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domingo, 13 de abril de 2025

QUANDO OLIVER ERA UM CAÇADOR

“Al Muncy é o único herdeiro do império das Cervejas Muncy e suspeito de torturar e assassinar sete crianças de Seattle. Ele deveria estar sendo transferido para uma prisão em Washington, onde começaria a cumprir duas penas consecutivas de vinte anos por ter espancado brutalmente uma menina, em 1972. Porém, seus advogados emplacaram uma reviravolta ao conseguir um novo julgamento e, hoje, ao pagar uma fiança no valor de US$ 3 milhões, Al foi solto após dezoito anos. Ao libertar Muncy, a juíza Rachel Scrom estabeleceu normas rígidas. Ele permanecerá sob prisão domiciliar, confinado exclusivamente à propriedade de sua família, adjacente à cervejaria onde sua família fez fortuna. Uma fortuna que agora será gasta para defender um homem que muitos chamam de monstro!”

Esse é um dos relatos da imprensa noticiados nos recordatórios de Arqueiro Verde nº 1 (1988), de Mike Grell e Ed Hannigan. Annie, a pequena vítima que sobreviveu a Al, tornou-se, no presente, uma mulher adulta que, a um grande custo, deu a volta por cima e hoje atua como terapeuta de casais. É ela quem vem cuidando dos traumas emocionais de Dinah Lance, que se recupera do espancamento e, possivelmente, de um estupro sofrido na minissérie Os Caçadores (1988).

São temas viscerais, para não dizer indigestos. Numa outra continuidade, era o início de uma série mensal reverenciada, com toda a aura e apelo "Vertigo", porém, ainda assim, parte do Universo DC convencional. Muito embora, claro, existisse um lembrete onipresente nas (esplêndidas) capas de Greel: “recomendado para leitores adultos”.

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A passagem abaixo grita comigo: “no meu tempo é que era bom”.

Na continuidade atual, ouvi dizer que as histórias de Joshua Williamson para Oliver Queen giram em torno de dimensões paralelas e viagens temporais...

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Eh, não tem jeito: "no meu tempo é que era bom".

🎯🎯🎯

segunda-feira, 17 de março de 2025

A CULPA É SUA!

Fazendo uma rápida consulta na loja virtual da Panini, o preço (cheio) do omnibus da fase noventista do X-Factor comandada por Peter David é de R$ 349,90. Já os dois volumes gigantescos do Hulk assinados pelo mesmo, custam estratosféricos R$ 819,80. No lado da DC, as três edições capa dura de sua Supergirl correspondem a um investimento de R$ 424,70 e o vindouro Aquaman davidiano, em seu volume de estreia, “módicos” R$ 164,90.

Com alguns descontos de praxe e/ou parcelamentos mil, sua alma tende a ficar ligeiramente mais leve. Por outro lado, espero que ela – sim, a alma – pese bastante na hora de sacar o cartão de crédito e lembrar-se dessa foto acima do Sr. David.

O registro fotográfico encabeçou o artigo de Rich Johnston no Bleeding Cool, em 14 de março de 2025. O texto repercute a saúde fragilizada do escritor de 68 anos, pego para Judas em meio à insuficiência renal, derrames e um ataque cardíaco. Vítima de um país cujo capitalismo selvagem nutre um sonho (americano) que não permite a existência de algo como o (nosso) SUS, David se viu desamparado pelo Medicaid e, como sua esposa revela, está agora abandonado à própria sorte:

“A versão curta é que estamos nadando em dívidas médicas devido à rejeição de Peter para o Medicaid – o que era uma das poucas coisas que estava dando certo. Como muitos de vocês sabem, o seguro só paga até certo ponto. Uma vez que se tenha usado isso, depende-se dos serviços sociais para permitir que se viva sem ficar sem teto e sem dinheiro. É isso que o Medicaid tem feito nos últimos dois anos.”

O relato na íntegra de Kathleen David causa ainda mais desalento, e serve de apelo aos fãs numa campanha de financiamento coletivo para arrecadar US$ 150 mil. A julgar pelos mais de US$ 80 mil já doados, o prognóstico é de que nos próximos dias, felizmente, a meta seja atingida.

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Não que isso sirva para aliviar sua consciência. Ela deveria, sim, pesar e muito. Afinal, quando se paga por aqueles gibis lá em cima, por uma particularidade arcaica e predatória dos contratos work for hire (trabalho sob encomenda), os autores Marvel/DC não recebem royalties nas vendas de reimpressões realizadas fora dos Estados Unidos.

Isso ocorre por dois motivos: 1) as duas editoras majors vendem os direitos internacionais para outras empresas (como a Panini no Brasil), e essas republicações, obviamente, não fazem parte da tiragem original do quadrinho nos EUA; e 2) no mais das vezes, os acordos não incluem pagamentos sobre republicações internacionais.

Desse modo, os escritores e desenhistas não recebem percentuais sobre esses novos contratos, a menos que seja algo especificamente negociado. A exemplo do feito conseguido por Neil Gaiman em Sandman que, embora nunca revelado os termos exatos, tem-se como certo tanto o recebimento dele de royalties internacionais pelas vendas, quanto de dividendos consideráveis em torno de adaptações e merchandising. Insight parecido teve Rob Liefeld que, enquanto esteve na crista da onda durante a febre mutante dos anos noventa, conseguiu emplacar direitos sob o copyright de algumas criações em Novos Mutantes/X-Force: “Quando Deadpool explodiu no Fortnite, isso foi realmente bom para a educação privada dos meus filhos? Sim. Sim, foi. [...] Tenho fluxos de receita do Deadpool que existem desde 1991.”[1]

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Como David não conta mais com vigor para fazer aparições em eventos e a cognição deve estar agora em frangalhos após múltiplos AVCs, não consigo vê-lo produzindo novos roteiros para o seu empregador mais corriqueiro. Sem qualquer criação indie digna de nota, construindo uma carreira profícua, porém, majoritariamente atrelada a medalhões corporativos, é difícil crer que haverá uma reviravolta. Do mesmo modo que nunca houve para o grosso dos notáveis que criaram sem limites e, em algum momento futuro, esbarraram numa limitante realidade.[2]

O problema, entretanto, é que o leitor/consumidor não costuma dar bola para esses dilemas paradigmáticos da criação artística. Chega a ser ininteligível quando, por exemplo, a mão que acaricia a obra de Alan Moore, costuma ser a mesma que apedreja a animosidade do autor com a indústria do entretenimento e sua fome insaciável de buyout.

Reformulando para o espírito desse texto:

A mão que compra o omnibus do Hulk, é a mesma que faz vista grossa com o Peter David virando estatística na assistência social de Donald Trump.

Há que se botar a boca no trombone, mas mais importante que a(s) voz(es) solitária(s) do(s) autor(es), cabe ao leitor das “republicações internacionais” a iniciativa inédita de não pactuar mais com esse estado de coisas. Por mais quixotesco que isso possa parecer.

Não compre e veja a mágica acontecer.



[1] Especula-se que até 2024, Liefeld tenha lucrado entre US$ 10 milhões e US$ 20 milhões com sua cota-parte em Deadpool.

[2] Em Pulp, Ed Brubaker e Sean Phillips ilustraram um worst case scenario da experiência frustrante do primeiro em O Soldado Invernal, enredando uma trama onde um escritor de folhetim descobre que seu personagem não lhe pertence e não tem mais saúde ou finanças para seguir em frente. De repente, o ficcional Max Winters parece muito o verídico Peter David.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

BRAVOS & AUDAZES DE ONTEM, HOJE & AMANHÃ

Até que se prove o contrário, todo leitor engajado é um corneteiro capaz de emprestar o gogó à trombeta do apocalipse. Quer dizer, dentro de sua mente, se encontra as soluções para que uma editora saia criativa e financeiramente do buraco, o melhor line-up em um título, as mudanças que precisam ser feitas, seja avançando alguns passos, seja voltando outros.

Se eu fosse editor da DC Comics, confesso que seria uma espécie de capricho pessoal a luta pela manutenção do título O Bravo e o Audaz (The Brave and The Bold) nas solicitações dos lojistas, inclusive sob pena de reiterados fracassos de vendas. Quem tem alguma intimidade com a trajetória do Universo DC, sabe que diversos medalhões saíram daquelas páginas; como, por exemplo, o Esquadrão Suicida original (#25), a Liga da Justiça (#28), o Gavião Negro (#34), os Titãs (#54) ou o Metamorfo (#57).

Num mundo perfeito em que, no final das contas, sem importar tantos as conta$, sempre seria a liberdade criativa que vigoraria. Assim, um quadrinho que permitisse às equipes criativas uma chance de manipular personagens de um universo ficcional, fossem eles populares ou obscuros, indubitavelmente, ter-se-ia em mãos (sempre) um belo produto. Sei que não é desse jeito que a banda toca, mas, se eu tivesse voz e poder, O Bravo e o Audaz seria tombado como patrimônio histórico da DC Comics tal como são Action Comics e Detective Comics.

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A primeira encarnação do título (1955-1983) durou exatas duzentas edições e serviu de palco para verdadeiros monstros dos quadrinhos, entre eles, Robert Kanigher, Gardner Fox, Joe Kubert, Bob Haney, Neal Adams e Jim Aparo[1]. Já uma de suas versões mais recentes (2007-2010) fechou as portas com trinta e cinco números, sendo os últimos nove sob a chancela do roteirista J. M. Straczynski

É de conhecimento comum que o curto período em que o autor colaborou com a DC Comics foi tão conturbado quanto seus últimos instantes na Marvel. Vendo hoje a coisa em retrospectiva, até que entendo o lado do autor, mesmo que seja bastante amargo confiar numa série em que o capitão do barco tem o hábito de pular fora antes de seus passageiros. Controvérsias à parte, fato é que um currículo com O Povo da Meia-Noite, Poder Supremo e Surfista Prateado: Réquiem ainda têm cacife para comprar e sustentar sua credibilidade com o leitor.

Sua passagem por O Bravo e o Audaz senão é um de seus trabalhos mais inspirados, pelo menos entrega um produto digno dos melhores dias da revista. E isso, pelo menos para mim, foi o suficiente. No Brasil as edições que compreendem essa fase foram publicadas entre maio de 2010 e julho de 2011 na extinta Dimensão DC: Lanterna Verde #21-23, 31-35. Em agosto de 2011 foi lançada uma compilação que reproduziu na íntegra as edições originais (#27-35) sob o nome Team-ups of the Brave and the Bold. Como fã, não custa sonhar com um lançamento nacional desse encadernado[2].

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A morte de um herói (#27) → Ao furtar objetos de hóspedes de um quarto de hotel em Gotham, um bandido fajuto acaba se deparando com o artefato alienígena conhecido como Disco-H[3]. Similar a um disco de telefone analógico, o mesmo traz consigo dez símbolos que equivalem a letras do alfabeto terrestre. Ao girar o dispositivo, o indivíduo é instintivamente levado a discar a palavra “Herói”, o que lhe garante por 24hs o manejo de habilidades especiais e indumentárias a cada nova transformação. No conto em questão, Straczynski resgata das páginas de House of Mystery #156, o usuário original – e vítima do furto –, o adolescente Robby Reed. Por outro lado, Travers Milton, o gatuno que acaba acessando o poder do Disco-H, vive seu momento de redenção ao auxiliar o Batman em uma onda de crimes sincronizados e idealizados pelo Coringa.

Na linha de fogo (#28) → Numa visita com fins científicos à cidade de Bastogne, Bélgica, Barry Allen utiliza seus dons para ajudar um pesquisador local em um experimento com a velocidade da luz. Contudo, quando o feixe de luz e o monitor de medição interagem com sua frequência vibracional, o Flash é sugado por um vórtice que o faz voltar no tempo, arremessando-o precisamente no combate que deu notoriedade àquela região. Na ocasião, Barry acaba interferindo no conflito, deixando de lado sua identidade heroica para atuar como soldado ao lado dos Falcões Negros. No gibi, ele se machuca e passa um tempo até se recuperar; nesse ínterim, a dura realidade da 2ª Guerra Mundial se impõe frente ao seu juramento de não matar.

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Apostaria um frasquinho de chucrute que o longa animado da Sociedade da Justiça (2021), ambientado na 2ª Guerra, valeu-se exatamente desse enredo.

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Histórias perdidas de ontem, hoje e amanhã (#29) → O conto reapresenta o Irmão Poder, personagem que Joe Simon (Capitão América) criou no final da década de 1960 como um boneco de pano que ganha vida de modo similar ao Frankenstein de Mary Shelley. O que há de mais intrigante no personagem reside no fato de que, tal como Solomon Grundy[4], o Irmão Poder é também um Elemental “imperfeito”, simbolizando, nesse último caso, um totem das representações humanas em objetos. O caminho do boneco em questão – nessa versão, um manequim – cruza com o de Batman. No Brasil, a Panini republicou na coletânea Dias da Meia-Noite, de Neil Gaiman, uma história do Monstro do Pântano, “Irmãos”, estrelada pelo Irmão Poder no contexto da Vertigo.

O verde e o dourado (#30) → Considero não apenas a melhor dessa sequência, mas provavelmente uma das melhores histórias de super-heróis já escritas por Straczynski. E interessante que a narrativa se aproveita de uma deixa que ficou em banho-maria desde 1987 no desfecho do primeiro arco de histórias da LJI (#7) de Giffen, DeMatteis & Maguire. O team-up em foco ocorre quando Hal Jordan se vê acuado em um planeta sem vida, mas ao subestimar seu sistema defensivo, esgota praticamente toda a carga do anel energético e só Kent Nelson pode ajudá-lo. O problema é que o Senhor Destino original havia morrido há vários anos. Fino!

Pequenos problemas (#31) → Considero não apenas a pior dessa sequência, mas provavelmente uma das piores histórias de super-heróis já escritas por Straczynski. Sem piada, um remake de Viagem Insólita com Ray Palmer, tentando salvar a vida do Coringa, chega a ser mais inverossímil que o controverso Advogado do Diabo. Quer dizer, dá para relevar um Batman, amparado por um forte imperativo moral, tentando provar a inocência do arqui-inimigo num caso em que o vilão realmente não cometera um crime. Agora, esperar boa vontade dos outros numa missão para curá-lo de uma enfermidade...?! Pois é.

Deuses da noite (#32) → Jesus Saiz tem um traço elegante, bem aprazível aos olhos míopes desse velho leitor. É daqueles artistas que se espera que algum dia consiga uma colaboração que faça justiça a seu lápis, do mesmo modo como foi para Eduardo Risso com Brian Azzarello ou Tim Sale com Jeph Loeb. Para que uma parceria dessas surja e fique estampada no córtex alheio, é necessária a cominação de muitos fatores, mas o elemento sorte, indubitavelmente, me parece despontar na dianteira. A história dessa edição é visualmente impecável, mas se você já leu Namor: As Profundezas, de Peter Milligan e Esad Ribic, sabe que aquela conjunção inusitada de forças entre Aquaman e Etrigan poderia ter rendido mais.

Para piorar, nunca fez sentido para mim o uso de balões de diálogos no meio aquático, ou melhor, o fato dos atlantes vocalizarem dentro d’água como se estivessem na superfície.

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Off-topic, mas nem tanto:

Logo, por mais instigante que seja o roteiro, ao se ignorar o fator comunicação submarina, a história sofre um revés na suspensão de descrença. Pareço bobo, eu sei, mas desculpa, não dá. Claro, tem sempre o risco de que o Maravilhoso em Aquaman remete - por que não? - ao maravilhoso literário, das fábulas e contos de fadas, onde o sobrenatural pode ser factível porque o leitor abraça a convenção da narrativa; o que torna inteligível a existência do impossível, como o caso de animais falantes.

Entretanto, creio que um criador poderia pensar em alternativas mais práticas. Um bom exemplo está na Liga do Zack Snyder, mais precisamente quando Mera cria um bolsão de ar para conversar com Arthur. Outra solução seria usar a telepatia do Aquaman – dirigida à fauna marinha – para se comunicar com seus semelhantes. Nesses dois casos, já renderia um bom caldo de peixe.

Na verdade, não raro, nos deparamos com recursos narrativos que driblam limitações vocálicas dos personagens, entregando quadrinhos sofisticados, que transformam o portador de necessidades especiais em alguém que tem bastante a dizer, mas de um jeito pouco usual.

Para fundamentar isso, vou usar o Clint Barton de Matt Fraction que, em determinado momento, fica surdo e passa a se comunicar por linguagem de sinais; o roteiro de Matt Fraction vai até mais longe com Lucky, o cão de Clint, que tem balões simulando via símbolos como ele, supostamente, compreende o mundo ao seu redor. Com Raio Negro, o buraco é até mais embaixo, já que se trata de personagem cujo poder destrutivo da voz impele um automutismo que, se bem aproveitado, rende até Eisner; e no cinema, Oscar de melhor filme. Esse tipo de contexto, que desafia convenções linguísticas e/ou se adapta às dificuldades sensoriais dos falantes, tem cacife para oferecer uma experiência única, fora da caixinha – ou do aquário.

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A noite das mulheres (#33) → Como sugere o título da história, o team-up aqui parte de um happy hour entre Batgirl, Mulher-Maravilha e Zatanna. Essa noite é justamente a da véspera de A Piada Mortal, o que a marca pelos extremos do dia seguinte: em 24hs, Barbara vai de um dos momentos mais felizes da vida para, indiscutivelmente, o seu pior.

Fora do tempo (#34-35) → São dois “one-shots” que se complementam: o primeiro une os três legionários originais, Garth Ranzz (Relâmpago), Rokk Krinn (Cósmico) e Imra Ardeen (Satúrnia) com a Patrulha do Destino; já o segundo, une – ou melhor, passa perto de “unir” – os dois primeiros grupos com a Legião dos Super-Heróis Substitutos e o Quinteto Inferior.

Basta dizer que essa última edição (#35) é uma das mais engenhosas e divertidas tramas de viagens temporais que já tive a oportunidade de ler, sendo, também, por que não, (mais) um canto do cisne para a revista, ainda que irreverente.

Não custa lembrar que isso só ocorreu por não ser eu quem dá as cartas na DC.

[1] A Panini publicou uma coleção de Lendas do Cavaleiro das Trevas com parte da trajetória do Batman ilustrado por Aparo, sendo que a maioria absoluta das edições compiladas perpassa exatamente a produção desse artista em O Bravo e o Audaz.

[2] Custou um pouco e o custo está bem salgado, mas, no dia da atualização desse texto, 2 de abril de 2024, está em pré-venda na loja virtual da Panini o respectivo encadernado.

[3] Em 2003, o roteirista Will Pfeifer esteve a frente de um ótimo revival desse conceito. Uma pena que não chegou a sair no Brasil por meios oficiais.

[4] Grundy é um Elemental "imperfeito" da Terra, posto, por sinal, ocupado pelo Monstro do Pântano.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

DENSIDADE DEMOGRÁFICA

Mais que uma locação onde o arquétipo herói vivencia sua rotina, a urbe de Batman, Gotham City, com o tempo e a alternância das equipes criativas, se tornou quase um personagem à parte na mitologia do personagem. Um organismo vivo que entre arranha-céus e camadas de concreto armado, corroídos e esquecidos pelo tempo, absorve a essência dos seus munícipes. Assim como a Central City de Will Eisner, cidade de Spirit, combatente do crime mascarado, alter ego de Denny Colt, e tantos outros personagens secundários, Gotham transcende o conceito de cenografia e passa a se estabelecer como um formato. Um formato ideal para tecer contos poéticos de seres marginais na grande metrópole.

Fã confesso que sou do Eisner, foi irresistível não cometer a heresia de relacionar sua urbe maior – depois de Nova Iorque, vai?! – com uma Gotham sob a perspectiva de Scott Snyder, atual roteirista do título homônimo e carro-chefe de Batman. Quer dizer, nas narrativas desse escritor, fica visível a olho nu toda a sorte de implicações e privações que os gothamitas têm que se desvencilhar no cotidiano para vencerem incógnitos às armadilhas da própria cidade. Abraçado pela crítica especializada e alçado ao nível de clássico instantâneo, seu debute, o arco Espelho Sombrio, sobressaiu todos os superlativos possíveis e imagináveis.

Publicado originalmente na revista Detective Comics entre as edições nº 871-881 em 2011, saiu no Brasil pela finada A Sombra do Batman nº 18-23 (1ª Série).

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Com a colaboração dos artistas, Marc "Jock" Simpson e Francesco Francavilla, Snyder construiu em o Espelho Sombrio uma ode à Gotham City, lidando especificamente com as idiossincrasias das personas vividas por Dick Grayson e James Gordon, relativizando suas desventuras particulares ao campo magnético soturno que os limites da cidade exerce sobre seus habitantes. Para tanto, uma subtrama salta aos olhos, costurada em meio a dois enredos: 1) um sobre leilões dirigidos a aristocratas das classes abastadas, ofertando-lhes artigos exóticos e utensílios outrora manejados pelo casting de antagonistas de Batman, e 2) o outro em relação às ameaças que uma banqueira vem recebendo por ser filha de Tony Zucco, um mafioso de estirpe e assassino confesso dos pais de Dick.

Já na referida subtrama, esculpida à conta gotas em histórias curtas ilustradas por Francavilla, somos reapresentados a um personagem clássico que nasceu, literalmente, no Ano Um de Frank Miller e David Mazzucchelli. Estou falando de James Gordon Júnior, o primogênito do Comissário Gordon, nascido nas páginas daquela obra seminal e alvo do atentado que tomou o clímax da história. Não lembra? Aquele bebê que fora arremessado da ponte por Johnny Falcone e apanhado por Batman à luz do dia e à paisana. De lá para cá, parece que ninguém nunca havia se dado ao trabalho de contar o que havia ocorrido com o guri, e talvez seja por isso que a história nova te pega no pulo.

Jimmy reaparece em Espelho Sombrio já como um jovem adulto, encarado com desconfiança e temor pela própria família. Não sem razão, na intimidade, o Gordon caçula é uma representação tridimensional tão perturbadora da maldade que ele teria cacife para ficar numa mesma mesa de boteco com o Coringa e o Zsasz. Detentor de um histórico assustador, Jimmy é a exacerbação do termo "ovelha negra", sendo que seu estado mental era uma velha pulga atrás da orelha do Comissário Gordon, dada a violência da célebre queda e a possibilidade daquilo ter interferido na química cerebral do recém-nascido. Vai saber?

Suposições à parte, o mote desse regresso também traz à tona feridas nunca cicatrizadas, tanto do pai, quanto da meia-irmã, Bárbara, e levadas às últimas consequências no magistral conto Garotos Perdidos, publicado em Detective Comics nº 875. Brincando com a percepção do leitor, Snyder divide a história em duas frentes, quais sejam: uma, na infância, em um distante final de semana em família numa casa de campo; e a outra, confrontando os instintos policiais de Gordon sobre o desaparecimento de uma amiga de Bárbara no período anteriormente relatado e um caso de arquivo morto.

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Off-topic, mas nem tanto:

No arco Lealdades, de John Ostrander e David Lopez, publicado em Legends of the Dark Knight nº 159-161 – inédito no Brasil –, temos um vislumbre que sugere outro trauma da infância de Jimmy. Trata-se de um conto ligeiramente posterior a Ano Um, no qual apresenta a premissa que levou à adoção da sobrinha Barbara Gordon – então filha de Roger, irmão mais novo do Comissário. Ambientada em Chicago, o enredo mostra a futura Batgirl levando a vida ao lado de Jennifer, a mãe enviuvada, àquela altura tomada pela depressão. Um fato, no entanto mudou completamente a relação da menina com o tio.

Ela foi testemunha ocular de um crime que implicava Hatchett, um gangster local, e só quem conhecia a identidade da denunciante era o próprio Jim. Às vésperas do julgamento, o detetive capitão do DPGC é capturado e sofre tortura para revelar quem era o tal dedo duro. E aí mesmo quando a esposa e o filho pequeno são ameaçados, ele não quebra diante do que estava em jogo e mantém-se firme; algo que choca a mãe de Jimmy e, entregue ao desespero, a faz entregar o nome de Barbara. Quase que paralelamente, Jennifer, dopada com antidepressivos, sofre um acidente de carro e morre.

Ao fim, o casamento de Jim Gordon termina e a filha do seu irmão passa a ficar aos seus cuidados em Gotham. Olhando agora para a história de Snyder, é difícil não imaginar que Jimmy, em tão tenra idade, não tenha crescido com a imagem de um homem sendo executado a sangue frio bem na sua frente, com o pai nu e acorrentado logo ao lado.

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A ambiguidade moral aliada a uma imprevisibilidade crônica faz de Jimmy um verdadeiro enigma a ser decifrado não só pelo pai, mas também por nós leitores que ficamos paralisados frente à angústia de embustes recheados de psicologia reversa. Mais a frente, nossa percepção é novamente testada quando se é sugestionado pelo próprio serial killer que teria sido ele o catalisador da fatalidade advinda em A Piada Mortal de Alan Moore e Brian Bolland. Segundo o próprio, além de ter informado o endereço de Bárbara ao Coringa, ele diz que lançou no ar a ideia de condená-la a uma cadeira de rodas. Claro que não dá para interpretar isso ao pé da letra, já que dada a psicopatia do personagem, isso soa mais como sadismo gratuito.

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Figurinha fácil nas listas de melhores histórias do Batman, curiosamente, Espelho Sombrio não é sobre Bruce Wayne e, sim, sobre o seu primeiro protegido. Afinal, no período em que fora publicada, estava em curso uma fase encabeçada por Grant Morrison onde o morcego assumia uma faceta empreendedora: ele percorria o globo em busca de nações onde o crime estava fora de controle e investia em indivíduos com potencial para ser o “Batman” local. Então, enquanto o original estava fora nessa turnê mundial, Grayson era, portanto, o Batman de Gotham City. 

Penso que essa história acabou sendo uma das maiores provações do Robin original e, hoje, para fins de continuidade, dada as regressões ou inconsistências temporais recentes, não sei dizer se Espelho Sombrio e seu “psicopata americano” ainda existem para fins de Novos 52 e além. Traduzindo: Jimmy, tal como um gato assustador, talvez tenha (ou não) entrado de volta numa caixa de Schrödinger.

Um dia, quem sabe, ele volta. Para o bem dos leitores, para o mal dos personagens.

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