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terça-feira, 1 de abril de 2025

UM BOM HERÓI SEMPRE MORRE

Não tem jeito. O grande momento do herói é o sacrifício final em prol de outrem. E no caso da sequência abaixo - de DC Um Milhão nº 3, de Grant Morrison e Val Semeiks -, cinco minutos atrás, o sujeito sequer estava do lado certo da história. Seja com "h" minúsculo ou "H" maiúsculo.

Falo de Farris Knight, o Starman do século 853, hedonista, traidor convicto, guardião de Solaris, o sol tirano; que ao hesitar em assassinar Ted Knight, o Starman sênior do século 20, vê uma vida de possibilidades que poderia ter sido sua[1].

Um belo clichê que sempre funciona comigo.



[1] Historinha devidamente discutida em Os Escapistas – Starman #6: Outros Tempos Passados.

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

FRACASSO DE PÚBLICO

De nossa última transmissão para cá, eu voltei com o rabo entre as pernas para o Twitter, Trump[1] venceu a agenda “woke”, trinta e poucos aloprados foram indiciados, provou-se que Putin é um robô e, no lado de cá, preciso admitir que fui fraco e curti Absolute Batman nº 1. Me sinto tão mal com isso que, toda vez que fecho os olhos, vejo um Dennis O’Neil cabeludo me julgando.

Sim, parece que estava de férias do blog, sem redigir nada, mas foi justo o contrário. Recentemente, no lado d’os Escapistas, nós concluímos as gravações da nossa série dedicada ao Starman. No total, para vencermos as oitenta edições, especiais e minisséries, foram necessários oito episódios; separados por meses e até anos para concluirmos tudo. Enquanto dura essa fase de (re)leituras, pesquisa, anotações, redação de pautas e, finalmente, o plugue conjunto de microfones com o elenco, os brutos já produzidos ficam salvos e intocados. Com a minha paranoia, mantenho tudo em HDs externos, DVDs de dados e drives na nuvem.

Consequentemente, a solitária fase de edição e tratamento dos áudios só começa quando me dou por satisfeito nesses atos preparatórios. A “pós-produção” já foi mais light, e agora me demoro demais justo pelos dissabores oficiosos da vida cotidiana. O déjà vu não é por acaso, visto que sempre entro numa espiral doida de mau humor quando uma série, de fato, conclui, tendo publicado todos os episódios. Dessa vez, acrescentei um ingrediente à mistura que piorou minhas crises existenciais.

Guarde esse pensamento.

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Não sou o maior fã de Chip Zdarsky. Em termos de Batman, eu acho que ele tem entregado se não o pior, certamente um dos piores runs que já li do personagem. Dos Novos 52 para cá, não tenho a menor dúvida. É o pior.

Posto isso, nesse meio-tempo que sumi, encarei Domínio Público, uma obra totalmente autoral desse roteirista/desenhista. É outro Zdarsky. Um que te dá a exata noção do mal-estar que atravessa a atual geração de criadores em meio a editoras majors. O temor de, inadvertidamente, criar um “Soldado Invernal” e ter que lidar com as mesmas frustrações que Ed Brubaker.

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Se estavas em Marte em 2021, à época da estreia da minissérie de Sam & Bucky no Disney+, Brubaker fez um desabafo na sua newsletter, a princípio rasgando elogios as pessoas de Anthony Mackie e Sebastian Stan...

“[...] mas, ao mesmo tempo, na maior parte, tudo o que Steve Epting e eu recebemos por criar o Soldado Invernal e seu enredo é um 'obrigado' aqui e ali, e ao longo dos anos isso se tornou cada vez mais difícil de conviver. Vi até altos escalões do lado editorial tentando levar o crédito pelo meu trabalho algumas vezes, o que foi bem irritante (para deixar claro, NÃO estou falando de Tom Breevort, que foi um ótimo editor e muito prestativo). Então, sim, sentimentos mistos, e talvez seja sempre assim (mas espero que não). Trabalho por encomenda é o que é, e sinceramente estou emocionado por ter cocriado algo que se tornou uma parte tão grande da cultura pop - ou mesmo da subcultura pop com toda a ficção slash Bucky-Steve - e aquela temporada no Cap, enquanto fazia quadrinhos de super-heróis, foi um dos momentos mais felizes da minha carreira. Além disso, tenho uma ótima vida como escritor e muito disso é por causa do Cap e o Soldado Invernal trazendo tantos leitores para meus outros trabalhos. Mas também não posso negar que às vezes me sinto um pouco enjoado quando minha caixa de entrada enche de pessoas querendo comentários sobre o programa."

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Voltando para o presente, ou melhor, para Domínio Público, o enredo de Zdarsky vai ao encontro exatamente desse medo contemporâneo de não ser dono do seu trabalho. Na realidade, esse nem é o dilema do desenhista Syd Dallas. É o da esposa e dos filhos, que descobrem que um super-herói criado na juventude do artista, ao contrário do que acredita a multinacional que o explora economicamente, pertence ao seu marido/pai.

Adoraria falar mais sobre, mas para os fins desse texto, o que ficou de verdade comigo foram três páginas. Elas mostram que Syd, mesmo sabendo a verdade, teme o alvoroço jurídico e o entrechoque com os publishers, dos quais sempre nutriu uma relação profissional amistosa. Contudo, o que ele não percebe é que o seu trabalho teve um alto custo na vida pessoal, e quem pagou a conta foram os entes queridos. Então, lutar pela aquela propriedade intelectual é um dever por aqueles que sempre estiveram no andar de cima, aguardando pacientemente [ou não] o término daquelas artes:

Taí... O Zdarsky me pegou nessa. Tanto que não tive como não trazer para minha própria realidade. Quer dizer, quantas vezes me peguei diminuindo o valor do meu trabalho, seja o oficial, que lida com os boletos, seja o que faço n’os Escapistas...?! E eis que, na esteira de Domínio Público, quando faço isso, percebi que não sou o único que está pagando essa conta, são as pessoas que contam comigo.

É sempre o problema de precificar algo tão do nosso cotidiano, que sequer imaginamos que do outro lado, quem está produzindo, encara aquilo como um trabalho e ficaria muito feliz que sua tapinha nas costas lhe rendesse alguns trocados. Inclusive, pensei nisso enquanto lia o e-mail do Érico Assis, tentando motivar os leitores de sua newsletter a pagar por uma assinatura. Acho justíssimo.

Por aqui, queria ver também se conseguia levantar um tutu para arcar com alguma despesa d’os Escapistas, e a forma que arrumei foi utilizar minhas anotações e materiais de pesquisa como encartes dos programas. Na estreia de Starman – nesse momento com dois episódios publicados –, lancei esses encartes como E-Books do Amazon Kindle. Cada um dos oito podcasts acompanhará um encarte do que chamei de Noites Estreladas.

Foi isso que me afastou do Pulse. A edição dos programas e a reescrita[2] dessas anotações. Algo que vem me consumindo... e me frustrando mais do que o habitual. Por que motivo, você me pergunta. Porque nossa audiência é razoável para um podcast de quadrinhos, e pior que isso, um podcast completamente especializado, que foca em séries longas e passa até meses sem que outra se inicie.

Um episódio nosso tem em torno de 600... 800 plays. Um número irrisório para um canal de YouTube, mas para o nosso microcosmo, é até uma audiência razoável. Não raro, Os Escapistas figura nas paradas nacionais do seguimento Hobbies; vale dizer, até em paragens internacionais, ganhando algum destaque entre nossos irmãos lusitanos.

Logo, vejam meu raciocínio: cada um dos Noites Estreladas custa apenas R$ 2,00. Vamos combinar que é um valor simbólico, do qual faço questão de mencionar que funcionaria como um apoio ao programa, já que não temos condições de manter uma campanha de financiamento em Catarse ou congêneres. Para ser franco, foi o único meio que consegui viabilizar para arrecadar algo, tendo em vista que a periodicidade é bem esporádica, quase como se fizéssemos séries/antologias documentais sobre temas específicos. Também não é algo que mudará minha vida financeira, tampouco conto com isso, mas dá um trabalho daqueles.

Nos dois primeiros programas, faço questão de pedir com todas as palavras o apoio do ouvinte que gosta do nosso podcast.

No dia 27 de novembro de 2024, esse é o número (provisório) de vendas dos dois Noites Estreladas juntos:

Essa é a dimensão do meu fracasso de público.

***

O fato é que o negócio é praticamente de graça e ninguém deu bola. O ego dói um pouco... Ok. Dói muito. Se está assim no começo, deve ir até o final sem [quase] ninguém interessado, muito embora, em respeito a esse quinteto de boas almas, irei até o final, publicando todos os oito encartes. Só não garanto que voltarei mais a produzir podcasts. Na minha cabeça, Starman será a última série d’os Escapistas.

Meu momento “Syd Dallas” foi quando me vi no dia do aniversário, editando o podcast e o texto do encarte... E de algum modo, me senti incomodado porque ia sair sem concluir os trabalhos, sendo que, naquele instante, minha família me aguardava para comemorar esse natalício. Foi ali que a ficha começou a cair.

Não vale a pena. A conta não fecha. É hora de fechar. É hora da última escapada.



[1] O que não me diz nada, ou melhor, até diz, mas sigo na toada do Paulo Coelho.

[2] Longe de mim me comparar ao grande Moacyr Scliar, mas me lembrei desse trecho enquanto reescrevia meus garranchos: “[...] A ideia que as pessoas têm é que o escritor é um cara que escreve com tremenda facilidade, que vai botando as palavras. Mas não é assim. O escritor tem essa facilidade, mas, ao mesmo tempo, ele tem um nível de exigência que o comum das pessoas não tem. Vejo pelos e-mails que escrevo. A pessoa escreve uma frase, pode não estar bem escrita, mas tudo bem, porque serve para transmitir o pensamento dela. O escritor não se contenta com isso. Ele quer transformar a palavra num instrumento de criação estética, e isso exige um esforço. Daí a necessidade de reelaborar. Garcia Marques, em O outono do patriarca, reescreveu 16 vezes o primeiro parágrafo. E eu mesmo, na Zero Hora o pessoal me conhece, reescrevo muito. Mando a minha matéria, aí releio e penso: isso aqui eu podia melhorar. Aí melhoro, mando de novo, e digo, vale essa, aí mando uma terceira vez. E eles já estão acostumados. Jornalista, geralmente, não faz isso, escreve e manda. Tem muitos editores que tiram as obras dos escritores: “chega de mexer”, dizem. Na verdade, escrever é reescrever."

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

RÉQUIEM PARA OS MEUS SUPER-HERÓIS

Com a abstinência do Twitter, estou redescobrindo que antes de ser um tuiteiro aplicado, eu costumava usar esse blog como um espaço de descarrego. Não exatamente como cantilenas vazias, mas para comentar rapidinho o que estou assistindo, lendo e, claro, a inquietação do momento. Lógico que, com 280 caracteres, o papo lá era reto, retíssimo... Ainda assim, ao longo dos anos, deixei vários insights[1] que, hoje, por estarem inacessíveis, me arrependo bastante de não tê-los salvo num bloco de notas mínimo. Um erro que não cometerei mais. Ou irei de um jeito diferente e estranhamente parecido. De todo modo...

“ Apartar-se inteiramente da sua própria espécie é impossível. Para viver no deserto é preciso ser santo. ”[2]

✨✨✨

Nós nos achamos imortais. Compramos pilhas e pilhas de gibis, alguns dos quais, com dimensões e pesos que inviabilizam até mesmo suas leituras com alguma dignidade e ergonomia. O imediatismo ou a mera certeza da invencibilidade não dá chance para cogitar se, num futuro próximo/distante, sequer teremos condições de, por nossas próprias forças, retirar volumes assim da estante. Aliás, caso a (remota) possibilidade de virarmos ração de verme se concretize, só peço que Deus tenha piedade dos nossos entes queridos.

No meu caso, além do lugar onde moro, possuo caixas e mais caixas de quadrinhos acondicionadas na casa da minha mãe e sogra. Quer dizer, no dia que eu me for, tenho certeza que meu bom nome seguirá sendo profanado por um tempinho. Mas conjecturas mórbidas à parte – batam na madeira! –, no alto dos meus 42 anos, confesso que estou começando a olhar com outros olhos para a existência física de tudo aquilo que sempre gostei de ler ou ver e manter comigo aqui, à distância do braço.

Paradoxalmente, isso passa pela inversão da história do vazio de William King, de que os indivíduos colecionam objetos ante a necessidade de preencher vazios interiores, às vezes, por causa de experiências de vida negativas, outras vezes para sobreviver num mundo que considera hostil[3]. Por que falei em inversão? Porque sinto que meu próprio vazio já começou a transbordar e precisa ser esvaziado. Ou, caso contrário, não precisa mais ser preenchido, ao menos não no sentido físico.

Eu me peguei pensando nessas coisas enquanto lia Nêmesis, de Isaac Asimov. Não que o livro trate desse tipo intermitência da morte – ou será que trata?[4] –, mas enquanto o devorava ocorria o mais recente Prime Day e, com ele, vi promoções bem sedutoras em torno das coleções da Fundação, Série dos Robôs e Império. E aí, por reflexo, coloquei os (quatorze) livros no carrinho. Quando estava na iminência de pagar, parei e pensei comigo mesmo: “eu paguei e li todos via Kindle, por que preciso tê-los na estante?”.

Antes não os tivesse lido. Antes tivesse acabado de assistir a O Mundo Depois de Nós, e me apavorado com uma existência sem mídia física. Não é o caso, e não me assusto fácil. O período em que esses pensamentos começaram a tomar de assalto meu cotidiano coincide com a época em que estava concluindo a leitura de Starman. O arco de despedida de Jack Knight abriu um rombo no meu peito e preencheu todos os vazios super-heroicos que ainda teimavam em existir.

Senti como se eu fosse o Névoa e o próprio Ted Knight estivesse me levando embora. Contudo, em vez de explodir lá em cima, na estratosfera, sigo aqui embaixo. Isto é, no lugar mais baixo que já estive como gibizeiro, comprando as Sagas[5] que coleciono com uma má vontade daquelas; pechinchando os volumes de Lúcifer com o risco de vê-los esgotados; e – acredite se quiser – até um pouco enjoado da mídia como um todo.

Obviamente, deve ser algo passageiro, o que não muda o fato de que, agora, em 4 de setembro de 2024, eu sinta que fui embora junto com Jack. Sim, quando virei a última página de Starman nº 80, apagou uma luz e algo me dizia que, em matéria de super-heróis, nada mais precisava ser dito. A partida de Jack, resolvendo todas as pendências em Opal City, dirigindo-se para uma nova vida em São Francisco, é uma metáfora que grudou em mim.

Caracterizado como um outsider num mundo ficcional, Jack começa Starman como um super-herói relutante, aceitando o legado de família desde que o pai, Ted, use a expertise em energia cósmica para criar coisas úteis à sociedade. Com o tempo, ele aprende a curtir a experiência, faz vários amigos, alguns poucos inimigos e até realiza um mochilão pelas galáxias. Perdeu o irmão sem nunca conhecê-lo de verdade. Ganha um filho em circunstâncias bizarras. Conhece melhor o irmão num insólito além-vida. Conhece o amor de uma mulher. Perde o pai. Será pai novamente. Dá as boas-vindas a novos heróis locais. Decide se aposentar da vida de combate ao crime. Decide viver a vida com a família em outra cidade. Viver outra aventura.

Depois disso tudo, me respondam com toda sinceridade: O que resta para ler de super-heróis...?!

🌟🌟🌟

Enquanto aguardo vossas deliberações, seguirei lendo o meu 2º romance da série Parker, de Richard Stark. Outra hora, falo sobre isso. Por ora, uma dica de amigo: evite ler Starman! Esse gibi vai acabar com a sua vida.

🌠🌠🌠

Links Afiliados


[1] Porra! Lembrei agora de uma thread que fiz sobre a leitura da Biblioteca Eisner... Que ódio!

[2] Epígrafe contida em Golpe de Misericórdia, de Dennis Lehane.

[3] Uma ilação, hoje em dia, muito popular, saída das páginas da obra Collections of Nothing (2008).

[4] “[...] a vida é uma sinfonia de perdas sucessivas. Perdemos nossa mocidade, nossos pais, nossos amores, nossos amigos, nosso conforto, nossa saúde e finalmente nossa vida. Negar as perdas é perder tudo isso de qualquer maneira e perder, além disso, o autocontrole e a paz de espírito.”

[5] Quais sejam: Sagas do Batman, Superman, Mulher-Maravilha, Flash, Vingadores e X-Men.