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terça-feira, 9 de janeiro de 2024

UM QUADRINHO DE DETETIVE

Não ganho muitos amigos falando bem do Tom King. Ao menos no meu entorno, sei que estou perdendo alguns e ele fazendo outros. Por sinal, amigos influentes. Bota influentes nisso.

Do lado de cá, minhas críticas ao trabalho dele nascem do seu run renascentista na revista mensal do Batman. Já falei rapidamente sobre isso e não mudo uma palavra do que escrevi ali em 2018; na realidade, acertei em antecipar que o modus operandi dele viraria a tônica naquele restinho década e foi além. Piora quando o escritor insinua ao editorial que mataria Alfred e - para a surpresa dele - teve sinal verde.

Isso, claro, foi de encontro com meu princípio básico e, de tão estapafúrdia, eu quis me convencer que essa atrocidade seria facilmente varrida para debaixo do tapete, mas ledo engano. Alfred segue enterrado a sete palmos de celulose e Chip Zdarsky, o atual roteirista, vem dobrando a aposta com ideias tão ruins quanto. Uma conversa para outro dia. Porque, hoje, contrariando novamente meus instintos mais primitivos, venho aqui falar de outro gibi bom do Tom King: Gotham City Ano Um.

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Slam Bradley foi um dos primeiros personagens criados por Jerry Siegel e Joe Shuster, os pais do Super-Homem. O detetive casca grossa estrelou a 1ª edição de Detective Comics em 1937; sendo que o Batman só viria a dar o ar da graça dois anos mais tarde, em 1939. Então, é uma sacada boa de Tom King e Phil Hester conectar os dois numa história do passado de Gotham. Na verdade, Bradley está no leito de morte contando para "Bruce" - sim, ele sabe quem está por debaixo do capuz - sua versão de como a cidade chegou a ser o lodaçal que conhecemos.

Segundo Bradley, isso teria ocorrido nos idos dos anos 1960, quando a bebê Helen Wayne fora sequestrada e o trágico desenlace do crime desencadeou mudanças estruturais e sociais em Gotham. Antes da "tia" de Bruce sumir do mapa, as taxas de criminalidade eram baixíssimas, e os avós estavam às vias de revolucionar a indústria química, construindo uma grande unidade no East End; até então um bairro negro ao sul, visto com desconfiança pela maioria branca no norte. 

O caso do rapto, porém, caiu nas mãos do ex-policial - expulso da corporação por dar uma surra em colegas racistas - e o faz, muito a contragosto, se envolver em uma rede de mentiras na qual os pais da menininha, o casal Richard e Constance Wayne, estão no centro. A história me lembrou bastante da 1ª temporada de Perry Mason (HBO Max), onde víamos também o sequestro de um bebê notório e, claro, um investigador particular às voltas com a polícia (corrupta), a família influente e tensões raciais. Outra semelhança é o fato de que Bradley e Mason serem veteranos de guerra.

Nada, no entanto, que prejudique a leitura do gibi. Na verdade, desde Alvo Humano, confesso que venho me surpreendendo com a escrita do Tom King, que soa mais objetiva e menos dada à melodramas baratos. Aliás, tanto as histórias de Christopher Chance quanto de Slam Bradley me fazem pensar o quanto, à essa altura, uma carreira autoral faria bem ao roteirista. Não posso esquecer de mencionar os trabalhos primorosos de Phil Hester (arte) e Jordie Bellaire (cores); o casamento perfeito entre a narrativa pulp noir com cores sóbrias & cirúrgicas. Fino.

Lá fora, Gotham Ano Um saiu como uma minissérie em seis edições. Por aqui já chegou como encadernado, felizmente, em capa cartão. Não obstante, o preço cheio ainda é caríssimo: 54 Lula$. Como peguei por 38 na Black Friday, acho que não foi lá mau negócio.

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Alerta de Spoiler >>> Ponto Polêmico

Talvez por ser um gibi que ainda está quentinho ou, quem sabe, ter sido algo que passou despercebido pelo grosso dos leitores, mas o fato é que ainda não ouvi/vi qualquer sinal de rebosteio em torno do plot twist duplo carpado sobre a História que conhecemos da Família Wayne. Em outra vida, isso talvez fosse me incomodar um pouco. Na vida que tenho agora, confesso que achei um barato. Estou falando da insinuação de que Bradley é o pai biológico de Thomas Wayne e, portanto, avô de Bruce.

Quer dizer, do jeito que o Tom King trabalha Bradley, quando a lâmpada na cabeça acende, fica impossível não estabelecer um link entre tudo o que ele é nesse gibi e o que o seu neto será em incontáveis gibis. Faz você voltar alguns passos e olhar de um jeito diferente para o velho detetive, como se estivéssemos testemunhando o código fonte de Bruce... do Batman. Fica até mais poético quando cai a ficha que Slam Bradley - como dito lá em cima - foi o anfitrião original de Detective Comics.

O que coloca em xeque o título preguiçoso do gibi. No lugar do King, por motivos óbvios, eu teria tascado um simples e direto A Detective Comic, Um Quadrinho de Detetive.

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terça-feira, 2 de janeiro de 2024

MORTO AO ENTARDECER

Christopher Chance é um guarda-costas pouco ortodoxo criado por Len Wein e Carmine Infantino em Action Comics #419 (dezembro/1972). Basicamente, uma reformulação de um personagem com a mesma alcunha, Alvo Humano, surgido em Detective Comics #201 (novembro/1953). Não é exagero nenhum dizer que trata-se de um ilustre desconhecido, com um ou dois destaques: 1) a série Vertigo com Peter Milligan em 2003; e 2) a série live-action produzida pela Fox em 2010.

É o tipo de construto ideal para Tom King torcer e distorcer sem que um fandom aplicado torne-se uma pedra no seu sapato. Tudo o que você precisa saber sobre ele é dito logo no princípio da maxissérie em doze edições: Chris protege seus contratantes assumindo o aspecto deles através de disfarces. Normalmente, ao atrair as miras para si, os agressores, assassinos e/ou desafetos perdem o elemento surpresa e são detidos ou coisa pior. No enredo de King, ele presta seus serviços a Lex Luthor e acaba tomando o veneno que seria para o arqui-inimigo do Super-Homem.

Ao ser examinado pelo Dr. Meia-Noite, Chance descobre duas coisas: 1) que só tem doze dias de vida; e 2) que a substância pode ter sido manipulada por algum integrante da Liga da Justiça Internacional.

Mais que o trauma de ter testemunhado o assassinato do pai, Chris guarda consigo o rancor inusitado de tê-lo visto implorar por sua vida. E é justo o que ele não fará nos últimos dias que lhe restam. Ele vai morrer com dignidade e ir dessa para melhor, descobrindo quem lhe "matou". Então, basicamente, trata-se de uma história de detetive onde vemos o "morto" investigando o álibi e os eventuais motivos que o(s) suspeito(s) teria(m) para envenenar Luthor.

Quem acaba se tornando seu elo de ligação com os integrantes da LJI é a Gelo; o que o faz entrar constantemente em rota de colisão com Guy Gardner, o ciumento ex-namorado dela. Em algum momento, Tora Olafsdotter vira algo mais e fica difícil não comparar o visual do casal com os de George Clooney e Ana de Armas. Por sinal, Greg Smallwood tem tanto mérito quanto King no prêmio Will Eisner 2023 de melhor minissérie. Vou mais longe, a história se torna o que é por causa do artista.

Ponto controverso: alguns amigos levantaram a bola que o casting dessa Liga sofreu descaracterizações ao longo da trama. Sendo bem franco? Sei que o King peca por esse lado - e a ficha corrida dele tem antecedentes criminais como Heróis em Crise para corroborar com a acusação -, mas não vi nada de mais nas interpretações dele sobre Tora, Beatriz, Ted, Michael, Guy, G'Nort e Dmitri.

Na realidade, penso que o roteirista se aproximou mais da versão novelesca de Dan Jurgens do que propriamente da fase cômica de Keith Giffen, J.M. DeMatteis e Kevin Maguire. Por outro lado, ouvi comentários negativos sobre a "interação" de Jonn com a Fogo, como se aquela situação meio "sadomasoquista" já não tivesse sido explorada antes na reta final do run de Joe Kelly. Desconstrução? Talvez seja só questão de perspectiva ou uma maneira personalíssima que cada um enxerga aquela equipe.

Meus destaques: a história conjunta com o Besouro Azul, no qual vemos como Ted Kord concilia o cotidiano de super-herói e bilionário do ramo das big techs (nº 4); a sequência de treinamento em defesa psíquica ministrada por Satúrnia, que desemboca numa cena de jantar com o Caçador de Marte (nº 5); a sessão de interrogatório conduzida pelo Soviete Supremo (nº 8); e a perseguição do "Batman" que não estava lá (nº 9).

Aliás, essa última é uma das melhores da maxissérie. Se não for a melhor. Nela, Chris acha que está sendo caçado pelo Batman e tenta ficar alguns passos - e um ou dois socos - a frente dele. É o tipo de história que sinto falta de ler nos títulos regulares do morcego.

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