2025
mal começou e já sinto náuseas antes de pegar no smartphone. Afinal,
ultimamente, ele só tem se comportado como um mensageiro portador de más
notícias. Fosse vivo, eu o mataria. Também pudera, foi este maldito aparelho que matou
David Lynch, matou em vida Neil Gaiman, deu posse a Donald Trump, mas, como
única exceção, salvou seu pescoço ao consagrar Fernanda Torres e Ainda Estou Aqui com suas indicações ao Oscar.
Então,
estava tudo bem entre nós, talvez estivéssemos, inclusive, caminhando rumo a um
#Sextou satisfatório. De repente, o aparelho desgraçado rompe nosso armistício
e traz a notícia do falecimento de Gianfranco
Manfredi. Aí não...
***
Falando
sério... Nem tenho cultura para comentar superficialmente o tamanho da perda
desse roteirista. Para mim, um escritor genial, com um nível de erudição,
fluidez e traquejo na mecânica gibizeira à altura dos imortais da 9ª arte. Para
o povo italiano, além da expertise nos fumetti,
um autor prolífico e multifacetado, compositor, romancista, ensaísta.
Estou
triste e, sincronicidade ou não, acredite, ontem à noite estava lendo Mágico
Vento nº 74. Quando bateu o sono, fechei o tablet exatamente nessa sequência:
Diana, a filha mais velha de três, escreveu o seguinte: “Artistas como ele nunca nos deixam. [...] Gianfranco sempre viverá através de tudo o que nos deixou e isso alivia nossa dor. Hoje, lembrando-se dele ouvindo uma de suas músicas, lendo uma das milhares de páginas que ele escreveu, ou pensando em um momento passado juntos, certamente o faria feliz."
Eu sei que ainda o farei muito feliz, dado o meu compromisso atual de ler as 57 edições de Mágico Vento que me restam, fora os vários números de Tex, as minisséries Face Oculta, Shanghai Devil e o que mais puder encarar em sua vasta bibliografia Bonelli. Será uma boa vida de leituras.
Costuma-se
dizer que quando uma história se liberta de seu criador, da segurança do
manuscrito, e passa a ser publicada e/ou exibida sob quaisquer suportes, enredo
e personagens já não mais pertencem àquele entusiasta de outrora. Tornam-se
parte do imaginário coletivo, a despeito do que o Copyright tenha a dizer sobre isso. Drácula
de Bram Stoker que o diga, publicado originalmente em 1897, foi tomado de
assalto no roteiro de Henrik Galeen para o filme Nosferatu (1922), de Friedrich
Murnau.
Quer
dizer, sem ter autorização para isso, todos os tropos do clássico de Stoker
foram explorados na icônica película do cinema mudo. Ironicamente, é no
derivado extraoficial que se acrescenta à trama do Conde vampiro, o plot do
interesse amoroso - ou chame-o do que quiser. Ironicamente², já em domínio
público há três décadas, em 1992, Francis Ford Coppola fez um combinado,
utilizando os elementos característicos de ambos. Ironicamente³, Coppola chamou
seu "Frankenstein" de "Drácula de Bram Stoker".
Corta
para 2024, nos créditos finais do mais novo remake de Nosferatu, vemos a
informação que o filme fora inspirado tanto no controverso script de Galeen
quanto no livro de Stoker. Trata-se de um sarrafo muito alto para o diretor
Robert Eggers saltar, sobretudo quando se tem ainda muito vívida a marca
imagética do que Coppola alcançou, especialmente nos dois primeiros atos.
Então, na minha cabeça, enquanto assistia, um duelo interno estava sendo
travado: Gary Oldman vs. Bill Skarsgård; Winona Ryder vs. Lily-Rose Depp; Keanu
Reeves vs. Nicholas Hoult; Anthony Hopkins vs. Willem Dafoe e Monica Bellucci vs...?!
Enfim,
o time de 92 sempre estava vencendo os desafios contra o de 24, inclusive, no
nível do roteiro, porém, com uma única exceção: o terceiro e último ato, que
trata das três pragas de Nosferatu. Acho que elas conferem tetricidade, uma
sensação de desolação, como se as vítimas de Wisborg tivessem acabado de
sobreviver a um desastre natural. Uma desesperança ao qual espectador (ou
leitor) nenhum havia se deparado até então.
O
que quero dizer é que, tenho minhas restrições[1]
com o Orlok - humanizado por um bigode? - e a sensação incômoda de que aquela
Ellen[2]
é uma Regan (de O Exorcista) no filme errado, mas o Nosferatu 2024 tem, sim, arroubos
estéticos/góticos merecedores de elogios[3]
e, claro, aquele desejo irrefreável de recontar as grandes histórias que
permeiam à coletividade. Um desejo que atiçou os ímpetos de Murnau, Coppola e,
agora, Eggers também.
[1] Confesso que antipatizei também com Van Franz, o análogo de Van Helsing. Na versão revista, Eggers o transforma numa figura vacilante, que jamais chega a ser
determinante para a resolução da praga de Nosferatu. É como se o (ótimo) Willem
Dafoe estivesse ali apenas para fazer react como intelectual atestando que ia
dar merda. Já o Orlok me divide. Aprecio todo o esmero na caracterização do personagem, tanto do ator quanto da produção, mas em momento algum o achei assustador. Aliás, depois que vi isso... Sem chance!
[2]Dediquei quatro anos da minha vida a Mina Murray de Bram Stoker e, em especial, a subversão
apócrifa da mesma por Alan Moore e Kevin O’Neill em A Liga Extraordinária.
Então, modéstia à parte, creio que possa me indispor um pouco com essa Ellen
amuada de Robert Eggers.
[3] [...] e as quatro indicações que recebeu
no Oscar 2025, quais sejam: melhor fotografia, melhor figurino, melhor cabelo
& maquiagem e melhor design de produção.
[4] Só não respeito esse ar um pouco pretensioso
que esse diretor exala quando dispara coisas como “a ideia de ter que fotografar um carro me deixa doente”.
Por
volta dos 36min de Cabo do Medo (Cape
Fear, 1991), existe um frame do ex-presidiário Max Cady que sempre via reproduzido em casting calls de fãs,
elegendo o ator Robert De Niro como uma caracterização perfeita do anti-herói
Wolverine. Se você tocar o play nesse exato momento, não tenho dúvidas que terá
náuseas e ficará horrorizado com a mera sugestão de que alguém cogitou que o
(honrado) Logan poderia habitar aquela pele.
No
enredo, após 14 anos, Max deixou a penitenciária e está decidido a transformar
em um inferno a vida de Sam Bowden (Nick Nolte), o defensor público que o
representou à época da condenação. É que durante o julgamento, o réu respondia
pela acusação de estupro e Sam deliberadamente ignorou uma dica importante que
poderia tê-lo inocentado. Porém, não era a percepção do defensor e, como
veremos no filme, por mais antiético que parecesse aquilo, no fim, Sam pode ter
feito algum bem ali. Por outro lado, enquanto cumpria pena, Max afirma que
transcendeu através da dor e do conhecimento, sendo ele próprio vítima de
estupros e, outrora analfabeto, encontrou o dom da erudição nos livros (e quadrinhos!); fora a
transformação do corpo, levando-o a cultivar músculos e tatuagens com mensagens
alusivas à vingança que se dedicaria.
Mais
que física, a retribuição de Max é psicológica, a princípio, tornando-se um
stalker e depois uma sombra constante no cotidiano da família Bowden. No lado
da direção, Martin Scorsese parece evocar a imagética opressiva e sonora do
cinema hitchcockiano e, se me permite a indiscrição, com algumas pitadinhas de
Sam Raimi na mistura.
--------------
O tema de Bernard Herrmann é o prelúdio magistral desse pesadelo.
--------------
Consultando os vencedores do Oscar de melhor ator, creio
que em qualquer ano, De Niro teria levado a estatueta com uma mão nas costas,
mas, em 1992, ele tinha pela frente ninguém menos que Anthony Hopkins e seu
imbatível Dr. Lecter. Com
Cabo do Medo quentinho na cachola, não deixo de imaginar que se o resultado
tivesse sido diferente, também não seria nenhuma injustiça. Era apenas uma
questão de "escolha o seu veneno".
Desisti
de comprar Mágico Vento. Por ter números espaçados da série original, a princípio, me animei com a possibilidade de colecionar as edições
capa dura (em cores terríveis). Comprei. Quando passaram a rarear, dei uma chance para as versões em formato italiano. Comprei também. Em algum momento, vi as duas fracassarem “mythicamente”. Eis que surge a Editora 85, reiniciando novamente a roda e, agora, com a ideia de publicar cinco
volumes em um. Tenho simpatia e torço pelo êxito dos novos publishers, mas fechei definitivamente essa porta; o que, contudo,
não me fez desistir da leitura dos gibis por outros meios.
Dos
131 fascículos da série regular, nesse momento que digito essas linhas, acabei
de ler o 66º. E como sempre, um sentimento vem à tona: o fascínio pela
minúscula seção de cartas, o maldito bendito Correio de Poe. A despeito da excelência das histórias, nenhuma das
três republicações chega perto de empatar a experiência que é ler o gibi com o
contraponto dos leitores e causos como o registrado abaixo:
Numa
era em que uma parcela expressiva dos novos desenhistas mal consegue entregar
suas 22 internas no mercado editorial US, com mais presença virtual que nos
quadrinhos onde supostamente deveriam estar, é curioso se deparar com o (bom)
motivo dos atrasos do artista sérvio Darko
Perovic.
***
Curiosamente,
quem fica a cargo da arte desse mesmo número é o croata Goran Parlov. Um dos nomes mais marcantes ligados a Mágico Vento e,
indubitavelmente, o grande desenhista do Justiceiro no século 21. E ainda que
mereça destaque o traço, mais que a estética, merece aplausos o argumento de Gianfranco Manfredi. Dessa vez,
depois de um período considerável entregando faroestes históricos, o roteirista volta ao
místico que é, na minha opinião, a temática por excelência do título.
Aqui,
Ned Ellis se vê as voltas com uma regressão
de vidas passadas, onde ele se transfere para o corpo de Ehecatl (ou Vento Sagrado), 800
anos no passado. Na trama, acuado pelos sacerdotes dos Mounds, esse ancestral foge rumo à segurança do Rio Mississipi ao lado da amada Janira o irmão Sethua, indicando que o destino de Mágico Vento sempre estaria atrelado aos
ameríndios.
A
única coisa que me frustra é não contar com esse recurso do Mágico Vento para
acessar memórias perdidas – quiçá, de vidas passadas. Na verdade, como mero
mortal, tenho uma memória desgraçada de ruim e percebei que, enquanto lia, algo
estava faltando ou me era minimamente familiar. Sim, e era verdade. A premissa
dos sacerdotes dos Mounds (ou os Antigos) já havia sido trabalhada anteriormente
por Manfredi, especificamente através do relato de Nuvem Vermela a Ned em MV nº54 – por sinal, também com a arte de Parlov.
Preciso escrever mais sobre esse gibi, até para evitar outros futuros transtornos.
Chega
essa época, começa a pipocar as listinhas de melhores do ano. Já fui mais aplicado
nesse quesito, de registrar em bloquinhos os meus destaques e até de fazer um
esforço sincero em leituras de lançamentos. Eu era mais novo. Hoje,
lamentavelmente, sou uma alma velha em um corpo decrépito. Como diria, o Sr.
Vonnegut: “Coisas da vida.”
Não,
não vou desperdiçar o seu tempo tentando capitular o meu Best Of, mas se me permite uma única exceção, eu gostaria de
redigir umas breves linhas sobre o meu livro favorito de 2024. Ou melhor, o meu
livro favorito de 1987.
***
Primeiro
de tudo, todo leitor que se preze está sempre em busca de um projeto exótico
para chamar de seu. Assistir à filmografia de Stanley Kubrick, ler na íntegra o
Quarteto Fantástico de Stan Lee e Jack Kirby... Tenho um amigo que pretende
zerar a bibliografia de Stephen King,
provavelmente contando com a crença de que ele é imortal. Por outro lado, creio que se nós, reles
mortais, pararmos tudo, nunca mais trabalharmos, nunca mais lermos um quadrinho
e desistirmos da vida social, talvez, só talvez consigamos chegar ao fim dessa odisseia
terrestre faltando ler uns 20 livros do King. Mas, se o meu amigo acredita que
pode fazer isso, eu é que não vou colocar juízo na cabeça dele.
De
qualquer forma, de meados de 2021 até agora, fim de 2024, também estou
movimentando um projeto pessoal: ler todos os romances de Isaac Asimov ligados diretamente e incidentalmente à chamada História do Futuro. O que seria essa
História do Futuro? Trata-se de uma expressão usada para denominar a conexão
entre os romances da Fundação, a Série dos Robôs e a trilogia do Império (Correntes do Espaço, Poeira de Estrelas e Pedra no Céu).
Somente aqui são quinze títulos. E então, avancei para outros que não fazem
parte oficialmente dessa História do Futuro, mas, como Asimov não consegue se conter, ele sempre trabalha conceitos que, para quem está imerso nesse
universo, com certeza serão percebidos como conexões. Isso inclui O Homem Bicentenário, Nêmesis e minha leitura mais recente, A Viagem Fantástica 2: Rumo ao Cérebro.
Antes
que você pergunte, existe uma explicação rápida para o nome deste livro sugerir
uma continuação. Isso ocorre porque, na verdade, o primeiro Viagem Fantástica (Fantastic Voyage) foi um filme de 1966,
em que Asimov trabalhou adaptando o roteiro – que não foi escrito por ele –
para um livro. Como a novelização chegou às livrarias antes do lançamento nos cinemas, muitos leitores acreditavam que o filme era uma adaptação de um
romance do Asimov. E isso o deixava bastante irritado, pois ele
acabou revelando mais tarde que não gostava do resultado, embora tenha se esforçado para dar
verossimilhança científica ao enredo, o que era uma de suas assinaturas estilísticas[1].
Portanto,
Asimov aceitou fazer esse trabalho encomendado, emprestando sua retórica
científica, mas depois se ressentiu disso. Em 1987, ele lançou uma continuação
que, na verdade, não era uma continuação. Trata-se de uma história original,
aproveitando apenas a ideia da miniaturização e a viagem dentro do corpo
humano em uma nave com propulsores de microfusão. Essa já é uma grande
diferença, pois no filme o veículo era classificado como um submarino.
Realmente,
não entendo por que esse livro precisava ser nomeado como se fosse uma
sequência, a menos que fosse uma exigência editorial ou uma questão de copyright da Fox, produtora do filme de
1966. Enfim, ainda não falei da história de Asimov. Estamos no século XXI,
provavelmente nos últimos anos desse século. Como o ano de publicação foi 1987,
naquele mundo real de outrora, Asimov ainda não havia testemunhado a Queda do
Muro de Berlim em 1989, tampouco a dissolução da União Soviética em 1991.
Assim, em se enredo, a União Soviética ainda existia, embora a Guerra Fria,
como a conhecemos, já tivesse ficado para trás. O que ocorria, de fato, era uma
corrida pelo progresso tecnológico:
Nesse
contexto, um neurofísico americano chamado Albert
Morrison passa a ser sondado pelos soviéticos para ajudar a solucionar um problema
enfrentado pelo projeto secreto de miniaturização. A descoberta da
miniaturização ainda não havia sido publicizada por canais oficiais ou
periódicos da comunidade científica internacional. Por outro lado, Morrison
vivia no ostracismo, ridicularizado entre seus pares, pois acreditava que,
durante seus estudos sobre o cérebro humano, utilizando um software criado por
ele mesmo, havia sido capaz de sentir ou ouvir pensamentos de terceiros.
Diferentemente
dos americanos, os soviéticos acreditam que as teorias de Morrison podem ser
verdadeiras. O problema é que ele nunca conseguiu reproduzir seu experimento,
isolando células nervosas, nem seus estudos publicados foram testados com êxito
por seus pares. Assim, seria uma oportunidade perfeita para ganhar credibilidade,
não fosse Morrison um completo covarde, fora que ele sequer acreditava que os
soviéticos já haviam dominado a técnica de miniaturização. Correndo por fora, a
Inteligência Americana, sabendo do interesse soviético, deseja que Morrison vá,
sim, com eles e reporte tudo o que fez e viu. Porém, nem com o aval dos Estados
Unidos ele se dispõe a ir.
Então,
Morrison é sequestrado e levado à União Soviética para ajudar no projeto. O
problema central está no alto dispêndio de energia na aplicação da miniaturização.
Caso não resolvam isso logo, o Partido provavelmente precisará pesar os prós e
os contras e fechar o projeto. O principal cientista soviético, Doutor
Shapirov, havia encontrado uma solução, mas não chegou a registrá-la antes de
entrar em coma. Assim, os cientistas soviéticos pretendem realizar uma viagem
ao cérebro de Shapirov para que Morrison use seu software e consiga ler os
pensamentos do cientista, recuperando o conhecimento perdido:
A
narrativa envolve toda a preparação para a viagem, a apresentação da tripulação
e os percalços da missão. A nave, precária e construída a toque de caixa,
reflete as limitações soviéticas. Para piorar, já que estão lidando com um
moribundo, o pequeno grupo tem um deadline
apertadíssimo para cumprir esse objetivo. Aliás, além de Morrison, completa o
time de “micronautas”: 1) Sophia, a
bióloga que controla os campos eletromagnéticos da nave, para que a mesma fique
invisível ao organismo de Shapirov, e não seja atacada por glóbulos brancos; 2) Yuri, o arrogante navegador que através
de um mapeamento dos vasos capilares, usa a corrente sanguínea para direcionar
a travessia até as células nervosas; 3)
Arkady é o piloto, engenheiro – e pinguço! –, responsável pelo projeto da nave
e, de certa forma, o alívio cômico por sempre compartilhar ensinamentos e
ditados espirituosos do pai; 4)
Boranova, a comandante da equipe, controla tanto os campos de miniaturização
quanto os ânimos exaltados na minúscula cabine de pilotagem.
E,
como é característico em Asimov, há o desenvolvimento de ideias científicas,
com conexões que podem sugerir a origem da telepatia no universo da História do
Futuro. Que é um dos grandes tropos dele. Se você leu a Segunda Fundação, com a trama do Mulo, seu cérebro chega a estralar quando começa a fazer as conexões;
inclusive, porque a telepatia segundo Asimov não é um dom à moda Charles Xavier. No estado de coisas de Fundação, a habilidade parte do princípio
comum do controle de emoções, com personagens empatas, capazes de fazer
leituras sensoriais do que se passa na cabeça alheia. Em Viagem Fantástica, é
possível visualizar os primórdios dessa habilidade, partindo de biotecnologia em
humanos aprimorados com potencial para possibilitar as estranhas aplicações em
robôs sencientes como R. Giskard
Reventlov e R. Daneel Olivaw.
---------------
Mas
Viagem Fantástica é um livro independente. Não é necessário saber de nada disso
e, confie em mim, além do sci-fi hardcore,
o texto ainda se arrisca como um thriller
de espionagem. Se me dissessem que era o John Le Carré, de O Espião que Saiu do
Frio, fazendo uma contribuição, eu cairia como um pato. Mas o que te faz fechar
os olhos e voar longe é imaginar como deveria ser esse traslado impossível, em
nível molecular:
Confesso
que depois desse trecho, até toquei o play na intro de Clube da Luta para rever
o labirinto de sinapses dentro da cabeça de Edward Norton.
Outro
sinal da rabugice que vem grátis com a idade: hoje em dia, não dou a mínima para
adaptações. Se tiver lido o livro ou o gibi que inspirou um live-action, meu interesse e empolgação
ficam abaixo de zero. Entretanto, adoraria ver um diretor sério brincando com
esse romance. E eis que, então, busquei rapidamente no Google se existe algum
plano de produzir um filme de Viagem Fantástica e olha ali...
Infelizmente, é um livro fora de catálogo. No
Brasil, foi publicado em 1987 pela Editora Best Seller e, em 1989, pela Nova
Cultural. Ainda é possível encontrá-lo na Estante Virtual por valores entre R$ 9
e 36, além de versões digitais em ePub para leitura no Kindle. Com 440 páginas,
li em dez dias. Não tenho dúvidas que você as lerá em bem menos tempo.
De nossa
última transmissão para cá, eu voltei com o rabo entre as pernas para o
Twitter, Trump[1]
venceu a agenda “woke”, trinta e poucos aloprados foram indiciados, provou-se
que Putin é um robô e, no lado de cá, preciso admitir que fui fraco e curti Absolute
Batman nº 1. Me sinto tão mal com isso que, toda vez que fecho os olhos,
vejo um Dennis O’Neil cabeludo me julgando.
Sim, parece
que estava de férias do blog, sem redigir nada, mas foi justo o contrário.
Recentemente, no lado d’os Escapistas, nós concluímos as gravações da nossa
série dedicada ao Starman. No total, para vencermos as oitenta edições,
especiais e minisséries, foram necessários oito episódios; separados por meses
e até anos para concluirmos tudo. Enquanto dura essa fase de (re)leituras,
pesquisa, anotações, redação de pautas e, finalmente, o plugue conjunto de
microfones com o elenco, os brutos já produzidos ficam salvos e intocados. Com
a minha paranoia, mantenho tudo em HDs externos, DVDs de dados e drives na
nuvem.
Consequentemente,
a solitária fase de edição e tratamento dos áudios só começa quando me dou por
satisfeito nesses atos preparatórios. A “pós-produção” já foi mais light, e
agora me demoro demais justo pelos dissabores oficiosos da vida cotidiana. O déjà vu não é por acaso, visto
que sempre entro numa espiral doida de mau humor quando uma série, de fato,
conclui, tendo publicado todos os episódios. Dessa vez, acrescentei um
ingrediente à mistura que piorou minhas crises existenciais.
Guarde esse
pensamento.
***
Não sou o
maior fã de Chip Zdarsky. Em termos de Batman, eu acho que ele tem
entregado se não o pior, certamente um dos piores runs que já li do
personagem. Dos Novos 52 para cá, não tenho a menor dúvida. É o pior.
Posto isso,
nesse meio-tempo que sumi, encarei Domínio Público, uma obra totalmente autoral
desse roteirista/desenhista. É outro Zdarsky. Um que te dá a exata noção do mal-estar
que atravessa a atual geração de criadores em meio a editoras majors. O
temor de, inadvertidamente, criar um “Soldado Invernal” e ter que lidar
com as mesmas frustrações que Ed Brubaker.
---------------
Se estavas
em Marte em 2021, à época da estreia da minissérie de Sam & Bucky no
Disney+, Brubaker fez um desabafo na sua newsletter, a princípio rasgando
elogios as pessoas de Anthony Mackie e Sebastian Stan...
“[...]mas,
ao mesmo tempo, na maior parte, tudo o que Steve Epting e eu recebemos por
criar o Soldado Invernal e seu enredo é um 'obrigado' aqui e ali, e ao longo
dos anos isso se tornou cada vez mais difícil de conviver. Vi até altos
escalões do lado editorial tentando levar o crédito pelo meu trabalho algumas
vezes, o que foi bem irritante (para deixar claro, NÃO estou falando de Tom
Breevort, que foi um ótimo editor e muito prestativo). Então, sim, sentimentos
mistos, e talvez seja sempre assim (mas espero que não). Trabalho por encomenda
é o que é, e sinceramente estou emocionado por ter cocriado algo que se tornou
uma parte tão grande da cultura pop - ou mesmo da subcultura pop com toda a
ficção slash Bucky-Steve - e aquela temporada no Cap, enquanto fazia quadrinhos
de super-heróis, foi um dos momentos mais felizes da minha carreira. Além
disso, tenho uma ótima vida como escritor e muito disso é por causa do Cap e o
Soldado Invernal trazendo tantos leitores para meus outros trabalhos. Mas
também não posso negar que às vezes me sinto um pouco enjoado quando minha
caixa de entrada enche de pessoas querendo comentários sobre o programa."
---------------
Voltando
para o presente, ou melhor, para Domínio Público, o enredo de Zdarsky vai ao
encontro exatamente desse medo contemporâneo de não ser dono do seu trabalho.
Na realidade, esse nem é o dilema do desenhista Syd Dallas. É o da esposa e dos
filhos, que descobrem que um super-herói criado na juventude do artista, ao
contrário do que acredita a multinacional que o explora economicamente,
pertence ao seu marido/pai.
Adoraria
falar mais sobre, mas para os fins desse texto, o que ficou de verdade comigo
foram três páginas. Elas mostram que Syd, mesmo sabendo a verdade, teme o
alvoroço jurídico e o entrechoque com os publishers, dos quais sempre nutriu
uma relação profissional amistosa. Contudo, o que ele não percebe é que o seu
trabalho teve um alto custo na vida pessoal, e quem pagou a conta foram os
entes queridos. Então, lutar pela aquela propriedade intelectual é um dever por
aqueles que sempre estiveram no andar de cima, aguardando pacientemente [ou não]
o término daquelas artes:
Taí... O
Zdarsky me pegou nessa. Tanto que não tive como não trazer para minha própria
realidade. Quer dizer, quantas vezes me peguei diminuindo o valor do meu
trabalho, seja o oficial, que lida com os boletos, seja o que faço n’os
Escapistas...?! E eis que, na esteira de Domínio Público, quando faço isso, percebi
que não sou o único que está pagando essa conta, são as pessoas que contam
comigo.
É sempre o
problema de precificar algo tão do nosso cotidiano, que sequer imaginamos que
do outro lado, quem está produzindo, encara aquilo como um trabalho e ficaria
muito feliz que sua tapinha nas costas lhe rendesse alguns trocados. Inclusive,
pensei nisso enquanto lia o e-mail do Érico Assis, tentando motivar os leitores
de sua newsletter a pagar por uma
assinatura. Acho justíssimo.
Por aqui, queria ver também se conseguia levantar um tutu para arcar com alguma despesa
d’os Escapistas, e a forma que arrumei foi utilizar minhas anotações e
materiais de pesquisa como encartes dos programas. Na estreia de Starman –
nesse momento com dois episódios publicados –, lancei esses encartes como
E-Books do Amazon Kindle. Cada um dos oito podcasts acompanhará um encarte do
que chamei de Noites Estreladas.
Foi isso que
me afastou do Pulse. A edição dos programas e a reescrita[2]
dessas anotações. Algo que vem me consumindo... e me frustrando mais do que o
habitual. Por que motivo, você me pergunta. Porque nossa audiência é razoável
para um podcast de quadrinhos, e pior que isso, um podcast completamente
especializado, que foca em séries longas e passa até meses sem que outra se
inicie.
Um episódio
nosso tem em torno de 600... 800 plays. Um número irrisório para um canal de
YouTube, mas para o nosso microcosmo, é até uma audiência razoável. Não raro,
Os Escapistas figura nas paradas nacionais do seguimento Hobbies; vale dizer, até
em paragens internacionais, ganhando algum destaque entre nossos irmãos lusitanos.
Logo, vejam
meu raciocínio: cada um dos Noites Estreladas custa apenas R$ 2,00. Vamos
combinar que é um valor simbólico, do qual faço questão de mencionar que
funcionaria como um apoio ao programa, já que não temos condições de manter uma
campanha de financiamento em Catarse ou congêneres. Para ser franco, foi o único
meio que consegui viabilizar para arrecadar algo, tendo em vista que a periodicidade
é bem esporádica, quase como se fizéssemos séries/antologias documentais sobre
temas específicos. Também não é algo que mudará minha vida financeira, tampouco
conto com isso, mas dá um trabalho daqueles.
Nos dois primeiros
programas, faço questão de pedir com todas as palavras o apoio do ouvinte que gosta
do nosso podcast.
No dia 27 de
novembro de 2024, esse é o número (provisório) de vendas dos dois Noites
Estreladas juntos:
Essa é a dimensão do meu fracasso de público.
***
O fato é que
o negócio é praticamente de graça e ninguém deu bola. O ego dói um pouco... Ok.
Dói muito. Se está assim no começo, deve ir até o final sem [quase] ninguém interessado,
muito embora, em respeito a esse quinteto de boas almas, irei até o final,
publicando todos os oito encartes. Só não garanto que voltarei mais a produzir
podcasts. Na minha cabeça, Starman será a última série d’os Escapistas.
Meu momento “Syd
Dallas” foi quando me vi no dia do aniversário, editando o podcast e o
texto do encarte... E de algum modo, me senti incomodado porque ia sair sem
concluir os trabalhos, sendo que, naquele instante, minha família me aguardava para
comemorar esse natalício. Foi ali que a ficha começou a cair.
Não vale a pena. A conta não fecha. É hora de fechar. É hora da última escapada.
[1] O que não me diz nada, ou melhor, até diz,
mas sigo na toada do Paulo Coelho.
[2] Longe de mim me comparar ao grande Moacyr
Scliar, mas me lembrei desse trecho enquanto reescrevia meus garranchos:
“[...]A ideia que as pessoas têm é que o escritor é um cara que escreve com
tremenda facilidade, que vai botando as palavras. Mas não é assim. O escritor
tem essa facilidade, mas, ao mesmo tempo, ele tem um nível de exigência que o
comum das pessoas não tem. Vejo pelos e-mails que escrevo. A pessoa escreve uma
frase, pode não estar bem escrita, mas tudo bem, porque serve para transmitir o
pensamento dela. O escritor não se contenta com isso. Ele quer transformar a
palavra num instrumento de criação estética, e isso exige um esforço. Daí a
necessidade de reelaborar. Garcia Marques, em O outono do patriarca, reescreveu
16 vezes o primeiro parágrafo. E eu mesmo, na Zero Hora o pessoal me conhece,
reescrevo muito. Mando a minha matéria, aí releio e penso: isso aqui eu podia
melhorar. Aí melhoro, mando de novo, e digo, vale essa, aí mando uma terceira
vez. E eles já estão acostumados. Jornalista, geralmente, não faz isso, escreve
e manda. Tem muitos editores que tiram as obras dos escritores: “chega de
mexer”, dizem. Na verdade, escrever é reescrever."
Pelos
últimos textos, dá para perceber que ando numa fase meio niilista, com um humor
ranheta típico de quem aprecia o inverno de Northampton e agora é verão na cidade. Talvez por isso esteja me voltando tanto para o Noir e/ou
historinhas mais urbanas, pessimistas até. Quer dizer, setembro mal chegou a
metade e, fazendo um balanço parcial, tudo o que consumi, basicamente, foi
nessa toada.
A começar
por Fogo contra Fogo (Heat, 1995), de Michael Mann. Uma reprise
que, até então, acredite ou não, jamais havia feito. Dá para dizer que, depois
de tanto tempo, foi como ver o filme pela 1ª vez, já que lembro vividamente de
alugar a fita VHS quando ainda era lançamento; talvez em 96? Enfim, acho que as
quase três horas de projeção foram o que chamam de experiência religiosa. E não
errei na colocação do substantivo: foi projeção mesmo![1]
***
As linhas
gerais do enredo ainda estavam intactas na memória: uma quadrilha altamente
especializada, liderada pelo ladrão mestre Neil McCauley (Robert De
Niro), é caçada pela unidade de crimes especiais de L.A, sob a supervisão do detetive-tenente
Vincent Hanna (Al Pacino). Por outro lado, toda a argamassa entre esses
dois, já havia se esfarelado na cachola e tornou a experiência em algo novo.
Logo, as relações que os dois antagonistas constroem – e/ou destroem –, quase
no nível de um seriado de TV, dada a pressa inexistente para desenvolvê-las,
são coisas que ficaram comigo.
"Hanna
era assombrado por sonhos, cadáveres em uma mesa comprida olhando para ele.
Eles ficaram em silêncio. A aparência deles impunha obrigações, mas McCauley
não reconhecia obrigações. Ele tivera sonhos nos quais não conseguia respirar,
estava se afogando. Talvez estivesse ficando sem tempo, sugeriu Hanna. Eles
eram iguais, porque sabiam que a vida era curta, nós somos pegadas em uma praia
esperando a maré subir. E cada um navegava pelo futuro que vinha em sua direção
com os olhos bem abertos. Sensíveis, opostos em algumas questões, eles eram
iguais na compreensão de como o mundo funcionava, livres de ilusões e
autoengano. Ao mesmo tempo, cada um explodiria o outro sem hesitação. Eles
também sabiam disso. Mas aquilo poderia nunca acontecer. Eles poderiam nunca
mais se ver."
Da metade para o clímax acachapante, McCauley está decidido a buscar uma vida mundana, tratando o roubo final como seu
último trabalho, mas joga tudo para o alto quando cai na provocação de Hanna e deixa-se levar pelo
próprio ego. Já Hanna não poderia estar mais longe da normalidade, vendo o trabalho
sepultar outro casamento (3º). Ambos são obsessivos natos, tão gigantes que sequer
cabem juntos dentro da telona. E não cabem mesmo. Mann jamais enquadra o ladrão
e o policial num mesmo plano. Jamais. Isso é incrível.[2]
“O
mantra do criminoso era sair em trinta segundos caso sentisse o fogo inimigo
dobrar a esquina. Nate o lembrou disso. Hanna poderia cometer erros, poderia
acertar ou errar. Neil não poderia se dar ao luxo de errar uma única vez.”
Curiosamente,
o mantra de McCauley é testado por Hanna, exatamente quando ele se vê com a
(futura) ex-esposa no hospital, numa vigília pela enteada que acabara de salvar
de uma tentativa de suicídio. O seu bip toca e ela, pelo hábito da vida a dois,
sabe que é um chamado e Hanna, fatalmente, não aguentaria e iria atendê-lo. Eu não
voltei para cronometrar a passagem, mas gosto de pensar que a cena não dura
mais que trinta segundos. Assim, o mantra de McCauley vale não apenas para a iminência
de ser preso, mas, sim, de não se apegar a nada que levasse trinta segundos
para largar e fugir.
-------------
No fim
das contas, foi esse o erro de McCauley, de passar mais que trinta segundos
para desapegar. E nem me refiro a Eady (Amy Brenneman), o interesse
amoroso que, supostamente, o levaria à vida mundana na Nova Zelândia. A derrocada
foi ignorar os instintos e ir, resoluto, para a armadilha que a polícia montou em torno de Waingro
(Kevin Gage). Uma ponta solta que ficou atravessada num nível que impele McCauley a se desviar do final feliz, rumo ao avião da fuga, e ir ao hotel matar o ex-colaborador/serial
killer/dedo-duro.
E aí... Bem,
não sei se acontece com vocês, mas sempre que estou lendo algo, talvez por
sincronicidade, algumas coisas passam a tangenciar outras. Ocorreu agorinha
enquanto lia Parker: The Outfit, de Richard Stark, mais precisamente quando o
protagonista deixa transparecer algo que, em tese, talvez batesse com a
mecânica de um Neil McCauleuy mais jovem:
"Foi
um sinal ruim quando um homem como Handy começou a possuir coisas e começou a
pensar que poderia se dar ao luxo de ter amizades. Posses amarram um homem e
amizades o cegam. Parker não possuía nada; os homens que ele conhecia eram
apenas isso, os homens que ele conhecia. Eles não eram seus amigos e não
possuíam nada... Quando um homem como Handy começou a ansiar por posses e
amizades, isso significava que ele estava perdendo a dureza. Foi um mau sinal."
Essa
dureza de Parker parecia estar ali no comecinho de Fogo contra Fogo, de McCauley não
carregar bagagem. De McCauley simplesmente ser como uma rocha – ou os metais
que estudava para um golpe – ou uma montanha ou uma lei da natureza. Um bom exemplo da "materialização" desse vazio existencial está no(s) apartamento(s). McCauley tem nada menos que uma geladeira e a vista para o mar; Hanna, uma TV de 19" polegadas. São homens experientes que, embora corroídos pelo Nada, seguem em frente... inexoráveis. Por outro
lado, olhando em perspectiva, é engraçado pensar em De Niro e Pacino como dois homens
velhos, sendo que, à época, o primeiro tinha 52 anos e o segundo, 55; e ambos
estavam inteiraços.[3]
***
A propósito,
os excertos em prosa sobre Fogo contra Fogo pertencem a sequência romanceada pelo
mesmo Mann, e ladeado da escritora Meg Gardiner. A história do livro começa poucas
horas depois dos acontecimentos do filme e, por incrível que pareça, faz quase
dois anos que foi lançado no Brasil. Digo isso porque me enquadro no público-alvo
e não lembro de ter visto qualquer divulgação. Como o diretor pretende filmar a
continuação, é questão de tempo até que o romance comece a atrair a atenção de
Booktubers & derivados.
De todo modo, se vale de alguma coisa, estou lendo
Heat 2, alternando com Parker... Logo, meu Noir interior tá saindo
pelo ladrão.
***
Link Afiliado
[1] Comprei um mini projetor e, desde então, tudo virou
cinema em casa.
[2] A foto que ilustra e encabeça o post é puro bait.
É de bastidores.
[3] Sendo franco, estão melhores que eu, com
42. Porra... Preciso cuidar melhor da carenagem.