O atual Twitter, nunca “X”, é
uma zona, mas ainda é possível descobrir coisas interessantes por lá. Uma delas
foi descobrir que o perfil de André Lima Araújo, um nome que passaria
tranquilamente pelo de um brasileiro, e o qual eu já seguia há um tempinho, na
realidade pertencia a um lusitano, de Ponte de Lima – conhecida como a vila
mais antiga e, provavelmente, mais linda de Portugal. Seus esboços,
compartilhados na rede, sempre me chamavam a atenção por lembrar o detalhismo
visceral de um Geof Darrow (Hard Boiled), porém, foi só quando li Uma Justa Sede por Vingança (A Righteous Thirst For Vengeance, Image/2021) e que fiquei realmente impactado com a narrativa de
Araújo: havia ali a cinética explosiva de um Hiroya Oku (Gantz) e a
contemplação do mundano, à moda slice of life, de um Jiro Taniguchi (O
Gourmet Solitário).
Fruto da colaboração com Rick
Remender, uma máquina azeitada de produzir gibis autorais, a dupla também
esclarece que se conheceu via Twitter e estendeu a parceria para outro projeto,
The Sacrificers, que ainda preciso ler. Falando especificamente de Remender,
do que li dele, tenho boas recordações, inclusive do período mais comercial na
Marvel, como o prazer culposo Franken-Castle e a elogiada Fabulosa
X-Force; da extensa bibliografia de indies, desponta Deadly Class,
com Wes Craig, entre as minhas preferências; sobretudo por conta do elemento
autobiográfico, como expiação de uma juventude problemática fruto de abusos
mil, alguns deles, parentais, o inspirando a escrever Escape, com Daniel
Acuña.[1]
Não obstante, até onde sei,
Remender não tira de Uma Justa Sede por Vingança alguma anedota de sua
vida pessoal, o que, vamos combinar, seria preocupante se tirasse. Também
estanca sua verborragia usual, rica em monólogos internos densos, em prol do storytelling
silencioso de Araújo, com diálogos mínimos dispostos numa quantidade privilegiada
de ângulos e tomadas. Quase um projeto arquitetônico em forma de gibi, haja
vista a profissão anterior do desenhista, que é arquiteto de formação. No
enredo, ambientado inicialmente em Vancouver, temos Sonny Wen, um investigador
de seguros – a cara do ator Benedict Wong – que topa com o anúncio para um
assassino profissional na dark web e que, confrontado com a proposta, decide assumir
a identidade do matador e evitar que a morte encomendada aconteça.
Só que, quando Wen chega ao
local, ele descobre que não foi o único assassino a ser chamado e ingressa numa
jornada com requintes de Onde os Fracos Não têm Vez e Estrada para
Perdição, em que será caçado e viverá uma paternidade involuntária. Sem
explicar muito, as onze edições vão dando conta de uma figura antagônica
desprezível, quase um híbrido de Trump e Epstein, um tipo que certamente teria
saído dos quadrinhos mais tresloucados de Garth Ennis. E quando não é isso,
paradoxalmente, as páginas de Uma Justa Sede por Vingança são permeadas
por passagens bucólicas, com rotinas da vida cotidiana, como pegar um ônibus,
comprar camarão na feirinha ou visitar os seus entes queridos... isso até que a
violência irrompa de forma repentina e tudo vá para o inferno... o inferno na
Terra.
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Off-topic, mas nem tanto...
John Siuntress é uma figuraça na cena dos quadrinhos norte-americanos, uma vez que seu podcast, Word Balloon, provavelmente é um dos pioneiros nesse nicho, estando por aí desde 2005. Antes disso, ou paralelo a isso, vai saber, ele já era um repórter experiente da CBS Radio Chicago, o que dá a exata noção do bom traquejo na mídia e da interlocução com vários expoentes da indústria, seja das majores, seja da cena independente. A maior parte do acervo é em áudio, mas, de um tempo para cá, Siuntress tem disponibilizado os programas em vídeo, no YouTube – por sinal, algo maravilhoso, já que, atualmente, dá para assistir aos papos com legendas em português BR. Uma diversão involuntária é notar que Siuntress, uma cria do rádio, pouco se importa com a qualidade das imagens, inclusive da própria, que parece ser gravada com uma Tekpix e numa tela verde de quinta categoria.
De todo modo, no último dia 5 de setembro, Remender foi o entrevistado da vez, objetivando a divulgação de Hammerfist, nova série com a colaboração inédita de Steve Epting (Velvet); segundo o escritor, Cães de Aluguel encontra Evil Dead II. O que é uma analogia válida, visto que o protagonista, Mike Denton, parece mesmo ter saído do filme de estreia de Quentin Tarantino e ser um daqueles ladrões com alcunhas de “Senhor alguma cor”, que em algum momento se depara com uma força arcana irresistível. Denton, na realidade, é um jagunço que mata gente por qualquer trocado, desde que isso compre a próxima dose de crack e a brisa lhe leve para longe dos deveres e responsabilidades com a filha. Tudo mudaria se o belo butim prometido num assalto a banco de que participaria fosse mesmo pago; algo que, como veremos, era um embuste para reunir algumas buchas de canhão e acessar uma enigmática manopla de poder. O detalhe é que, diferente dos outros comparsas, Denton sobrevive e fica com o objeto, imaginando se aquilo renderá uma boa grana.
Para além disso, Siuntress
cava uma longa discussão sobre a fidelização do público com a sua produção
autoral; a difícil busca por renovação entre leitores que, cada vez mais, se voltam
exclusivamente para os mangás; e – a melhor parte – o retrospecto da passagem
na Marvel. Essa última, inclusive, rende mais um desabafo de um criativo com a
falta de valorização ($) da “Casa das Ideias” pelas ideias dos seus, e, nesse
caso específico, tal como as queixas de Ed Brubaker, curiosamente, também em
cima do background do Capitão América; agora, no lugar de Buck “Soldado
Invernal” Barnes, a conversão de Sam Wilson de Falcão para o próprio Sentinela
da Liberdade.
Vale conferir.
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[1] “Minha história familiar pelo lado do meu pai sempre foi um mistério. Meu pai nunca se deu bem com o próprio pai, saiu de casa aos treze anos e raramente falava do meu avô depois disso. Eu sabia que ele tinha sido piloto – um acrobata aéreo nos anos 1930, dando voos turísticos, vivendo sobre os céus de Nebraska, e depois servindo na Segunda Guerra Mundial –, mas pouco além disso. Só quando meu pai faleceu, alguns anos atrás, é que a história completa do meu avô entrou em foco. Enquanto organizava arquivos antigos da família, encontrei recortes de jornal que documentavam seu distinto serviço na Força Aérea durante a Segunda Guerra Mundial. Eles detalhavam suas condecorações e contribuições cruciais para derrotar Rommel no Norte da África — feitos dos quais eu nunca soubera. Isso me lembrou de algo que meu pai certa vez me disse: os pilotos, incluindo meu avô, recebiam metanfetamina rotineiramente para permanecer acordados durante horas intermináveis no ar. Ele voltou para casa vitorioso, mas profundamente abalado, carregando um vício e uma alma despedaçada que lançariam uma sombra sombria por três gerações. Essa luta pesou profundamente sobre meu pai, moldando sua vida – e, como todo trauma e abuso fazem – respingou na minha.”
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