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segunda-feira, 2 de setembro de 2024

LUGARES (AINDA MAIS) ESCUROS

"Essa é sempre a minha coisa; eu quero entreter as pessoas, mas é uma coisa de lobo em pele de cordeiro. A pele de cordeiro é a história do crime, eu acho. E o lobo é o verdadeiro significado da história, que eu muitas vezes nem sei quando estou escrevendo. [...] Eu nunca quero tentar fazer algo que pareça exatamente como o que fizemos antes. Até os livros Reckless parecem um pouco diferentes uns dos outros porque seus enredos são diferentes e acontecem em anos diferentes. A próxima coisa é sempre a mais difícil de escrever. É como um neo-noir de terror e suspense do Pânico Satânico. [...] É sobre uma mulher que fez parte [disso] nos anos 80 quando criança e que agora é adulta em nosso mundo moderno. Chama-se Houses of the Unholy. Sean disse que é a coisa mais estranha que já fizemos. Então, entenda isso como quiser."[1]

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Acabei de ler a graphic novel que o Ed Brubaker descreve acima. Tá quentinha ainda e faz só alguns dias que foi publicada, em 19 de agosto. Essa fala data de fevereiro de 2024. De lá para cá, o escritor pouco tem aparecido na internet; sua newsletter, por exemplo, foi atualizada pela última vez em junho último. À época, ele havia registrado apenas alguns bastidores das filmagens de Criminal. Nada de mais, já que, de um tempo para cá, Brubaker se tornou bem avesso à presença online, especialmente em redes sociais; das quais não mantém mais nenhuma.

Não obstante, o que vinha sendo uma regra dos seus lançamentos da parceria com Sean Phillips eram as entrevistas a dois no canal do Forbidden Planet, além dos posfácios em todas as obras de Reckless (2020) em diante. Nesses espaços, era possível vê-lo numa posição desconfortável – acredito eu –, falando de onde vinham as inspirações de cada projeto, não raro, de memórias & angústias do passado. Em Casas do Profano não ocorreu nem uma coisa, nem outra.[2]

O que, de maneira nenhuma, não é ruim. Faz o quadrinho soar ainda mais enigmático, dada a temática tão pesada. Para começar, mesclar a histeria coletiva frente ao satanismo com algo como o plot de A Caça (2012), com Mads Mikkelsen. No filme de Thomas Vinterberg, um professor de jardim de infância em uma minúscula cidade dinamarquesa, por um mal-entendido que foge de controle, acaba sendo acusado de pedofilia por uma de suas alunas. Doravante, verdade ou mentira, sua vida estava acabada e a película mostra cada centímetro dessa descida ao inferno.

Na trama de Brubaker & Phillips, a denúncia é feita por seis crianças após uma colônia de férias, porém, com o elemento do abuso ritualístico. O caso vai a julgamento com um dos acusados chegando à capitular a própria vida, tamanha a pressão e a proporção que estava chegando. No fim, fica comprovado que tudo não passava de uma mentira e os “Seis Satânicos” sofrem os reveses disso, tendo suas vidas e a dos familiares destruídas.

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Off-Topic, mas nem tanto:

Ao caminharem por esses lugares escuros, infelizmente, Brubaker & Phillips têm um sem número de fontes. Muitas das quais, inclusive, virando exemplos célebres de investigações tendenciosas e erros judiciários crassos nos Estados Unidos. Um deles foi o Trio de West Memphis, que não passavam de adolescentes metaleiros implicados num múltiplo assassinato de crianças escoteiras. Sem qualquer chance de defesa, com a polícia fabricando indícios e provas, além de perjúrios descarados, eles foram julgados em 1994 e ficaram presos até 2011, quando exames de DNA levaram à conclusão que o material genético na cena do crime não era de nenhum dos três condenados. Circunstâncias tão cinematográficas que chegaram mesmo às vias de fato.

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De volta à HQ, mas mirando o presente, a trama se volta para Natalie Burns como uma investigadora à moda Jack Herriman. Assim como o protagonista de Cena do Crime, ela fora contratada para resgatar outra jovem impressionável cooptada por alguma seita nefasta. Seria (também) um dinheiro fácil, não fossem as circunstâncias voyeurísticas de um dono de motel – ou chalés – que pensa estar visualizando um sequestro pelas câmeras ocultas e faz uma chamada para a polícia.

Ao ser detida para interrogatório, Burns é liberada sob a custódia do Agente West do FBI. Porém, rapidamente descobrimos que ele não está interessado no suposto rapto, mas, sim, num caso que chamou sua atenção. Antes do 11 de setembro, West compunha a Unidade de Crimes Cultuais do Bureau, porém a divisão foi dissolvida quando os federais passaram a centrar esforços em terroristas e milícias de extrema-direita. Fora que não contribuía em nada incidentes como o dos Seis Satânicos, desacreditando qualquer trabalho sério.

Entretanto, West acredita que as outrora seis crianças da infância de Burns estão sendo alvos de um assassino que não segue um padrão verificável. Sendo que três já haviam sido mortos e Burns podia ser útil em sua caçada solitária ao serial killer, seja na interlocução com os demais, seja evitando mais vítimas. Logo, a busca vira um road movie com a dupla trocando traumas passados, com discussões acaloradas sobre os (nossos) demônios contemporâneos.

É curioso que, às vezes, o aprofundamento de um tropo vem depois que o leitor valida uma história anterior e o escritor sente-se confortável para esticar a corda. O que quero dizer é que Casas do Profano vem na esteira, por exemplo, de Matar ou Morrer e transforma críticas anteriores em soda cáustica. A exemplo do inconformismo velado de Brubaker com o nativo das redes sociais; manifestado na alienação do irmão mais novo de Burns.

Por outro lado, a nova história não vira um Taxi Driver com um anti-herói delirante, que faz o que faz se dizendo influenciado por um demônio. Não existe catarse nos demônios de Natalie Burns; eles estão numa memória não confiável - formatada até - e numa culpa quase paralisante. Eis um gibi difícil, tanto no recordatório quanto na estética dos Phillips; onde os vermelhos (de Jake) pontuam os trechos no passado, sempre te levando a lugares de ocaso e opressão. Já os tons azuis no presente transparecem tristeza e a maldição de ser racional em meio a um mundo irracional.

Se leu e ficou mal, parabéns! Você leu certinho.

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[1] Excertos extraídos de uma entrevista concedida por Ed Brubaker ao site Gizmodo, na época do lançamento de Onde Estava o Corpo.

[2] Talvez pela falta de tempo, já que o homem, como disse, está envolvido na produção de Criminal. Ahh, e se não ficou claro, o nome "Casas do Profano" é informal, já que a Editora Mino ainda não sinalizou como vai se chamar o título quando - ou se - for lançado no Brasil.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

O ALFA E O ÔMEGA DE ED BRUBAKER

Cena do Crime (1999) é um Ed Brubaker na flor da idade, bruto, sem o refinamento que a experiência traria. Ainda assim, é um Brubaker cujos recordatórios densos e desesperançosos já estão lá, no seu cerne. É um roteirista querendo mostrar serviço na sua primeira chance numa editora major (DC/Vertigo), e ele o faz sem reinventar a roda, numa história básica de detetive particular. Básica, mas jamais superficial.

Na minissérie em quatro edições, Jack Herriman é contratado para encontrar o paradeiro de Maggie Jordan, uma garota problema. Tudo o que a mãe e a irmã mais velha querem é saber se ela está viva e bem. Uma vez que os rastros deixados por Maggie apontavam para um trabalho rápido, Jack não teve muita dificuldade. Ele até toma um café com a jovem e a conhece melhor. Em seguida, telefona para as parentes, e as tranquiliza. Pela manhã, ele é avisado que Maggie foi encontrada morta no quarto em que estava hospedada.

Jack se culpa pelo que ocorreu e decide solucionar o crime. O remorso surge por ter ignorado fácil demais o fato de que Maggie estava andando armada e aparentar estar fugindo de algo. No decorrer dos dias, ele toma ciência de uma trama pesada que envolve o passado da família Jordan e uma seita sexual. Segundo Brubaker, Cena do Crime é um dos (três) trabalhos responsáveis por hoje ele ter uma carreira. Não sem razão. Da primeira à última página, você fica imerso no mistério e também precisa das respostas que o protagonista persegue.

Lendo com Reckless na cachola, nota-se certas reminiscências entre Ethan e Jack. Os dois têm em comum um passado traumático onde a explosão de bombas lhes causaram cicatrizes físicas e emocionais. Bem como têm seus respectivos escritórios em lugares exóticos. Ethan num cinema, Jack numa galeria de arte. Quer dizer, "Cena do Crime" é o nome da galeria de fotos (artísticas?) do seu tio Knut Herriman, irmão do falecido pai de Jack. Knut é um velho fotógrafo de cenas de crime, digamos que um "líder de mercado" nesse ramo macabro.

Uma pena que os Herriman ficaram para trás. Em cinco edições, Brubaker criou personagens que você se importa e queria ver mais, talvez até mesmo nos universos de Criminal e Reckless, por que não? De saída, no posfácio da edição Mino, conhecemos a origem secreta da parceria com Sean Phillips.

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Quase que paralelamente à Cena do Crime, li o mais recente Brubaker/Phillips e dá para dizer que 2023 foi um ano esquisito para a dupla, no sentido que foram duas graphic novels bem introspectivas[1] e, em algum ponto, enredadas a partir de memórias e inquietações do escritor. Nesse sentido, acho que Where the Body Was – ou Onde o Corpo Estava – é uma história sobre a rua em que eu ou você crescemos.

Quem cresceu em rua de vizinhança deve entender do que estou falando. Daquele hábito imberbe de pegar fragmentos de informações sobre os vizinhos e criar dentro da própria cabeça histórias sobre eles. No fim, na vida real, todos são desinteressantes, mas na infância projetamos intriga e mistério. As cercanias desse gibi ficam localizadas na Pelican Road, e a trama tem lugar em 1984. O foco narrativo lembra o de um documentário True Crime; onde vemos os moradores no futuro falando sobre o verão daquele ano. Eles falam para o leitor, enquanto os fatos são reconstituídos na narrativa. Quais fatos? Num dia qualquer, um cadáver foi encontrado na calçada e 2hs depois desovado em outro lugar. O enredo tenta recuperar o que estava acontecendo na vida daquelas pessoas e, de algum modo, pontuar o incidente do tal defunto.

Me lembrou bastante o storytelling dos álbuns de Marcello Quintanilha; sobretudo no nível do turbilhão de emoções íntimas que a dupla está chafurdando. Da esposa infiel, do Ricardão que finge ser policial, da menininha vietnamita fã de super-heróis, do casalzinho de drogados... Em off, Brubaker confessa que mesclou ficção com notinhas das páginas policiais. Por sinal, tive a impressão que o personagem Tommy traz um pouco do escritor nos seus tempos de delinquente juvenil; aqui, um trombadinha que arromba casas nas redondezas para continuar comprando drogas com seu amor platônico. Algo que reforça o meu palpite é que, em 2023, Brubaker tinha 56 anos, exatamente a idade de seu suposto homólogo no futuro.

Daqueles gibizinhos que você seguiria lendo para sempre se não tivesse um fim.

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Antes de ir, uma coisinha bem legal que li na newsletter do Brubaker, enviada no dia 3 de outubro de 2023. Era o período em que o escritor começava a divulgar o lançamento de Onde o Corpo Estava, e aí na saideira do e-mail, ele escreve que recebeu uma pergunta – do leitor Ryan Atlas – que merecia uma resposta. Editei um pouco, mas basicamente foi esse o teor:

“O que você faz quando, por exemplo, está na metade da escrita de uma história e descobre que seu enredo está desconfortavelmente perto de outro filme, série de quadrinhos, romance, etc.? Eu não quero dizer um enredo que você já conhecia e conscientemente ou subconscientemente inspirou-se. Quero dizer, exemplos em que você gerou uma ideia original e depois se deparou com essa ideia que existia antes, mas nunca soube ou descobriu que seria a base para um próximo filme, romance, quadrinhos, etc. Você continua avançando e ignora o outro trabalho? Lê o trabalho do outro escritor apenas para ver o quão perto a história está da sua? Desiste completamente da sua própria história?”

Eis a resposta:

“Uma das poucas lições de escrita que recebi foi uma breve conversa com Archie Goodwin na Comicon quando tinha cerca de 14 anos. Ele perguntou quem era o meu escritor de quadrinhos favorito na época, e é claro que eu disse Alan Moore, porque ‘ele é muito mais original do que todos os outros’. Bem, Archie Goodwin muito educadamente me avisou que a originalidade é superestimada, que o trabalho de Moore teve diversas influências fora dos quadrinhos, mas o mais importante não era sobre isso. Era sobre como Moore contou uma história, e o que me atraía nela. Goodwin perguntou por que eu gostava tanto de Lição de Anatomia [Swamp Thing V.2 #21], e aí discutimos o texto de abertura e encerramento, um dispositivo de enquadramento que Moore usava muito  - o qual eu mesmo ainda uso –, o tom geral do trabalho de Moore e como ele fez o que fez na página. Ainda me lembro que Goodwin disse que o truque de ser um escritor é que, quando se resume qualquer história até seus detalhes básicos, você percebe que só existem quatro ou cinco tramas no mundo. Então, tudo o que importa é como você conta a história.  

Agora, isso não quer dizer que nenhum escritor jamais poderá chegar a uma cena que ninguém mais escreveu, ou que não há originalidade nos meus textos ou nos de quaisquer outros escritores. Mas o enredo ou o conceito alto, geralmente, não são onde essa originalidade é mais importante. É importante no desenvolvimento dos personagens e como a história se desenrola. Um mistério de assassinato, em regra, terminará com a revelação do assassino. Todos sabem disso. Ainda assim, continuamos lendo para ver como isso acontece. No mais das vezes, não existe final feliz para o personagem do noir, mas se a história for bem contada, vamos torcer para ele mesmo sabendo o quão ferrado está. O enredo ou conceito alto é uma espinha para construir o resto da sua história - sobre o que você está realmente escrevendo. A escrita se torna algo bem particular quando o enredo é menos importante que a forma como os personagens reagem a ele. 

Eis minha experiência pessoal, já que algumas vezes estive nesta situação. Quando estava fazendo um longo arco do Capitão América, descobriu-se que tanto Grant Morrison (em Batman) quanto eu tínhamos enviado nossos protagonistas numa viagem temporal, quando todos pensavam que os dois estavam mortos. Eu estava fazendo um riff com Matadouro 5 [de Kurt Vonnegut], não no Batman de Grant, então, apenas mantive minha cabeça baixa e ignorei o que as pessoas disseram sobre as semelhanças. No final, acho que ambas as histórias ficaram por conta própria, embora eu nunca tenha lido o dele e tenho certeza de que ele nunca leu o meu. A mesma coisa aconteceu com o Soldado Invernal e o Capuz Vermelho. Tanto Robin (Jason Todd) quanto Bucky foram revividos ao mesmo tempo, mas eu não tinha ideia de que a DC estava fazendo isso quando lancei o Soldado Invernal. Eu apenas me concentrei no meu trabalho e contei minha história e, no final, ninguém se importou com as semelhanças. Coisas da vida. 

Isso aconteceu também quando estava na 1ª temporada de Westworld, e o filme Ex Machina estava saindo. Nossos showrunners nos disseram para evitar o filme até que tenhamos terminado de escrever a temporada, para que não fôssemos afetados criativamente. E se tivéssemos escrito uma cena que fosse quase idêntica a desse filme? Podemos nos sentir compelidos a mudar o texto, mesmo que fosse uma boa cena, apenas para evitar as comparações. Nós não queríamos acabar nessa situação, então nos concentramos em nossa história. 

Outro exemplo. Muitas pessoas dizem que The Fade Out era meu riff com James Ellroy. Mas, na verdade, eu não tinha lido nenhum Ellroy desde Dália Negra, 25 anos antes, sendo que evitei seus livros de Los Angeles até recentemente, porque sabia que eles estavam cobrindo território semelhante à história que eu estava planejando escrever. Vinha pensando sobre The Fade Out por mais de uma década antes de escrevê-lo.  

Então, a coisa se resume se você crê que o conceito alto soa “original” e é mais importante do que qualquer outra coisa. Algumas vezes, você tem uma ideia e conta a um amigo e aí ele diz ‘oh, lembra aquele programa na Amazon’ e você pensa ‘me ferrei!’, só que aí você olha para a sua ideia, percebe o que é importante nela e muda algumas coisas sem, contudo, mexer na alma dela. Originalmente, DEADWOOD seria um série sobre os primeiros cristãos em Roma, mas a HBO tinha acabado de dar luz verde a ROMA, então David Milch se atentou para o que mais queria no seu próprio seriado e transformou-o em um faroeste sobre a busca pelo ouro mudando a sociedade, em vez de a religião [como catalisador]. Mas isso vale para a TV, no mercado editorial existe simplesmente um monte de livros sobre a mesma merda, e os que se destacam geralmente se destacam por sua execução, e nada mais.”

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Dá o que pensar, né?

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[1] Também redigi umas linhas sobre Febre Noturna, a outra graphic novel da dupla em 2023.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

THE PULSE 2024

Creio que a instituição do blog entrou na minha vida ali por volta de 2003... 2004. Eu tinha acabado de sobreviver a um daqueles Carnavais que ficam pra sempre marcados na nossa memória. E quando uso o verbo “sobreviver”, não sou eu querendo reescrever a história com tons de aventura. Quase morri afogado ao cair de uma canoa no meio de uma lagoa e por pouco não levei tiro de um pai preocupado, procurando a filha com um .38 numa mão e um megafone na outra.

Não lembro ao certo o que me motivou a registrar essas memórias num blog, mas quando o fiz, mostrei o texto aos amigos de farra e o feedback positivo me inspirou a escrever mais e mais. Doravante, eu não ficaria falando e inflando minha vida pessoal. O que queria dali em diante era apenas redigir algumas linhas sobre uma paixão na qual não tinha oportunidades de conversar com ninguém do meu entorno: quadrinhos.

Dali em diante comecei a perambular por hosts de blogs até me instalar em definitivo no bom e velho Blogger. Para batizar meu puxadinho, usei o nome em inglês The Pulse. Se fosse hoje, certamente teria usado o título em português, mas o fato é que era uma homenagem à revista The Pulse, de Brian Bendis. Esse gibi teve vida breve – só 14 edições! – e retratava o cotidiano de uma seção semanal do Clarim Diário, capitaneada pelos jornalistas Ben Urich e Kat Farrell. Porém, era também uma espécie de desdobramento de Alias, já que Jessica Jones deixa de trabalhar como investigadora particular e passa a ser uma especialista em super-heróis do folhetim.

Gosto de pensar que The Pulse poderia ter sido o “Gotham Central” da Marvel, mas, provavelmente, isso é uma coisa que só passou por minha cabeça. Com o quadrinho cancelado, imaginei com os meus balões de pensamento botões: “vou fingir que sou um redator do The Pulse e escrever os artigos que deveriam sair naquela seção.”

E assim o fiz por alguns bons anos, parando, recomeçando, pausando e reiniciando até que uma hora descobri o Twitter e o formato do microblog com breves caracteres me seduziu ao ponto de fechar em definitivo essa porta. Não só isso. Me meti também com mudança de carreira, mestrado, doutorado e podcast.

Muito podcast!

Num primeiro momento com os 7 Jagunços e depois com Os Escapistas; no qual sigo como host e editor ao lado de Reginaldo Yeoman, Mauro Ellovitch, Maurício Dantas, Luís Do Vale e alguns outros comparsas que me aturam.

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Bom, se você esteve com a cabeça enterrada num buraco durante o último ano – e digo isso com muita inveja –, o Twitter vem implodindo a olhos vistos. Eis alguns sinais:

...só posso encarar minha insignificância e tentar parar de dançar na pista de um bilionário inescrupuloso. Pois, redigir por lá - mesmo com poucos seguidores e um engajamento mediano - é uma desonestidade intelectual comigo, 1º) porque detesto fragmentar um raciocínio mais elaborado dentro da estrutura mínima (de caracteres) do Twitter, e 2º) porque também é uma desonestidade intelectual com os outros, quando eu mesmo dou motivos para que permaneçam nessa plataforma parasitária. 

Isso quer dizer que vou apagar o meu perfil? Claro que não, até porque ainda não estou pronto para o eremitismo virtual (como um amigo meu) e fora que necessito desse espaço de divulgação para o podcast. Por outro lado, mesmo sendo um microblog, falta ao Twitter algo básico dos blogs tradicionais: a organização e uma forma simples de acessar posts antigos. Quer dizer, para localizar um tuíte de janeiro de 2023, precisa-se fazer filtros chatos de busca avançada, palavras-chave, tags, em vez de simplesmente achar o que deseja na página principal do perfil num arquivo simples.

Leia-se: deveria existir um jeito mais fácil & organizado de acessar tuítes passados. Se os antigos donos não davam a mínima para isso, acho impossível que Elon Musk faça um ajuste assim sem que o usuário não desembolse algum.

Não que ache meus tuítes um deleite de conteúdo, são só coisinhas que faço para arejar os pensamentos, fora que funcionam como bons exercícios de escrita. Quer dizer, eu gosto de tuitar. Sai fácil e mais rápido que quando encaro a página em branco no Word. Então, um modo de encarar o tuíte é que ele pode ser um pitch para textos num blog tradicional. E é exatamente aqui que entra esse velho novo The Pulse, um blog paralelo, de repositório (ou não), só para despejar neuroses & comentários de leituras gibizeiras & afins.

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Dica com link afiliado:


quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A GROUPIE DO CLUBE DOS 27

Gosto de imaginar que a epifania criativa que levou Ed Brubaker a construir o roteiro de sua mais recente graphic novel veio do derradeiro volume de Kill or be Killed [Vol. 4]. Naquela ocasião, Dylan, o protagonista, estava interno em uma clínica psiquiátrica, buscando um tratamento mais efetivo frente aos “demônios” que o atormentavam. A Ellie de My Heroes Have Always Been Junkies bem que poderia estar naquele mesmo lugar, ao fundo, no refeitório, numa sessão conjunta de terapia; só que, diferente de Dylan, sua obsessão era dirigida a músicos viciados em drogas – muitos dos quais, integrantes do mórbido Clube dos 27.

No entanto, é impossível não se deixar seduzir pelos argumentos de que as drogas ajudaram aquelas pessoas a transcenderem-se artisticamente, musicalmente; e à medida que o enredo vai ganhando corpo, não entra em cena um falso moralismo, um dedo acusador, pelo contrário, há sim algo quebrado em Ellie e, embora a própria saiba disso, se diverte com isso, desafiando o senso comum. Ela está internada, contudo não para se desintoxicar ou praticar os 12 passos; a resposta para tanto só virá perto do fim, e dará à narrativa um temperinho mais familiar, ao estilo Criminal.

My Heroes deve ser lido com o Spotify [ou análogo] a tiracolo, até porque o texto exige isso. Quer dizer, não dá para ignorar as menções a álbuns, canções e os casos [verídicos] que ecoam na vida da personagem. Ela internaliza seus ídolos e a biografia deles se confunde com a dela, em especial às de Billie Holiday, Gram Parsons e John Lennon.

Logo, não há outra maneira, é preciso ouvir e sentir. Se My Heroes fosse um filme, ele seria um filme indie, com uma trilha de fundo tocando baixinho, quase que incidentalmente. Passando a limpo, eis os tais heróis de Ellie:

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Vic Chesnutt, “Stevie Smith” [faixa]

The Beach Boys, “Pet Sounds” [álbum]

The Velvet Underground & Nico [álbum]

David Bowie, “Hunky Dory” [álbum]

Billie Holiday, “Darn That Dream” [faixa]

Billie Holiday, “Strange Fruit” [faixa]

Billie Holiday, “Carnegie Hall Concert” [álbum]

The Byrds, “Hickory Wind” [faixa]

Elliott Smith, “Between The Bars” [faixa]

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De longe, a minha sequência favorita é quando Ellie, aos 12 anos de idade, convence seu tutor a se hospedarem no Joshua Tree Inn, num quarto vizinho a suíte que Gram Parsons teve uma overdose de heroína e morreu em 1973. Dois detalhes saltam aos olhos: (1) a namorada de Parsons tentou reanimá-lo, colocando cubos de gelo na bunda dele; e (2) o melhor amigo do cantor, dizendo seguir o último desejo do falecido, roubou o caixão e queimou o corpo no deserto. Essa passagem  virou até filme em 2003, Parceiros até o Fim (Grand Theft Parsons):

 

Outra coisa: a citação a Elliott Smith me remeteu à trilha sonora de Gênio Indomável (Good Will Hunting, 1997) e isso levou a um paralelo que fez todo sentido na minha cabeça. Naquele filme, tínhamos Will, um sujeito espirituoso, que além de gênio, era genioso, de temperamento instável, e o gatilho para tanto tinha a ver com negligência e violência doméstica cometida pelo pai durante a infância dele. Volta para My Heroes. Lá atrás, eu disse que Ellie havia internalizado seus ídolos; na verdade, ela fez mais que isso. Ela heroicizou a dependência química da mãe de modo tal, que acabou substituindo o abandono afetivo[1] por uma causa maior: as drogas.

Outro detalhe importante, descobri nessa [excelente] entrevista com Ed Brubaker. A personagem Ellie tem um quê autobiográfico. Veja esse excerto:

[…] há certas experiências em sua vida que apenas se perdem na memória. Ficam mais vívidas que outras memórias do seu passado, certo? Estou numa idade em que olho para trás com carinho quando eu era muito infeliz na vida real, mas olho para trás e digo: “Aqueles eram os bons e velhos tempos…”

Minha infância foi bem estranha […] quando era criança, meus pais se divorciaram. Minha mãe se juntou ao A.A. e nos levava em todas as reuniões. Eu tenho todos esses momentos vívidos, quase táteis na memória, de estar nessas salas cheias de adultos falando sobre seu vício em drogas e alcoolismo. Todas essas coisas que eles fizeram. Acidentes de carro. Amigos que morreram. Só lembro de ouvir sobre coisas assim. Acho que por ter sido exposto a isso em tão tenra idade – ou talvez seja apenas minha própria natureza -, sempre senti empatia por esses tipos, que acabam viciados em drogas ou álcool. Eu também romantizo um pouco, já que minha mãe fazia parte daquele grupo, então eu sentia como se fosse algum tipo de tragédia familiar, ou algo do tipo.

Entre isso e essa glamorização dos viciados, claro, eu imediatamente disse: ‘Ei, drogas, vamos fazer isso!’ Eu entrei em muitas situações ruins, muitos problemas, mas sempre me recordo daqueles anos, dos meus 20 anos e de tudo aquilo passando de raspão em mim. Era jovem, estava com o ‘foda-se’ ligado, e a ficha não havia caído ainda. Só sabia que seria um artista e, sim, eu estava saindo com má companhia, cometendo pequenos delitos no caminho.

Mas isso ficou fora de controle, e eu entrei em sérios problemas e quase fui para a cadeia… então eu sempre tenho muitas lembranças daquela época. Eu acho que são algumas das memórias mais intensas da minha vida. Quando você chega perto de quase ir para a prisão, você nunca vai esquecer isso, quase como o jeito que você nunca vai esquecer a primeira vez que se apaixonou.

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Sobre o parceiro habitual de crime, Sean Phillips, a arte dele segue no crescendo de qualidade que afirmei em mais de uma vez. A curiosidade nesse trabalho em especial, contudo, fica por conta das cores: são de Jacob Phillips, filho de Sean. E não é mero nepotismo aqui, o rebento dá um verniz todo especial à jornada junkie de Ellie, com aplicações psicodélicas que sugerem uma viagem à base de narcóticos. 

Acho que o pai ficou orgulhoso. Eu sei que fiquei.

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[1] Não por acaso, Mother, de John Lennon, é evocada na reta final.