Mostrando postagens com marcador Jim Gordon. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jim Gordon. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de maio de 2024

DOIS DISPAROS: VOTOS & IMAGENS

Numa tradução grosseira, a terminologia “one-shot” quer dizer “um disparo”. Na minha cabeça, a expressão vem acompanhada da imagem do T-800 em cima da Harley, atirando com a Winchester 1887 de cano cerrado. Arnold merecia o Oscar 92 só por causa daquela girada cheia de charme, ainda que ela fosse uma homenagem ao Peregrino.

Antes que isso vire um texto sobre o Exterminador do Futuro 2, gostaria logo de dizer que nos quadrinhos, o one-shot é o sal da vida. Aquele gibi maroto com início, meio e fim que, além de se resolver em si mesmo, deixa seu leitor livre e desimpedido para seguir com sua vida. Algo, por sinal, cada vez mais raro, já que os autores contemporâneos sempre estão priorizando arcos longos ou, se muito, produzindo histórias curtas para antologias; o que não é a mesma coisa[1].

Até dei uma olhadinha por aí, para ver se o termo nas HQs tem uma origem exata e atribuível a alguém, mas parece mesmo que one-shot foi importado da indústria cinematográfica e televisiva. Por trás das câmeras, o nome diz respeito a uma produção que é concluída numa única sessão ou episódio. Nos comics, é provável que surgiu no calor da Era de Ouro (1930-1950), naquele afã editorial em busca de formatos e novos estilos de publicação.

Em outra vida, eu cheguei a inaugurar uma seção só para falar sobre historinhas assim. Por que estou trazendo isso à tona?

----------

A edição contempla as duas artes acima, sendo a do Casamento (Michael Netzer) usada na 4ª capa.

Por esses dias, recebi a 1ª edição da nova temporada de A Saga do Batman, e eis que no miolo, no cantinho da página 84, após uma interação entre Jim Gordon e Sarah Essen, somos informados via nota de rodapé que o casal havia se casado. O detalhe é que o editor do volume te avisa que a Panini não publicou o matrimônio, mas você pode encontrar a dita revista em Batman Anual nº 3, da Abril.

Foi isso mesmo que você leu: um quadrinho publicado em novembro de 1994, quase 30 anos atrás. Só que o detalhe maior é que a relação turbulenta entre o Comissário e a Sargento não foi algo en passant, superficial, explorada rapidamente numa passagem digna de Troféu Cata-Piolho e ficou por isso mesmo. Pelo contrário. Trata-se de um affair iniciado lá atrás em Ano Um de Frank Miller e David Mazzucchelli, e desde que Dennis O’Neil ganhou o status de editor da linha do morcego, sempre esteve na ribalta. Não por acaso, em 1992, é o próprio Denny quem escreve Votos, o conto em que os dois urubus pombinhos resolveram trocar alianças[2].   

Publicado originalmente em Legends of the Dark Knight Annual nº 2, com arte de Michael Netzer, passou-se toda uma década desde aquele beijo numa noite chuvosa. O primeiro casamento de Jim foi pelo ralo, não exatamente pelo caso extraconjugal com Sarah, mas pela devoção do então Capitão aos seus princípios éticos; ao ponto de colocar em xeque a própria vida de Jimmy Júnior. Em Votos, a história começa com Sarah provando um vestido de noiva na frente de Jim e, como diz a tradição, isso costuma dar azar. Flass, o ex-detetive, denunciado e expulso do DPGC por corrupção, reaparece vingativo, dizendo ter sequestrado o menino Jimmy e, para libertá-lo, quer que o pai lhe entregue as provas que implicavam o Juiz Liptic em negociatas.

O lance é que o Juiz sujo era candidato a prefeito de Gotham e a eleição ocorreria dali a oito horas. Mesmo ao custo da vida do filho, Jim segue resoluto e não quer entregar o material a Flass; ou melhor, até entregará, mas não antes de enviar cópias anônimas para veículos de imprensa. Vale dizer, um risco pessimamente calculado. O fato, porém, é que esse drama azeda ainda mais o desejo do Comissário de se ver casado novamente. E pensando bem, isso só ocorreu[3] porque ele imaginava que estariam mortos dali a alguns instantes.

Em 58 páginas, o Batman só aparece por volta da 30ª, no que seria o último choque ideológico com a noiva, tornando-se um padrinho acidental e, instintivamente, contrário à união com seu maior aliado. Se tivesse deixado de lado o coração e dado ouvidos à razão, talvez numa leitura sensata daquele homem alquebrado, eu creio que o destino final da futura Sarah Essen Gordon poderia ter sido bem diferente.

Aos 13 de idade, Votos era só mais um gibizão do Batman. Aos 42, penso que aquilo foi a primeira vez que interagi com uma relação tóxica. Ou, vá lá, talvez era só algo maduro e endurecido, que não se quebraria tão facilmente.

----------

Falando em primeira vez, isso também é o que anuncia a capa da outra história de Batman Anual nº 3: “o primeiro contato com o Coringa”.

Normalmente, dado o tamanho da superexposição do vilão nos últimos tempos, eu já me dou por satisfeito de HQs com sua onipresença. Não obstante, como o objetivo era reler a respectiva edição da Editora Abril, me obriguei a tanto. Na realidade, a quem quero enganar, foi trabalho nenhum. Acabei fazendo outra viagem no tempo.

Imagens saiu lá fora em Legends of the Dark Knight nº 50 (1993), novamente com Dennis O’Neil e agora com a arte de Bret Blevins. Se a história Votos estava alinhada à trama de Ano Um, por coincidência ou não, a segunda remetia A Piada Mortal, o clássico-mor do Palhaço do Crime. Só que em 94, eu estava a 5 anos de ler pela primeira vez a obra-prima de Alan Moore e Brian Bolland, mais precisamente na reedição de 99.

Então, vejam vocês, minha leitura original de Piada foi mediada com o que tinha visto em Imagens. Mas do que trata finalmente essa história?

Era a primeira[4] vez desde Batman nº 1 (1940) que a estreia do Coringa seria recontada para novos leitores. A linha-guia manteve-se intacta com o psicopata envenenando à distância figurões da sociedade gothamita. Não obstante, O’Neil inova trazendo a figura de um suposto primo com histórico de doença mental, que teria sido o criador do famoso composto químico que mata suas vítimas sorrindo.  

Além disso, o saudoso roteirista acrescenta uma triste ironia, que levaria Bruce a se culpar mais tarde. Como estamos no princípio do ano dois, o Batman está longe de ser o super-herói infalível de hoje e, eis que logo no comecinho, ao invadir o covil de bandidos pés-de-chinelo, ele deixa o Coringa sair da cena do crime sem se tocar que aquele era o mesmo homem descrito por Jim em duas oportunidades[5].

***

Um equívoco que custaria várias vidas no decorrer da(s) história(s).

***

Enfim, cheguei a sugerir ao responsável pela edição de A Saga do Batman que, pelo menos, Votos saísse em algum dos próximos números, mesmo que de forma extemporânea. Se ele leu o tuíte, nunca saberei. Que comeu bola, esquecendo dessa historinha, eu seria capaz de apostar.

O grande plot twist é que não tenho esse gibi. O exemplar que tive acesso, na época mesmo do lançamento, pertencia a um amigo. Hoje, provavelmente, ele sequer deve se lembrar que possuiu essa revista. Eu, por outro lado, era a cópia descarada daquele guri de Criminal. Na verdade, ainda sou, a diferença agora é que estou disposto a pagar o que aquele filho da mãe está cobrando.

*** 

Link Afiliado


[1] Se for agora mesmo ver a lista de indicados ao Eisner 2024, poderá conferir em primeira mão que existem categorias tanto para histórias curtas (Best Short Story) quanto one-shots (Best Single Issue).

[2] Mais ou menos... O negócio foi bastante complicado, sobretudo para a Sarah.

[3] E veja só: o Juiz de Paz que celebrou o casamento foi o mesmo cuja reputação iria para a vala quando os registros e gravações viessem à tona. Outro detalhe cabuloso é que Sarah passa a edição inteira trajada com o vestido de noiva e uma jaqueta do DPGC. Casca grossa é pouco!

[4] Pelas minhas contas, Imagens foi a primeira de três versões, sendo a segunda O Homem que Ri (2005), de Ed Brubaker e Doug Mahnke; e A Carta Vencedora (2023), de Tom King e Mitch Gerads, como a terceira.

[5] Uma vez no final de Ano Um e a outra aqui, em Imagens.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

DENSIDADE DEMOGRÁFICA

Mais que uma locação onde o arquétipo herói vivencia sua rotina, a urbe de Batman, Gotham City, com o tempo e a alternância das equipes criativas, se tornou quase um personagem à parte na mitologia do personagem. Um organismo vivo que entre arranha-céus e camadas de concreto armado, corroídos e esquecidos pelo tempo, absorve a essência dos seus munícipes. Assim como a Central City de Will Eisner, cidade de Spirit, combatente do crime mascarado, alter ego de Denny Colt, e tantos outros personagens secundários, Gotham transcende o conceito de cenografia e passa a se estabelecer como um formato. Um formato ideal para tecer contos poéticos de seres marginais na grande metrópole.

Fã confesso que sou do Eisner, foi irresistível não cometer a heresia de relacionar sua urbe maior – depois de Nova Iorque, vai?! – com uma Gotham sob a perspectiva de Scott Snyder, atual roteirista do título homônimo e carro-chefe de Batman. Quer dizer, nas narrativas desse escritor, fica visível a olho nu toda a sorte de implicações e privações que os gothamitas têm que se desvencilhar no cotidiano para vencerem incógnitos às armadilhas da própria cidade. Abraçado pela crítica especializada e alçado ao nível de clássico instantâneo, seu debute, o arco Espelho Sombrio, sobressaiu todos os superlativos possíveis e imagináveis.

Publicado originalmente na revista Detective Comics entre as edições nº 871-881 em 2011, saiu no Brasil pela finada A Sombra do Batman nº 18-23 (1ª Série).

***

Com a colaboração dos artistas, Marc "Jock" Simpson e Francesco Francavilla, Snyder construiu em o Espelho Sombrio uma ode à Gotham City, lidando especificamente com as idiossincrasias das personas vividas por Dick Grayson e James Gordon, relativizando suas desventuras particulares ao campo magnético soturno que os limites da cidade exerce sobre seus habitantes. Para tanto, uma subtrama salta aos olhos, costurada em meio a dois enredos: 1) um sobre leilões dirigidos a aristocratas das classes abastadas, ofertando-lhes artigos exóticos e utensílios outrora manejados pelo casting de antagonistas de Batman, e 2) o outro em relação às ameaças que uma banqueira vem recebendo por ser filha de Tony Zucco, um mafioso de estirpe e assassino confesso dos pais de Dick.

Já na referida subtrama, esculpida à conta gotas em histórias curtas ilustradas por Francavilla, somos reapresentados a um personagem clássico que nasceu, literalmente, no Ano Um de Frank Miller e David Mazzucchelli. Estou falando de James Gordon Júnior, o primogênito do Comissário Gordon, nascido nas páginas daquela obra seminal e alvo do atentado que tomou o clímax da história. Não lembra? Aquele bebê que fora arremessado da ponte por Johnny Falcone e apanhado por Batman à luz do dia e à paisana. De lá para cá, parece que ninguém nunca havia se dado ao trabalho de contar o que havia ocorrido com o guri, e talvez seja por isso que a história nova te pega no pulo.

Jimmy reaparece em Espelho Sombrio já como um jovem adulto, encarado com desconfiança e temor pela própria família. Não sem razão, na intimidade, o Gordon caçula é uma representação tridimensional tão perturbadora da maldade que ele teria cacife para ficar numa mesma mesa de boteco com o Coringa e o Zsasz. Detentor de um histórico assustador, Jimmy é a exacerbação do termo "ovelha negra", sendo que seu estado mental era uma velha pulga atrás da orelha do Comissário Gordon, dada a violência da célebre queda e a possibilidade daquilo ter interferido na química cerebral do recém-nascido. Vai saber?

Suposições à parte, o mote desse regresso também traz à tona feridas nunca cicatrizadas, tanto do pai, quanto da meia-irmã, Bárbara, e levadas às últimas consequências no magistral conto Garotos Perdidos, publicado em Detective Comics nº 875. Brincando com a percepção do leitor, Snyder divide a história em duas frentes, quais sejam: uma, na infância, em um distante final de semana em família numa casa de campo; e a outra, confrontando os instintos policiais de Gordon sobre o desaparecimento de uma amiga de Bárbara no período anteriormente relatado e um caso de arquivo morto.

-----------------

Off-topic, mas nem tanto:

No arco Lealdades, de John Ostrander e David Lopez, publicado em Legends of the Dark Knight nº 159-161 – inédito no Brasil –, temos um vislumbre que sugere outro trauma da infância de Jimmy. Trata-se de um conto ligeiramente posterior a Ano Um, no qual apresenta a premissa que levou à adoção da sobrinha Barbara Gordon – então filha de Roger, irmão mais novo do Comissário. Ambientada em Chicago, o enredo mostra a futura Batgirl levando a vida ao lado de Jennifer, a mãe enviuvada, àquela altura tomada pela depressão. Um fato, no entanto mudou completamente a relação da menina com o tio.

Ela foi testemunha ocular de um crime que implicava Hatchett, um gangster local, e só quem conhecia a identidade da denunciante era o próprio Jim. Às vésperas do julgamento, o detetive capitão do DPGC é capturado e sofre tortura para revelar quem era o tal dedo duro. E aí mesmo quando a esposa e o filho pequeno são ameaçados, ele não quebra diante do que estava em jogo e mantém-se firme; algo que choca a mãe de Jimmy e, entregue ao desespero, a faz entregar o nome de Barbara. Quase que paralelamente, Jennifer, dopada com antidepressivos, sofre um acidente de carro e morre.

Ao fim, o casamento de Jim Gordon termina e a filha do seu irmão passa a ficar aos seus cuidados em Gotham. Olhando agora para a história de Snyder, é difícil não imaginar que Jimmy, em tão tenra idade, não tenha crescido com a imagem de um homem sendo executado a sangue frio bem na sua frente, com o pai nu e acorrentado logo ao lado.

-----------------

A ambiguidade moral aliada a uma imprevisibilidade crônica faz de Jimmy um verdadeiro enigma a ser decifrado não só pelo pai, mas também por nós leitores que ficamos paralisados frente à angústia de embustes recheados de psicologia reversa. Mais a frente, nossa percepção é novamente testada quando se é sugestionado pelo próprio serial killer que teria sido ele o catalisador da fatalidade advinda em A Piada Mortal de Alan Moore e Brian Bolland. Segundo o próprio, além de ter informado o endereço de Bárbara ao Coringa, ele diz que lançou no ar a ideia de condená-la a uma cadeira de rodas. Claro que não dá para interpretar isso ao pé da letra, já que dada a psicopatia do personagem, isso soa mais como sadismo gratuito.

***

Figurinha fácil nas listas de melhores histórias do Batman, curiosamente, Espelho Sombrio não é sobre Bruce Wayne e, sim, sobre o seu primeiro protegido. Afinal, no período em que fora publicada, estava em curso uma fase encabeçada por Grant Morrison onde o morcego assumia uma faceta empreendedora: ele percorria o globo em busca de nações onde o crime estava fora de controle e investia em indivíduos com potencial para ser o “Batman” local. Então, enquanto o original estava fora nessa turnê mundial, Grayson era, portanto, o Batman de Gotham City. 

Penso que essa história acabou sendo uma das maiores provações do Robin original e, hoje, para fins de continuidade, dada as regressões ou inconsistências temporais recentes, não sei dizer se Espelho Sombrio e seu “psicopata americano” ainda existem para fins de Novos 52 e além. Traduzindo: Jimmy, tal como um gato assustador, talvez tenha (ou não) entrado de volta numa caixa de Schrödinger.

Um dia, quem sabe, ele volta. Para o bem dos leitores, para o mal dos personagens.

*** 

Link Afiliado