“Al Muncy é o único herdeiro do império das
Cervejas Muncy e suspeito de torturar e assassinar sete crianças de Seattle.
Ele deveria estar sendo transferido para uma prisão em Washington, onde
começaria a cumprir duas penas consecutivas de vinte anos por ter espancado
brutalmente uma menina, em 1972. Porém, seus advogados
emplacaram uma reviravolta ao conseguir um novo julgamento e, hoje, ao pagar
uma fiança no valor de US$ 3 milhões, Al foi solto após dezoito anos. Ao
libertar Muncy, a juíza Rachel Scrom estabeleceu normas rígidas. Ele
permanecerá sob prisão domiciliar, confinado exclusivamente à propriedade de
sua família, adjacente à cervejaria onde sua família fez fortuna. Uma fortuna que agora será gasta para defender um homem que muitos chamam de monstro!”
Esse
é um dos relatos da imprensa noticiados nos recordatórios de Arqueiro Verde nº 1 (1988), de Mike Grell e Ed Hannigan. Annie, a pequena vítima que sobreviveu a Al, tornou-se, no presente, uma mulher adulta que, a um grande custo, deu a volta por cima e hoje atua como
terapeuta de casais. É ela quem vem cuidando dos traumas emocionais de Dinah Lance, que se recupera do
espancamento e, possivelmente, de um estupro sofrido na minissérie Os Caçadores
(1988).
São
temas viscerais, para não dizer indigestos. Numa outra continuidade, era o início de
uma série mensal reverenciada, com toda a aura e apelo "Vertigo",
porém, ainda assim, parte do Universo DC convencional. Muito embora, claro, existisse
um lembrete onipresente nas (esplêndidas) capas de Greel: “recomendado para leitores adultos”.
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A
passagem abaixo grita comigo: “no meu tempo é que era bom”.
Na continuidade atual, ouvi dizer que as histórias de Joshua Williamson para Oliver
Queen giram em torno de dimensões paralelas e viagens temporais...
Fazendo
uma rápida consulta na loja virtual da Panini, o preço (cheio) do omnibus da
fase noventista do X-Factor comandada por Peter David é de R$ 349,90. Já os
dois volumes gigantescos do Hulk assinados pelo mesmo, custam estratosféricos
R$ 819,80. No lado da DC, as três edições capa dura de sua Supergirl
correspondem a um investimento de R$ 424,70 e o vindouro Aquaman davidiano, em
seu volume de estreia, “módicos” R$ 164,90.
Com
alguns descontos de praxe e/ou parcelamentos mil, sua alma tende a ficar
ligeiramente mais leve. Por outro lado, espero que ela – sim, a alma – pese
bastante na hora de sacar o cartão de crédito e lembrar-se dessa foto acima do
Sr. David.
O
registro fotográfico encabeçou o artigo de Rich Johnston no Bleeding Cool, em 14 de março de 2025. O texto repercute a saúde fragilizada do
escritor de 68 anos, pego para Judas em meio à insuficiência renal, derrames e
um ataque cardíaco. Vítima de um país cujo capitalismo selvagem nutre um sonho
(americano) que não permite a existência de algo como o (nosso) SUS, David se
viu desamparado pelo Medicaid e, como sua esposa revela, está agora abandonado
à própria sorte:
“A versão curta é que estamos nadando em
dívidas médicas devido à rejeição de Peter para o Medicaid – o que era uma das
poucas coisas que estava dando certo. Como muitos de vocês sabem, o seguro só
paga até certo ponto. Uma vez que se tenha usado isso, depende-se dos serviços
sociais para permitir que se viva sem ficar sem teto e sem dinheiro. É isso que
o Medicaid tem feito nos últimos dois anos.”
O
relato na íntegra de Kathleen David causa ainda mais desalento, e serve de
apelo aos fãs numa campanha de financiamento coletivo
para arrecadar US$ 150 mil. A julgar pelos mais de US$ 80 mil já doados, o
prognóstico é de que nos próximos dias, felizmente, a meta seja atingida.
***
Não
que isso sirva para aliviar sua consciência. Ela deveria, sim, pesar e muito.
Afinal, quando se paga por aqueles gibis lá em cima, por uma particularidade
arcaica e predatória dos contratos work
for hire (trabalho sob encomenda), os autores Marvel/DC não recebem
royalties nas vendas de reimpressões realizadas fora dos Estados Unidos.
Isso
ocorre por dois motivos: 1) as duas editoras
majors vendem os direitos
internacionais para outras empresas (como a Panini no Brasil), e essas
republicações, obviamente, não fazem parte da tiragem original do quadrinho nos
EUA; e 2) no mais das vezes, os acordos
não incluem pagamentos sobre republicações internacionais.
Desse
modo, os escritores e desenhistas não recebem percentuais sobre esses novos
contratos, a menos que seja algo especificamente negociado. A exemplo do feito conseguido
por Neil Gaiman em Sandman que, embora nunca revelado os termos exatos, tem-se
como certo tanto o recebimento dele de royalties internacionais pelas vendas, quanto
de dividendos consideráveis em torno de adaptações e merchandising. Insight parecido teve Rob Liefeld que, enquanto esteve na crista da
onda durante a febre mutante dos anos noventa, conseguiu emplacar direitos sob
o copyright de algumas criações em Novos Mutantes/X-Force: “Quando
Deadpool explodiu no Fortnite, isso foi realmente bom para a educação privada
dos meus filhos? Sim. Sim, foi. [...] Tenho fluxos de receita do Deadpool que
existem desde 1991.”[1]
***
Como
David não conta mais com vigor para fazer aparições em eventos e a cognição
deve estar agora em frangalhos após múltiplos AVCs, não consigo vê-lo
produzindo novos roteiros para o seu empregador mais corriqueiro. Sem qualquer
criação indie digna de nota,
construindo uma carreira profícua, porém, majoritariamente atrelada a medalhões
corporativos, é difícil crer que haverá uma reviravolta. Do mesmo modo que
nunca houve para o grosso dos notáveis que criaram sem limites e, em algum
momento futuro, esbarraram numa limitante realidade.[2]
O
problema, entretanto, é que o leitor/consumidor não costuma dar bola para esses
dilemas paradigmáticos da criação artística. Chega a ser ininteligível quando,
por exemplo, a mão que acaricia a obra de Alan Moore, costuma ser a mesma que
apedreja a animosidade do autor com a indústria do entretenimento e sua fome insaciável de
buyout.
Reformulando
para o espírito desse texto:
A
mão que compra o omnibus do Hulk, é a mesma que faz vista grossa com o Peter
David virando estatística na assistência social de Donald Trump.
Há que se botar a boca no trombone, mas mais importante que a(s) voz(es) solitária(s) do(s) autor(es), cabe ao leitor das “republicações internacionais” a iniciativa inédita
de não pactuar mais com esse estado de coisas. Por mais quixotesco que isso
possa parecer.
Não compre e veja a mágica
acontecer.
[1]Especula-se
que até 2024, Liefeld tenha lucrado entre US$ 10 milhões e US$ 20 milhões com
sua cota-parte em Deadpool.
[2] Em Pulp,
Ed Brubaker e Sean Phillips ilustraram um worst
case scenario da experiência frustrante do primeiro em O Soldado Invernal, enredando uma trama onde um escritor de folhetim descobre
que seu personagem não lhe pertence e não tem mais saúde ou finanças para
seguir em frente. De repente, o ficcional Max Winters parece muito o verídico
Peter David.
Até que se prove o contrário, todo leitor engajado é
um corneteiro capaz de emprestar o gogó à trombeta do apocalipse. Quer dizer,
dentro de sua mente, se encontra as soluções para que uma editora saia criativa
e financeiramente do buraco, o melhor line-up
em um título, as mudanças que precisam ser feitas, seja avançando alguns
passos, seja voltando outros.
Se eu fosse editor da DC Comics, confesso que seria
uma espécie de capricho pessoal a luta pela manutenção do título O Bravo e o Audaz (The Brave and The Bold) nas
solicitações dos lojistas, inclusive sob pena de reiterados fracassos de
vendas. Quem tem alguma intimidade com a trajetória do Universo DC, sabe que
diversos medalhões saíram daquelas páginas; como, por exemplo, o Esquadrão Suicida original (#25), a Liga da Justiça (#28), o Gavião Negro (#34), os Titãs (#54) ou o Metamorfo (#57).
Num mundo perfeito em que, no final das contas, sem
importar tantos as conta$, sempre seria a liberdade criativa que vigoraria.
Assim, um quadrinho que permitisse às equipes criativas uma chance de manipular
personagens de um universo ficcional, fossem eles populares ou obscuros,
indubitavelmente, ter-se-ia em mãos (sempre) um belo produto. Sei que não é
desse jeito que a banda toca, mas, se eu tivesse voz e poder, O Bravo e o Audaz seria tombado como
patrimônio histórico da DC Comics
tal como são Action Comics e Detective
Comics.
***
A primeira encarnação do título (1955-1983) durou exatas duzentas edições e serviu de palco para verdadeiros monstros dos quadrinhos, entre eles, Robert Kanigher, Gardner Fox, Joe Kubert, Bob Haney, Neal Adams e Jim Aparo[1].
Já uma de suas versões mais recentes (2007-2010)
fechou as portas com trinta e cinco
números, sendo os últimos nove sob a chancela do roteirista J. M. Straczynski
É de conhecimento comum que o curto período em que
o autor colaborou com a DC Comicsfoi tão
conturbado quanto seus últimos
instantes na Marvel. Vendo hoje a coisa em retrospectiva, até que
entendo o lado
do autor, mesmo que seja bastante amargo confiar numa série
em que o capitão do barco tem o hábito de pular fora antes de seus passageiros.
Controvérsias à parte, fato é que um currículo com O Povo da Meia-Noite, Poder Supremo e Surfista
Prateado: Réquiem ainda têm cacife para comprar e sustentar sua
credibilidade com o leitor.
Sua passagem por O Bravo e o Audaz senão é um de seus trabalhos mais inspirados,
pelo menos entrega um produto digno dos melhores dias da revista. E isso, pelo
menos para mim, foi o suficiente. No Brasil as edições que compreendem essa
fase foram publicadas entre maio de
2010 e julho de 2011 na extinta Dimensão DC: Lanterna Verde #21-23, 31-35. Em agosto de 2011 foi lançada uma compilação que reproduziu na
íntegra as edições originais (#27-35)
sob o nome Team-ups of the Brave
and the Bold. Como fã, não custa sonhar com um lançamento nacional desse
encadernado[2].
***
A morte de um herói (#27) → Ao furtar objetos de hóspedes de um quarto de hotel em Gotham, um bandido fajuto acaba se
deparando com o artefato alienígena conhecido como Disco-H[3]. Similar a
um disco de telefone analógico, o mesmo traz consigo dez símbolos que equivalem
a letras do alfabeto terrestre. Ao girar o dispositivo, o indivíduo é
instintivamente levado a discar a palavra “Herói”, o que lhe garante por 24hs o manejo de habilidades especiais e indumentárias a cada
nova transformação. No conto em questão, Straczynski
resgata das páginas de House of Mystery #156, o usuário original – e vítima do furto –, o adolescente Robby Reed. Por outro lado, Travers Milton, o gatuno que
acaba acessando o poder do Disco-H,
vive seu momento de redenção ao auxiliar o Batman em uma onda de crimes sincronizados e idealizados
pelo Coringa.
Na linha de fogo (#28) → Numa visita com fins científicos à cidade de Bastogne, Bélgica,
Barry Allen utiliza seus
dons para ajudar um pesquisador local em um experimento com a velocidade da
luz. Contudo, quando o feixe de luz e o monitor de medição interagem com sua
frequência vibracional, o Flash
é sugado por um vórtice que o faz voltar no tempo, arremessando-o precisamente
no combate
que deu notoriedade àquela região. Na ocasião, Barry acaba interferindo no conflito, deixando de lado sua
identidade heroica para atuar como soldado ao lado dos Falcões Negros. No gibi, ele se
machuca e passa um tempo até se recuperar; nesse ínterim, a dura realidade da 2ª Guerra Mundial se impõe frente ao seu juramento de não matar.
Histórias perdidas de ontem, hoje e amanhã (#29) → O conto reapresenta o Irmão
Poder, personagem que Joe
Simon (Capitão América)
criou no final da década de 1960 como um boneco de pano que ganha vida de modo
similar ao Frankenstein de Mary Shelley. O que há de mais
intrigante no personagem reside no fato de que, tal como Solomon Grundy[4],
o Irmão Poder é também um Elemental “imperfeito”, simbolizando, nesse
último caso, um totem das representações humanas em objetos. O caminho do
boneco em questão – nessa versão, um manequim – cruza com o de Batman. No Brasil, a Panini republicou na coletânea Dias da Meia-Noite, de Neil Gaiman, uma história do Monstro do Pântano, “Irmãos”, estrelada pelo Irmão Poder no contexto da Vertigo.
O verde e o dourado (#30) → Considero não apenas a melhor dessa sequência, mas provavelmente uma
das melhores histórias de super-heróis já escritas por Straczynski. E interessante que a narrativa se aproveita de uma deixa que ficou em
banho-maria desde 1987 no desfecho do primeiro arco de
histórias da LJI
(#7) de Giffen, DeMatteis & Maguire.
O team-up em foco ocorre quando
Hal Jordan se vê acuado
em um planeta sem vida, mas ao subestimar seu sistema defensivo, esgota
praticamente toda a carga do anel energético e só Kent Nelson pode ajudá-lo. O problema é que o Senhor Destino original havia morrido
há vários anos. Fino!
Pequenos problemas (#31) → Considero não apenas a pior dessa sequência, mas provavelmente uma
das piores histórias de super-heróis já escritas por Straczynski. Sem piada, um remake de Viagem
Insólita com Ray
Palmer, tentando salvar a vida do Coringa, chega a ser mais inverossímil que o controverso Advogado
do Diabo. Quer dizer, dá para relevar um Batman, amparado
por um forte imperativo moral, tentando provar a inocência do arqui-inimigo num
caso em que o vilão realmente não cometera um crime. Agora, esperar boa vontade
dos outros numa missão para curá-lo de uma enfermidade...?! Pois é.
Deuses da noite (#32) → Jesus Saiz tem
um traço
elegante, bem aprazível aos olhos míopes desse velho
leitor. É daqueles artistas que se espera que algum dia consiga uma colaboração
que faça justiça a seu lápis, do mesmo modo como foi para Eduardo Risso com Brian Azzarello ou Tim Sale com Jeph Loeb. Para que uma parceria
dessas surja e fique estampada no córtex alheio, é necessária a cominação de
muitos fatores, mas o elemento sorte, indubitavelmente, me parece despontar na
dianteira. A história dessa edição é visualmente impecável, mas se você já leu Namor:
As Profundezas, de Peter
Milligan e Esad Ribic, sabe que aquela conjunção inusitada de
forças entre Aquaman e Etrigan poderia ter rendido mais.
Para piorar, nunca fez sentido para mim o uso de
balões de diálogos no meio aquático, ou melhor, o fato dos
atlantes vocalizarem dentro d’água como se estivessem na superfície.
----------
Off-topic, mas nem
tanto:
Logo,
por mais instigante que seja o roteiro, ao se ignorar o fator comunicação
submarina, a história sofre um revés na suspensão de descrença. Pareço bobo, eu
sei, mas desculpa, não dá. Claro, tem sempre o risco de que o Maravilhoso em
Aquaman remete - por que não? - ao maravilhoso
literário, das fábulas e contos de fadas, onde o sobrenatural pode ser
factível porque o leitor abraça a convenção da narrativa; o que torna inteligível
a existência do impossível, como o caso de animais falantes.
Entretanto,
creio que um criador poderia pensar em alternativas mais práticas. Um bom
exemplo está na Liga do Zack Snyder, mais precisamente quando Mera cria um bolsão de ar para conversar com Arthur. Outra solução seria usar a telepatia do Aquaman – dirigida à fauna
marinha – para se comunicar com seus semelhantes. Nesses dois casos, já
renderia um bom caldo de peixe.
Na
verdade, não raro, nos deparamos com recursos narrativos que driblam limitações
vocálicas dos personagens, entregando quadrinhos sofisticados, que transformam
o portador de necessidades especiais em alguém que tem bastante a dizer, mas de
um jeito pouco usual.
Para
fundamentar isso, vou usar o Clint Barton de Matt Fraction que,
em determinado momento, fica surdo e passa a se comunicar por linguagem de sinais; o roteiro de Matt
Fraction vai até mais longe com Lucky, o cão de Clint, que tem
balões simulando via símbolos como ele, supostamente, compreende o mundo ao seu redor. Com Raio Negro, o buraco é até mais embaixo,
já que se trata de personagem cujo poder destrutivo da voz impele um automutismo
que, se bem aproveitado, rende até Eisner;
e no cinema, Oscar de melhor filme. Esse tipo de contexto, que desafia convenções linguísticas e/ou se
adapta às dificuldades sensoriais dos falantes, tem cacife para oferecer uma
experiência única, fora da caixinha – ou do aquário.
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A noite das mulheres (#33) → Como sugere o título da história, o team-up aqui parte de um happy
hour entre Batgirl, Mulher-Maravilha e Zatanna. Essa noite é justamente
a da véspera de A Piada Mortal, o
que a marca pelos extremos do dia seguinte: em 24hs, Barbara vai de um dos
momentos mais felizes da vida para, indiscutivelmente, o seu pior.
Fora do tempo (#34-35) → São
dois “one-shots” que se
complementam: o primeiro une os três legionários originais, Garth Ranzz (Relâmpago), Rokk Krinn (Cósmico) e Imra Ardeen (Satúrnia)
com a Patrulha do Destino; já o segundo, une – ou melhor,
passa perto de “unir” – os dois primeiros grupos com a Legião dos Super-Heróis Substitutos
e o Quinteto Inferior.
Basta dizer que essa última edição (#35) é uma das mais engenhosas e
divertidas tramas de viagens temporais que já tive a oportunidade de ler,
sendo, também, por que não, (mais) um canto do cisne para a revista, ainda que irreverente.
Não
custa lembrar que isso só ocorreu por não ser eu quem dá as cartas na DC.
[1]A Panini publicou uma
coleção de Lendas
do Cavaleiro das Trevas com parte da trajetória
do Batmanilustrado porAparo, sendo que a maioria
absoluta das edições compiladas perpassa exatamente a produção desse artista em
O Bravo e o Audaz.
[2] Custou um pouco e o custo está bem
salgado, mas, no dia da atualização desse texto, 2 de abril de 2024, está em pré-venda na loja virtual da
Panini o respectivo encadernado.
[3] Em 2003, o roteirista Will Pfeifer
esteve a frente de um ótimo revival desse conceito. Uma pena que não chegou a sair no Brasil por
meios oficiais.
[4]Grundy é um Elemental
"imperfeito" da Terra, posto, por sinal, ocupado pelo Monstro do Pântano.
Mais que uma
locação onde o arquétipo herói vivencia sua rotina, a urbe de Batman, Gotham City, com o tempo e a alternância das equipes criativas, se tornou quase um personagem à parte na mitologia do
personagem. Um organismo vivo que entre arranha-céus e camadas de concreto
armado, corroídos e esquecidos pelo tempo, absorve a essência dos seus
munícipes. Assim como a Central City
de Will Eisner, cidade de
Spirit, combatente do
crime mascarado, alter ego de Denny Colt, e tantos outros
personagens secundários, Gotham
transcende o conceito de cenografia e passa a se estabelecer como um formato.
Um formato ideal para tecer contos poéticos de seres marginais na grande
metrópole.
Fã confesso que sou do Eisner, foi irresistível não cometer a heresia de relacionar sua
urbe maior – depois de Nova Iorque, vai?! – com uma Gotham sob a perspectiva de
Scott Snyder, atual roteirista do
título homônimo e carro-chefe de
Batman. Quer dizer, nas narrativas desse escritor, fica visível a olho
nu toda a sorte de implicações e privações que os gothamitas têm que se desvencilhar no cotidiano para vencerem
incógnitos às armadilhas da própria cidade. Abraçado pela crítica especializada
e alçado ao nível de clássico instantâneo, seu debute, o arco Espelho Sombrio, sobressaiu todos
os superlativos possíveis e imagináveis.
Publicado originalmente na revista Detective
Comics entre as edições nº 871-881
em 2011, saiu no Brasil pela finada A Sombra do Batman nº 18-23 (1ª Série).
***
Com a colaboração dos artistas, Marc "Jock" Simpson e Francesco Francavilla, Snyder construiu em o Espelho Sombrio uma ode à Gotham City, lidando especificamente
com as idiossincrasias das personas vividas por Dick Grayson e James
Gordon, relativizando suas desventuras particulares ao campo magnético
soturno que os limites da cidade exerce sobre seus habitantes. Para tanto, uma
subtrama salta aos olhos, costurada em meio a dois enredos: 1) um sobre leilões dirigidos a
aristocratas das classes abastadas, ofertando-lhes artigos exóticos e
utensílios outrora manejados pelo casting de antagonistas de Batman, e 2) o outro em relação às ameaças que uma banqueira vem recebendo
por ser filha de Tony Zucco, um mafioso de estirpe e assassino confesso dos
pais de Dick.
Já na referida subtrama, esculpida à conta gotas em
histórias curtas ilustradas por Francavilla,
somos reapresentados a um personagem clássico que nasceu, literalmente, no Ano
Um deFrank Miller e David
Mazzucchelli. Estou falando de James Gordon Júnior, o primogênito do Comissário
Gordon, nascido nas páginas daquela obra seminal e alvo do atentado que
tomou o clímax da história. Não
lembra? Aquele bebê que fora arremessado da ponte por Johnny Falcone e apanhado por Batman à luz do dia e à paisana. De
lá para cá, parece que ninguém nunca havia se dado ao trabalho de contar o que
havia ocorrido com o guri, e talvez seja por isso que a história nova te pega
no pulo.
Jimmy reaparece em Espelho Sombrio já como um jovem adulto, encarado com desconfiança e
temor pela própria família. Não sem razão, na intimidade, o Gordon caçula é uma
representação tridimensional tão perturbadora da maldade que ele teria
cacife para ficar numa mesma mesa de boteco com o Coringa e o Zsasz. Detentor
de um histórico assustador, Jimmy
é a exacerbação do termo "ovelha
negra", sendo que seu estado mental era uma velha pulga atrás da orelha
do Comissário Gordon, dada a violência da célebre queda e a possibilidade
daquilo ter interferido na química cerebral do recém-nascido. Vai saber?
Suposições à parte, o mote desse regresso também traz
à tona feridas nunca cicatrizadas, tanto do pai, quanto da meia-irmã, Bárbara, e levadas às últimas
consequências no magistral conto Garotos
Perdidos, publicado em Detective
Comics nº 875. Brincando com a percepção do leitor, Snyder divide a história em duas
frentes, quais sejam: uma, na infância, em um distante final de semana
em família numa casa de campo; e a outra, confrontando os instintos
policiais de Gordon sobre o
desaparecimento de uma amiga de Bárbara
no período anteriormente relatado e um caso de arquivo morto.
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Off-topic, mas nem
tanto:
No arco Lealdades,
de John Ostrander e David Lopez, publicado em Legends of
the Dark Knight nº 159-161 – inédito no Brasil –, temos um vislumbre que sugere
outro trauma da infância de Jimmy. Trata-se de um conto ligeiramente posterior
a Ano Um, no qual apresenta a premissa que levou à adoção da sobrinha Barbara
Gordon – então filha de Roger, irmão
mais novo do Comissário. Ambientada em Chicago, o enredo mostra a futura
Batgirl levando a vida ao lado de Jennifer,
a mãe enviuvada, àquela altura tomada pela depressão. Um fato, no entanto mudou
completamente a relação da menina com o tio.
Ela foi testemunha ocular de um crime que implicava
Hatchett, um gangster local, e só
quem conhecia a identidade da denunciante era o próprio Jim. Às vésperas do
julgamento, o detetive capitão do DPGC é capturado e sofre tortura para revelar
quem era o tal dedo duro. E aí mesmo quando a esposa e o filho pequeno são
ameaçados, ele não quebra diante do que estava em jogo e mantém-se firme; algo
que choca a mãe de Jimmy e, entregue ao desespero, a faz entregar o nome de
Barbara. Quase que paralelamente, Jennifer, dopada com antidepressivos, sofre um acidente de carro e morre.
Ao fim, o casamento de Jim Gordon termina e a filha
do seu irmão passa a ficar aos seus cuidados em Gotham. Olhando agora para a
história de Snyder, é difícil não imaginar que Jimmy, em tão tenra idade, não
tenha crescido com a imagem de um homem sendo executado a sangue frio bem na
sua frente, com o pai nu e acorrentado logo ao lado.
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A ambiguidade moral aliada a uma imprevisibilidade
crônica faz de Jimmy um
verdadeiro enigma a ser decifrado não só pelo pai, mas também por nós leitores que ficamos paralisados frente
à angústia de embustes recheados de psicologia reversa. Mais a frente, nossa
percepção é novamente testada quando se é sugestionado pelo próprio serial killer que teria sido ele o
catalisador da fatalidade advinda em A
Piada Mortal de Alan Moore e Brian Bolland. Segundo o próprio, além de ter informado o endereço de Bárbara ao Coringa, ele diz que lançou no ar a ideia de condená-la a uma cadeira de rodas. Claro que não dá para
interpretar isso ao pé da letra, já que dada a psicopatia do personagem, isso
soa mais como sadismo gratuito.
***
Figurinha fácil nas listas
de melhores histórias do Batman, curiosamente, Espelho Sombrio não é
sobre Bruce Wayne e, sim, sobre o seu primeiro protegido. Afinal, no período em
que fora publicada, estava em curso uma fase encabeçada por Grant Morrison onde o morcego assumia uma
faceta empreendedora: ele percorria o globo em busca de nações onde o crime
estava fora de controle e investia em indivíduos com potencial para ser o “Batman”
local. Então, enquanto o original estava fora nessa turnê mundial, Grayson
era, portanto, o Batman de Gotham City.
Penso que essa história acabou sendo uma das
maiores provações do Robin original
e, hoje, para fins de continuidade, dada as regressões ou inconsistências
temporais recentes, não sei dizer se Espelho Sombrio e seu “psicopata americano”
ainda existem para fins de Novos 52 e além. Traduzindo: Jimmy, tal como um gato
assustador, talvez tenha (ou não) entrado de volta numa caixa de Schrödinger.
Um
dia, quem sabe, ele volta. Para o bem dos leitores, para o mal dos personagens.