ficha começou a cair.

Não vale a pena. A conta não fecha. É hora de fechar. É hora da última escapada.



[1] O que não me diz nada, ou melhor, até diz, mas sigo na toada do Paulo Coelho.

[2] Longe de mim me comparar ao grande Moacyr Scliar, mas me lembrei desse trecho enquanto reescrevia meus garranchos: “[...] A ideia que as pessoas têm é que o escritor é um cara que escreve com tremenda facilidade, que vai botando as palavras. Mas não é assim. O escritor tem essa facilidade, mas, ao mesmo tempo, ele tem um nível de exigência que o comum das pessoas não tem. Vejo pelos e-mails que escrevo. A pessoa escreve uma frase, pode não estar bem escrita, mas tudo bem, porque serve para transmitir o pensamento dela. O escritor não se contenta com isso. Ele quer transformar a palavra num instrumento de criação estética, e isso exige um esforço. Daí a necessidade de reelaborar. Garcia Marques, em O outono do patriarca, reescreveu 16 vezes o primeiro parágrafo. E eu mesmo, na Zero Hora o pessoal me conhece, reescrevo muito. Mando a minha matéria, aí releio e penso: isso aqui eu podia melhorar. Aí melhoro, mando de novo, e digo, vale essa, aí mando uma terceira vez. E eles já estão acostumados. Jornalista, geralmente, não faz isso, escreve e manda. Tem muitos editores que tiram as obras dos escritores: “chega de mexer”, dizem. Na verdade, escrever é reescrever."

sábado, 27 de janeiro de 2024

SOBRE MENINOS, LOBOS E UM PODCAST

Os bastidores dos quadrinhos, dos produtores, das editoras sempre me intrigaram. Eles tendem a ser um magnetar de criatividade e ressentimento.

Atribui-se a Jack Kirby a máxima de que “os quadrinhos vão partir o seu coração”. Joe Shuster morreu praticamente cego e sem um centavo no bolso, sendo ele cocriador do Superman, um dos copyrights mais valiosos do mundo. Há rumores que o recluso Steve Ditko só foi encontrado dias após falecer e, em vida, embora gentil com os fãs, tornava-se arredio quando lhe lembravam dos tempos na Marvel. Dizem que uma conversa com Barry Windsor-Smith pode demover qualquer um da ideia de criar sua própria história em quadrinhos. Ed Brubaker usa a mídia para espiar seus demônios e também já perambulou pela rua da amargura e decepção.

Nem o cotidiano dos leitores costuma ser afável, sobretudo no Brasil, quando a mídia passa a sofrer uma constante alta de preços e, claro, uma predileção editorial por formatos de luxo. Daí se instala uma guerra não declarada, uma luta de classes entre gibizeiros; dos leitores envoltos no dilema da televisão de cachorro contra os que só se preocupam com qual é o ponto ideal de sua picanha. Um lado está feliz e o outro, não. Se reparar bem, é a mesma coisa com a turma lá de cima, dos criadores.

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Do lado de cá, do meu lado mesmo, o Luwig, eu confesso que venho colocando em perspectiva algumas coisas acerca da produção de conteúdo gibizeiro. Como disse outro dia, comecei em 2016 no Arte-Final HQ, como membro fundador do 7 Jagunços, e, desde 2018, venho tocando o projeto dos Escapistas. O podcast cresceu e cresce a cada nova série publicada. Tanto no número de assinantes quanto nas métricas. No modelo posto, de ter um feed organizado com programas temáticos, serializados, percebo que muitos ouvintes têm preferido esperar a conclusão de certos projetos para dar play e, digamos, poderem maratonar os episódios conforme leem os recortes de histórias discutidas.

Outro dia, inclusive, descobri que nossos programas sobre o Miracleman estavam sendo disponibilizados para download direto, junto com os arquivos digitais dos gibis. O Dr. Malcolm falaria num tom hippie que “a vida sempre encontra um meio”, e isso vale tanto para a façanha jurássica de Hammond quanto para aqueles suecos sovinas. De todo modo, creio que fale também por todo o elenco: ficamos orgulhosos. 

Então, estou sempre recebendo mensagens elogiosas pelo trabalho em Sandman Anotado, Justiceiro MAX, Wolverine Essencial e outros. Ouvintes vivem nos sugerindo novas pautas. E quase tudo é culpa do Reginaldo, Mauro, Maurício, Do Vale e quem já contribuiu conosco nesses últimos anos. Agorinha mesmo, concluímos Lobo Solitário, uma de nossas séries mais trabalhosas; iniciada oficialmente num longínquo 2017. Extraoficialmente? Dentro da minha cabeça, é capaz de ter começado antes de 2007.

Isso é um barato. Fico feliz com isso, né? Claro que fico, mas aí você me pergunta qual seria o ponto aqui? O que quero dizer com tudo isso?

Só que estou cansado. Não infeliz... Apenas cansado. Também não diria que é depressão. Talvez seja a pressão (besta) que coloco sobre mim mesmo. O hobby que dá a volta e passa a parecer com um trabalho laborioso que não rende financeiramente nada. Não sei. Às vezes, acho que estabeleci e cumpri as grandes metas do programa em termos de pautas; no nível pessoal, por exemplo, já gravamos sobre minhas três séries favoritas... da vida. É como se tivesse vencido as três últimas edições da Champions League.

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Curiosamente, ontem, ao saber da notícia e o motivo por trás da saída de Jürgen Klopp do Liverpool, alegando cansaço mental... Isso reverberou de um jeito inesperado e me deixou ainda mais pensativo sobre o esvaziamento que também ando sentindo. Por outro lado, reconheço que a edição dos programas é um dos principais responsáveis pela fadiga. Quem manja do ofício e dá tudo de si nessa “pós-produção”, sabe quão sacrificante pode ser sonorizar, elaborar vinhetas, eliminar ruídos, diminuir espaços, corrigir trapalhadas e até bancar uma de fonoaudiólogo remoto.

É um trabalho complexo e difícil de precificar. Pode ser barato para quem cobra e caríssimo para quem paga. Obviamente, tudo depende da obstinação do profissional e do nível de exigência do podcaster contratante. No meu estado de coisas, adoraria terceirizar a edição do programa, porém, no momento, não tenho condições de arcar com essa despesa. A solução poderia vir de uma campanha de crowdfunding da qual, por diversos fatores, não vejo chances de dar certo, especialmente porque sou péssimo em vender o meu/nosso peixe nas redes e, infelizmente, a verdade precisa ser dita: o público ouvinte disposto a apoiar, não pagaria apenas pela manutenção do podcast, mas, sim, de olho em recompensas “maiores” que o simples fato d’os Escapistas continuar existindo.

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Bom, do futuro nada sei, nem sei se é o fim do nosso podcast. Já do presente, esse eu posso falar. Fiz bons amigos nesse meio e eles, sim, são para sempre. Também sei que escrevi essas linhas com a certeza que o nosso humilde programa atingiu o coração & mente de ao menos algum “Michael Scott” por aí.